Primeiro, vamos aos conceitos:
• PANS: Pediatric Acute-onset Neuropsychiatric Syndrome (Síndrome Neuropsiquiátrica de Início Agudo Pediátrica) - síndrome neuroimunológica caracterizada por início abrupto de sintomas obsessivo-compulsivos e ou restrição alimentar grave, acompanhados de múltiplos sintomas neuropsiquiátricos. O curso costuma ser flutuante, com remissões e recidivas, refletindo ativação e desativação do processo inflamatório cerebral.
• PANDAS: Pediatric Autoimmune Neuropsychiatric Disorders Associated with Streptococcal Infections (Desordem Neuropsiquiátrica Autoimune Associada a Infecções Estreptocócicas) - é considerado um subtipo de PANS, no qual o gatilho principal é a infecção estreptocócica. Nesses casos, alterações imunológicas como IgM reduzida e linfócitos CD8+ elevados têm sido associadas a maior risco de manifestações neuropsiquiátricas autoimunes.
Causas de PANS e PANDAS
O modelo fisiopatológico mais aceito envolve uma predisposição genética associada a um sistema imunológico desregulado. Há predomínio de resposta Th2, com tendência a alergias e produção excessiva de anticorpos, associado a uma resposta Th1 insuficiente, resultando em maior suscetibilidade a infecções recorrentes. Essas infecções levam ao uso frequente de antibióticos, corticoides e anti-histamínicos, o que contribui para disbiose intestinal e expansão da resposta Th17, associada a inflamação crônica e infecções fúngicas.
Paralelamente, uma alimentação pró-inflamatória, com exposição a proteínas como glúten, aumenta a liberação de zonulina, reduz a atividade enzimática digestiva e favorece o acúmulo de proteínas mal digeridas. Isso leva ao aumento da permeabilidade intestinal. O intestino torna-se uma fonte constante de estímulo antigênico, mantendo o sistema imune em estado de alerta crônico.
Em crianças, a barreira hematoencefálica é mais imatura e permeável. Em um contexto de inflamação sistêmica, disbiose, permeabilidade intestinal aumentada e predisposição genética, ocorre mimetismo molecular. Anticorpos produzidos contra patógenos ou proteínas alimentares passam a reconhecer estruturas próprias, especialmente neurais. Quando esses autoanticorpos alcançam o sistema nervoso central, instalam um processo de encefalite autoimune funcional.
Esse processo explicaria o início súbito dos sintomas psiquiátricos, cognitivos, motores e comportamentais. Infecções bacterianas e virais funcionam como gatilhos finais. Estudos mostram associação frequente com estreptococo beta-hemolítico do grupo A, Mycoplasma pneumoniae e vírus, incluindo SARS-CoV-2. Aproximadamente metade dos pacientes apresenta infecção bacteriana e metade infecção viral no momento do início dos sintomas.
Clinicamente, a PANS acomete principalmente crianças e adolescentes, com média de início em torno dos oito anos. Além do TOC e da restrição alimentar, surgem ansiedade intensa, irritabilidade, regressão comportamental, alterações sensório-motoras, prejuízo cognitivo, distúrbios do sono e labilidade emocional. Há alta prevalência de histórico familiar de doenças autoimunes, inflamatórias ou transtornos do neurodesenvolvimento, reforçando o papel genético.
