A inflamação crônica altera profundamente o metabolismo dos estrogênios modulando sua produção, interconversão, depuração e biodisponibilidade, o que pode resultar em um perfil hormonal mais estrogênico e potencialmente pró-proliferativo.
1. Aumento da produção periférica de estrona
Citocinas inflamatórias, principalmente IL-6 e TNF-α, aumentam a expressão da aromatase, especialmente no tecido adiposo inflamado.
Como consequência:
↑ conversão de androgênios (androstenediona) em estrona (E1)
Maior carga estrogênica periférica
Esse mecanismo é dominante em situações de obesidade, inflamação metabólica e envelhecimento.
2. Alteração da interconversão estrona ↔ estradiol
A inflamação modula as enzimas da família 17β-HSD, que controlam o equilíbrio entre estrona (E1) e estradiol (E2).
Pode ocorrer:
↑ conversão de estradiol (E2) em estrona (E1) em tecidos inflamados
Alteração do equilíbrio local entre formas mais e menos ativas
Resultado funcional: mudança no perfil estrogênico tecidual e alteração da sinalização hormonal local, mesmo sem grandes alterações nos níveis sanguíneos.
3. Redução da conjugação e depuração hepática
A inflamação sistêmica pode suprimir enzimas hepáticas envolvidas no metabolismo das estronas:
SULTs (sulfatação)
UGTs (glucuronidação)
Citocromos CYP
E1 e E2 originam-se nas adrenais e ovários. O tecido mamário possui receptores para estrogênios e consegue fazer interconversão entre E1 e E2 via enzima 17βHSD, que ocorre localmente na mama. O fígado é o principal responsáveis pelas demais reações químicas no centro e parte inferior do diagrama. Transforma E1 em E2 com CYPS. Usa COMT, SUKT e UGTs para metabolização das estronas e do estradiol (Shameem et al., 2026)
Consequência da redução enzimática:
↓ conjugação e eliminação de estrona
↑ meia-vida circulante de estrogênios
Esse efeito é mais relevante em inflamação crônica sistêmica.
4. Alteração da distribuição e biodisponibilidade
A inflamação reduz a produção hepática de SHBG*, aumentando a fração livre de estrogênios, incluindo estrona.
*SHBG (Sex Hormone-Binding Globulin) é a globulina transportadora de hormônios sexuais.
Como resultado:
↑ atividade biológica hormonal, mesmo com níveis totais normais
Sem SHBG os níveis de hormônios livres no plasma sobem, aumentando risco de condições como ovários policíticos pelo excesso de testosterona. SHBG também transporta estradiol, estrona, DHEA, adrostenediol, di-hidrotestosterona (Qu, & Donnelly, 2020).
5. Ativação local de estrona em tecidos inflamados
Tecidos inflamados podem aumentar enzimas que regeneram estrogênios ativos localmente, como a sulfatase esteroidal (STS), convertendo estrona sulfato (E1-S) em estrona ativa.
Isso é particularmente relevante em:
tecido adiposo
mama
endométrio
tumores hormônio-dependentes
Impacto da inflamação no metabolismo das estronas hidroxiladas
As estronas também sofrem hidroxilação via citocromos P450 (CYPs), gerando metabólitos com diferentes potenciais biológicos: 16α-OHE1, 4-OHE1 e 2-OHE1.
1. 16α-Hidroxiestrona (16α-OHE1)
Formada por CYP3A4 e CYP1A1
Estrogênica potente, liga-se covalentemente ao receptor
Inflamação:
Citocinas podem reduzir CYPs hepáticos
Em tecidos periféricos inflamados (adiposo, mama), CYP1B1 e CYP3A podem ser mantidos ou aumentados
Consequência: acúmulo local de 16α-OHE1, ↑ sinalização estrogênica e risco de carcinogênese
2. 4-Hidroxiestrona (4-OHE1)
Formada principalmente por CYP1B1
Potencial mutagênico por gerar radicais quinona que podem ligar-se ao DNA
Inflamação: ↑ CYP1B1 em tecidos inflamados → ↑ produção local de 4-OHE1
Maior risco de danos oxidativos e mutações
3. 2-Hidroxiestrona (2-OHE1)
Formada por CYP1A1/2, considerada “estrogênio seguro”
Inflamação reduz atividade hepática dos CYPs → ↓ formação de 2-OHE1
Resultado: perfil estrogênico favorecendo 16α-OHE1 e 4-OHE1, desviando a “rota de detoxificação” para vias mais proliferativas e oxidativas
4. Conjugação e eliminação
A inflamação também ↓ UGTs e SULTs, reduzindo a conjugação das estronas hidroxiladas.
Consequência: ↑ meia-vida e ↑ efeito local dos metabólitos ativos
Assim, a inflamação modifica o metabolismo das estronas em múltiplos níveis — produção periférica, interconversão, depuração hepática e ativação local — criando um ambiente mais estrogênico e potencialmente pró-proliferativo, especialmente em tecidos hormônio-dependentes.

