A cicatrização de feridas depende diretamente do estado nutricional, da integridade do metabolismo ósseo e da capacidade do organismo de absorver nutrientes. Em determinadas situações clínicas, mesmo quando a ingestão alimentar parece adequada, a recuperação não acontece. Um relato clínico publicado na revista BMC Gastroenterology demonstrou que um distúrbio intestinal específico pode ser um fator oculto nesse processo: o Small Intestinal Bacterial Overgrowth (SIBO), ou supercrescimento bacteriano no intestino delgado (Kubota et al., 2020).
O caso descreve uma mulher de 66 anos com paraplegia causada por lesão medular no nível L4 havia 14 anos. A paciente apresentava uma úlcera sacral extensa, medindo aproximadamente 10 × 6,5 cm, com uma cavidade interna significativa. A ferida permanecia aberta havia cerca de oito meses, sem resposta aos tratamentos convencionais.
Um quadro clínico grave
Além da úlcera persistente, o estado geral da paciente indicava comprometimento nutricional severo. O índice de massa corporal era de apenas 15 kg/m2, caracterizando desnutrição importante. Havia distensão abdominal constante e sinais claros de comprometimento ósseo.
Exames laboratoriais mostraram alterações marcantes:
Fosfatase alcalina extremamente elevada, próxima de 1260 U/L
Fraturas espontâneas na tíbia e nas costelas
Densidade mineral óssea equivalente a apenas 17% da observada em adultos jovens
Deficiência grave de vitamina D, com níveis abaixo do limite de detecção
Mesmo com suplementação oral, os níveis de vitamina D não aumentavam. Esse dado sugeria que o problema não estava apenas na ingestão, mas na capacidade de absorção intestinal.
Investigação intestinal
Diante da combinação de desnutrição grave, deficiência de micronutrientes e sintomas gastrointestinais, foi realizada aspiração do conteúdo gástrico e duodenal para análise microbiológica.
O exame revelou colonização bacteriana anormal no intestino delgado, com contagem superior a 10⁵ unidades formadoras de colônia por mililitro. Foram identificados microrganismos como:
Escherichia coli
Streptococcus
Neisseria
Candida glabrata
Esse resultado confirmou o diagnóstico de supercrescimento bacteriano no intestino delgado (SIBO).
Como o SIBO interfere na nutrição
No intestino delgado saudável, a densidade bacteriana é relativamente baixa. Quando ocorre supercrescimento microbiano, essas bactérias passam a competir com o hospedeiro pelos nutrientes ingeridos.
Esse processo compromete especialmente:
a absorção de gorduras
a absorção de vitaminas lipossolúveis
o metabolismo de minerais essenciais
Como consequência, vitaminas como A, D, E e K deixam de ser absorvidas adequadamente. No caso descrito, a deficiência extrema de vitamina D levou à osteomalacia e à fragilidade óssea, agravando ainda mais o estado clínico.
A deficiência nutricional também compromete diretamente os processos de reparo tecidual, fundamentais para a cicatrização de feridas.
Tratamento direcionado
A estratégia terapêutica utilizada foi a descolonização seletiva do trato digestivo, com administração oral de:
polimixina B
anfotericina B
Esse protocolo tem como objetivo reduzir seletivamente a carga de bactérias e fungos patogênicos no intestino delgado. O tratamento foi iniciado no 125º dia de acompanhamento.
Evolução clínica
A resposta foi progressiva, mas consistente. Após cerca de nove meses de tratamento, observaram-se mudanças importantes:
redução significativa da profundidade e extensão da úlcera
formação de tecido de granulação saudável
melhora dos marcadores nutricionais
Parâmetros laboratoriais também apresentaram recuperação:
albumina aumentou de 1,8 g/dL para 3,2 g/dL
hemoglobina alcançou 12,1 g/dL
zinco aumentou para 67 μg/dL
vitaminas lipossolúveis e minerais normalizaram gradualmente
Após 742 dias de tratamento, a úlcera estava completamente cicatrizada. Não houve recorrência durante o acompanhamento prolongado, que se estendeu por aproximadamente cinco anos.
O que esse caso ensina
Este foi o primeiro relato que demonstrou a relação direta entre a SIBO, deficiência de vitamina D e falha persistente na cicatrização de úlceras de pressão em pacientes com lesão medular.
A principal implicação clínica é clara. Quando um paciente apresenta:
feridas crônicas que não cicatrizam
desnutrição sem causa evidente
deficiência de vitaminas mesmo com suplementação
sintomas gastrointestinais persistentes
é essencial considerar a possibilidade de malabsorção intestinal causada por supercrescimento bacteriano.
O intestino como centro da saúde metabólica
A microbiota intestinal exerce influência profunda sobre digestão, imunidade, inflamação e metabolismo. Alterações nesse ecossistema podem afetar todo o organismo. Entre os nutrientes com maior impacto na saúde intestinal estão os ácidos graxos ômega-3.
Ômega-3 e microbiota intestinal
Os ácidos graxos ômega-3 participam da modulação da microbiota e da resposta inflamatória intestinal.
Essas gorduras bioativas estão associadas a diversos efeitos fisiológicos:
aumento da diversidade de bactérias benéficas
redução da inflamação intestinal
melhora da integridade da barreira intestinal
menor permeabilidade intestinal
modulação do eixo intestino-cérebro
Além disso, estudos associam níveis adequados de ômega-3 à redução do risco de doenças metabólicas e inflamatórias, incluindo obesidade, diabetes tipo 2 e doenças inflamatórias intestinais.
Fontes alimentares de ômega-3
As principais fontes incluem:
peixes gordurosos como salmão, sardinha e atum
sementes de linhaça e chia
nozes
suplementos específicos quando indicados
A recomendação geral é consumir pelo menos duas porções semanais de peixes ricos em ômega-3.
Um ponto fundamental
O caso clínico mostra que nem sempre o problema está apenas na dieta. Muitas vezes, a dificuldade está na forma como o organismo absorve e utiliza os nutrientes.
Por isso, avaliar a saúde intestinal pode ser decisivo para entender quadros complexos de desnutrição, deficiência de vitaminas e cicatrização inadequada.
A integridade do intestino é um dos pilares centrais da saúde metabólica e da recuperação do organismo.
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