O ritmo circadiano é responsável por regular uma série de funções no corpo, como o sono, a produção de hormônios, a temperatura corporal e até a liberação de substâncias químicas essenciais para o bom funcionamento do organismo. Este ritmo é afeto por fatores externos, como a luz e a alimentação, mas a microbiota intestinal também tem um papel fundamental nesse processo.
Estudo publicado em 2025 na CellPress revelou que as bactérias intestinais possuem padrões de atividade cíclica ao longo do dia, afetando diretamente processos metabólicos, hormonais e até comportamentais.
A conexão entre a microbiota intestinal e o ritmo circadiano é intermediada pelo eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA), uma rede de comunicação entre o cérebro e as glândulas responsáveis pela liberação de hormônios como a corticosterona, que regula a resposta ao estresse. Quando a microbiota está equilibrada, ela ajuda a manter a liberação desse hormônio em harmonia com os ciclos naturais do dia e da noite, permitindo que o corpo se recupere adequadamente do estresse e consiga manter um bom funcionamento metabólico e emocional.
Porém, quando há desequilíbrio na microbiota intestinal, o ritmo circadiano pode ser desorganizado. Isso pode resultar em uma série de problemas, como aumento da vulnerabilidade ao estresse, distúrbios metabólicos, dificuldades no sono e até alterações no humor. Assim, o equilíbrio da microbiota intestinal não só afeta a nossa saúde física, mas também está diretamente ligado ao nosso bem-estar emocional e psicológico.
Lactobacillus reuteri demonstrou potencial em ajustar os níveis de corticosterona de acordo com o momento do dia, regulando não apenas o eixo HPA, mas também comportamentos sociais e emocionais. Esse efeito "sintonizador" ressalta a importância de manter uma microbiota funcional para uma vida equilibrada.
Com a vida moderna promovendo rotinas irregulares e estressores constantes, entender como nosso “relógio bacteriano” influencia nossa saúde é essencial. Respeitar os ritmos biológicos e cuidar da microbiota pode ser a chave para prevenir doenças e melhorar a qualidade de vida.
O Papel do Microbioma Intestinal no Transtorno Bipolar
O microbioma atua como uma “máquina metabólica” que influencia diversos aspectos da fisiologia por meio de vias imunológicas, hormonais e neurais, principalmente pelo eixo intestino-cérebro. No caso do transtorno bipolar, as alterações no microbioma podem afetar a regulação homeostática, contribuindo para a fisiopatologia da doença (Lin et al., 2024).
Estudos indicam diferenças na diversidade e composição microbiana em indivíduos com TB, com alterações em bactérias como Ruminococcaceae, Faecalibacterium, e Bacteroidetes.
O uso de medicamentos como antipsicóticos atípicos e monoterapia com quetiapina tem demonstrado impactos específicos na composição da microbiota intestinal.
Alterações em espécies bacterianas, como Clostridium bartlettii, estão associadas à gravidade dos sintomas, função cerebral e resposta ao tratamento, sugerindo o potencial da microbiota como biomarcador de diagnóstico e prognóstico.
A relação entre o microbioma e o cérebro pode envolver mecanismos como inflamação, metabolismo do triptofano, microglia e receptores de hidrocarbonetos arílicos. Estudos multiômicos recentes destacam o papel de micróbios neuroativos e metabólitos, como GABA, ácido quinurênico e ácidos graxos de cadeia curta, na disfunção cognitiva e emocional observada no TB.
Estudos demonstram que infecções bacterianas podem ser fatores de risco para transtornos psiquiátricos, incluindo episódios de mania. Pesquisas apontaram uma maior prescrição de antibióticos em pacientes com mania aguda, especialmente para infecções do trato urinário (em mulheres) e respiratório (em homens) (Dickerson, Severance, & Yolken, 2017).
Três possíveis mecanismos explicam essa relação:
Infecções bacterianas desencadeiam ativação imunológica que pode precipitar mania.
Indivíduos com mania podem ter um sistema imunológico mais suscetível a infecções.
Alterações no microbioma induzidas por antibióticos podem influenciar o humor e o comportamento.
Marcadores de inflamação, como anticorpos contra gliadina (glúten) e o receptor NMDA, frequentemente aparecem elevados durante os episódios agudos e se normalizavam após seis meses. Altos níveis desses marcadores também foram associados a maior risco de novas internações, reforçando o papel da inflamação no curso dos transtornos de humor (Dickerson et al., 2013).
Comunicação entre intestino e cérebro modulada pela microbiota intestinal (Zhan g et al., 2022)
O microbioma intestinal é altamente sensível a sinais ambientais, recebendo, integrando e respondendo a informações não apenas de diferentes órgãos do corpo, mas também de influências externas, como dieta, atividade física, estresse psicológico e físico, restrições de sono, status socioeconômico, medicamentos, antibióticos, exposição a animais de estimação, ruído e temperatura.
Microbioma e sono no transtorno bipolar
A relação entre o microbioma intestinal e o sono no transtorno bipolar (TB) é um campo emergente de estudo, uma vez que o sono desempenha um papel crucial na regulação do humor e da saúde mental.
O microbioma intestinal segue ritmos diurnos influenciados pelo ciclo sono-vigília, alimentação e luz. Esses ritmos afetam a produção de metabólitos e neurotransmissores, como serotonina, que é um precursor da melatonina, o hormônio essencial para regular o sono.
Alterações nos ritmos circadianos, características comuns no TB, podem desregular a composição do microbioma intestinal, agravando os sintomas do transtorno.
A microbiota intestinal contribui para a síntese de neuroativos como ácido gama-aminobutírico (GABA), serotonina, dopamina e melatonina, que regulam tanto o humor quanto os ciclos de sono.
Um microbioma desregulado pode levar à inflamação sistêmica de baixo grau, afetando a qualidade do sono e exacerbando os episódios de mania ou depressão em pacientes com TB.
Pessoas com TB frequentemente apresentam distúrbios do sono, como insônia ou hipersonia, que podem estar associados a alterações na permeabilidade intestinal ("intestino permeável") e à ativação de respostas inflamatórias.
O aumento da permeabilidade intestinal permite que metabólitos bacterianos, como lipopolissacarídeos (LPS), entrem na circulação, promovendo inflamação. Essa inflamação pode interferir na regulação do sono, piorando os episódios de desregulação emocional no TB.
Estudos sugerem que probióticos específicos (chamados "psicobióticos") podem melhorar o sono ao modular o microbioma intestinal. Em pacientes com TB, o uso de probióticos pode aliviar a insônia e a ansiedade associadas ao transtorno.
Terapias baseadas em ritmo circadiano, como a terapia de luz, podem ser mais eficazes quando combinadas com estratégias para restaurar o equilíbrio do microbioma intestinal.
Manter uma microbiota intestinal saudável é essencial para garantir que o nosso "relógio biológico" funcione corretamente. Investir em hábitos saudáveis como uma alimentação equilibrada, prática regular de exercícios e gestão do estresse pode ser uma forma eficaz de apoiar o funcionamento da microbiota intestinal e, consequentemente, melhorar a nossa qualidade de vida e saúde geral. Aprenda mais na plataforma do cérebro.