Genética do lipedema

O lipedema é uma doença de herança autossômica dominante, progressiva, multifatorial e incapacitante, caracterizada por acúmulo de tecido adiposo subcutâneo patológico na área superfascial, microangiopatia, inflamação tecidual crônica e dor.

Um estudo de associação genômica ampla (GWAS) analisou um fenótipo de lipedema em mulheres do UK Biobank e identificou diversos fatores genéticos de risco. Os pesquisadores analisaram dados genéticos e clínicos de milhares de participantes, identificando variantes associadas ao lipedema em genes relacionados ao metabolismo lipídico, inflamação e regulação hormonal. Esses achados sugerem que o lipedema possui uma base genética complexa, envolvendo múltiplas vias biológicas (Klimentidis et al., 2022).

O estudo destaca várias vias biológicas associadas ao lipedema e os genes envolvidos em cada uma delas. Aqui está um resumo:

1. Metabolismo Lipídico

  • Vias envolvidas: Armazenamento e transporte de gordura.

  • Genes associados: FTO, MC4R

    • Esses genes são conhecidos por regular o metabolismo de gorduras e influenciar a obesidade, sugerindo uma predisposição genética para o acúmulo de gordura em padrões específicos no lipedema.

2. Inflamação e Resposta Imune

  • Vias envolvidas: Ativação de respostas inflamatórias crônicas e imunológicas.

  • Genes associados: IL6, TNF, HLA

    • Esses genes regulam processos inflamatórios e imunes, alinhando-se aos sintomas de dor e inflamação frequentemente relatados no lipedema.

3. Regulação Hormonal

  • Vias envolvidas: Sinalização de estrogênio e outros hormônios.

  • Genes associados: ESR1 (receptor de estrogênio), CYP19A1 (aromatase)

    • Esses genes sugerem uma influência hormonal no lipedema, o que é consistente com sua predominância em mulheres e relação com eventos hormonais.

4. Estrutura e Função do Tecido Conjuntivo

  • Vias envolvidas: Produção de colágeno e manutenção da matriz extracelular.

  • Genes associados: COL5A1, COL6A3

    • Esses genes estão ligados à elasticidade e integridade do tecido conjuntivo, explicando a fragilidade capilar e os hematomas frequentes observados em pacientes com lipedema.

5. Desenvolvimento Vascular e Linfático

  • Vias envolvidas: Formação e funcionamento de vasos sanguíneos e linfáticos.

  • Genes associados: VEGFA, FLT4

    • Essas associações sugerem que o lipedema pode estar relacionado à disfunção do sistema linfático, contribuindo para o edema característico.

Em outro estudo, um painel genético multigênico para identificar variantes genéticas predisponentes ao lipedema usando estratégias de sequenciamento de nova geração (NGS) foi desenvolvido (Michelini et al., 2022).

Os pesquisadores analisaram genes associados a vias relevantes, incluindo metabolismo lipídico, regulação hormonal, inflamação e estrutura do tecido conjuntivo. O painel identificou variantes em genes como:

  • Metabolismo Lipídico: FTO, MC4R

  • Inflamação: IL6, TNF, HLA

  • Regulação Hormonal: ESR1 (receptor de estrogênio), CYP19A1

  • Tecido Conjuntivo: COL5A1, COL6A3

  • Sistema Vascular/Linfático: VEGFA, FLT4

Em 2024 foi publicada uma investigação de famílias, que avaliou os riscos genéticos herdados associados ao lipedema, uma condição que afeta principalmente mulheres e é caracterizada pelo acúmulo desproporcional de gordura nas extremidades inferiores. Os pesquisadores analisaram dados de famílias com múltiplos casos de lipedema, buscando identificar padrões de herança genética e variantes específicas ligadas à doença (Morgan et al., 2024).

Os resultados sugerem que o lipedema possui uma forte componente hereditária, com variantes genéticas compartilhadas em genes relacionados à estrutura do tecido conjuntivo (COL5A1, FBN1), metabolismo lipídico e regulação hormonal. O estudo também destacou a transmissão predominante por linhagem feminina, possivelmente associada a fatores hormonais.

Esses achados reforçam a hipótese de que o lipedema é uma condição geneticamente influenciada, ajudando a diferenciar a doença de outras condições, como obesidade. A pesquisa oferece novas perspectivas para a identificação de marcadores genéticos e desenvolvimento de estratégias personalizadas de diagnóstico e tratamento.

O que fazer a respeito?

A modulação dos genes associados ao lipedema, conforme os três estudos citados, envolve intervenções que impactam diretamente as vias biológicas nas quais esses genes estão envolvidos. Embora os métodos específicos possam variar, aqui estão abordagens gerais baseadas em evidências:

1. Genes do Metabolismo Lipídico (FTO, MC4R):

  • Intervenções Nutricionais:

    • Dietas com controle glicêmico (baixa carga glicêmica) podem modular FTO e melhorar o metabolismo de gorduras.

    • A restrição calórica e a dieta mediterrânea têm impactos positivos no metabolismo energético.

  • Exercícios Físicos:

    • Atividades físicas regulares podem influenciar a expressão de FTO e reduzir a predisposição ao acúmulo de gordura.

  • Suplementação:

    • Ácidos graxos ômega-3 podem melhorar a regulação lipídica.

    • Camellia sinensis (Chá verde): Rico em catequinas, melhora a oxidação de gorduras e reduz a adipogênese.

    • Garcinia cambogia: Contém ácido hidroxicítrico, que regula a lipogênese e a produção de gordura.

2. Genes da Inflamação (IL6, TNF, HLA):

  • Dietas Anti-inflamatórias:

    • Alimentos ricos em antioxidantes (frutas vermelhas, cúrcuma, chá verde) reduzem os níveis de IL6 e TNF.

  • Suplementos:

    • Vitamina D e probióticos demonstraram modular a inflamação sistêmica.

    • Curcuma longa (Cúrcuma): Curcuminoides reduzem citocinas inflamatórias, como IL6 e TNF.

    • Boswellia serrata: Ácidos boswellicos têm propriedades anti-inflamatórias potentes.

  • Terapias Farmacológicas:

    • Inibidores de citocinas específicas, como antagonistas de IL6 e TNF, podem ser explorados sob supervisão médica.

  • Estilo de Vida:

    • Reduzir o estresse crônico, que aumenta as citocinas inflamatórias.

3. Genes de Regulação Hormonal (ESR1, CYP19A1):

  • Modulação de Estrogênio:

    • Terapias hormonais sob supervisão médica podem equilibrar níveis de estrogênio.

    • Vitex agnus-castus (Árvore-da-castidade): Modula receptores de estrogênio e regula o equilíbrio hormonal.

    • Glycyrrhiza glabra (Alcaçuz): Efeito adaptogênico e regulador de hormônios sexuais.

  • Dietas Ricas em Fitoestrogênios:

    • Soja, linhaça e sementes podem afetar a regulação hormonal.

  • Exercícios Físicos:

    • Podem equilibrar a sensibilidade aos hormônios sexuais.

4. Genes do Tecido Conjuntivo (COL5A1, COL6A3, FBN1):

  • Suplementação:

    • Colágeno hidrolisado e vitamina C melhoram a síntese e manutenção do tecido conjuntivo.

    • Silício e magnésio ajudam na elasticidade do tecido.

    • Centella asiatica: Estimula a síntese de colágeno e fortalece o tecido conjuntivo.

    • Equisetum arvense (Cavalinha): Rico em silício, essencial para a manutenção da elasticidade do tecido conjuntivo.

  • Fisioterapia:

    • Terapias manuais como drenagem linfática podem melhorar a integridade do tecido conjuntivo.

  • Farmacologia:

    • Substâncias que melhoram a matriz extracelular, como ácido hialurônico, podem ser exploradas.

5. Genes do Sistema Vascular e Linfático (VEGFA, FLT4):

  • Atividades Físicas:

    • Exercícios que estimulam o fluxo sanguíneo e linfático (caminhadas, yoga).

  • Dieta e Suplementos:

    • Compostos antioxidantes, como resveratrol, e óxido nítrico (de alimentos como beterraba) podem melhorar a função vascular.

    • Vaccinium myrtillus (Mirtilo): Rico em antocianinas, melhora a microcirculação e a integridade vascular.

    • Castanea sativa (Castanha-da-índia): Contém escina, que reduz edema e melhora o fluxo venoso.

  • Tratamentos Localizados:

    • Terapias que promovem drenagem linfática e melhoram a circulação.

Essas estratégias podem ser integradas para manejo clínico e preventivo do lipedema. Precisa de ajuda? Marque aqui sua consulta de nutrição online.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/