Compulsão por doces: Parte 2

Nesta série sobre a compulsão alimentar discutimos vários atores que interferem no consumo de alimentos e como é feito o tratamento. Hoje está disponível a parte 2 sobre a compulsão por doces:

Estou preparando dois três cursos novos, um de nutrição ortomolecular, outro de bioquímica e um último de avaliação de exames laboratoriais. Em breve, muitas novidades para que profissionais de saúde consigam auxiliar cada vez melhor seus clientes. Assine a newsletter para receber por email as promoções de lançamento.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, mestre em nutrição humana, doutora em psicologia clínica e cultura, pós-doutora em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em Coaching e Yoga. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/contato/

Compulsão alimentar e compulsão por compras

Vários de nossos comportamentos são formas de tentar lidar com sentimentos. Algumas pessoas comem quando sentem-se estressadas ou sobrecarregados. Outras pessoas vão ao shopping e compram coisas que nem precisam. Um terceiro grupo come e compra. O tratamento das compulsões envolve descobrir novas maneiras de administrar sentimentos.

Para lidar com as compulsões coloque suas experiências em palavras. O que aconteceu no dia, como sentiu-se, por que? Coloque para fora tudo o que está acontecendo, nos mínimos detalhes. Muitas vezes, coisas corriqueiras, que parecem sem importância, são as principais responsáveis pelas chateações e pela compulsão. Por isso, converse com alguém que esteja disposto a lhe ouvir. Se preciso for, pague um psicólogo pois o processo pode não ser simples, nem fácil ou rápido. Mas nãos será maravilhoso quando chegar o dia que seu corpo, sua comida e seu cartão de crédito deixarem de te preocupar? Não será ótimo encontrar maneiras saudáveis de gerenciar seus sentimentos? Não será ótimo deixar de punir-se?

Por que isso é importante?

Uma conhecida uma vez disse-me: “A cada final de dieta, eu sinto-me uma impostora. Sinto que falhei três vezes: falhei com a dieta, falhei comigo mesma pois desisti, falhei com os outros que ainda me verão como uma pessoa acima do peso”. Olha que sentimentos horríveis. Ninguém quer odiar o próprio corpo e se a dieta está contribuindo para que este ciclo repita-se em sua vida, então dieta não é algo para você!

Você talvez tenha sido ensinada a precisar de dietas. Talvez esteja aprendido que está simplesmente cuidando do próprio corpo. Mas fazer dieta tem te tornado mais saudável? Provavelmente não. Tem criado outros problemas? Talvez sim. Em vez de melhorar sua saúde, as dietas podem estar alimentando sua relação não saudável com a comida e promovendo o ódio ao próprio corpo. E quando está fazendo dieta como lida com suas emoções? Vai as compras? Gasta mais?

Reconheça seu histórico de dieta e o que elas fizeram com sua cabeça. Talvez sinta-se fraca ao redor dos alimentos, talvez sinta medo de comer. Tente com compaixão sair da cultura da dieta. Respeite-se mais. Fui a Dinamarca recentemente e percebi que os dinamarqueses são loucos por seus pães e por seus bolos. Mas possuem um estilo de vida saudável. Mais de 50% vão ao trabalho ou escola de bicicleta. Não precisam pensar em dieta. Simplesmente comem quando estão com fome e comem o que desejam.

 Não tenha vergonha em não fazer mais uma dieta. Muitas pessoas com compulsão sentem muita vergonha. Vergonha por não serem magras ou atléticas ou perfeitas. Vergonha por terem falhado na dieta, vergonha em comer na frente dos outros…. Qual é a sua vergonha? Reconheça e liberte-se. A culpa não é sua, a culpa é da indústria da moda, da indústria da dieta. Deixe que eles sintam vergonha em impor um padrão que pode estar lhe fazendo muito mal.

Conecte-se com seu corpo de uma maneira mais neutra. Aceite as experiências que viveu e dê-se permissão para fazer as coisas de forma diferente. Rebele-se! Com isso não estou dizendo para você não amar-se e não cuidar-se. Não é nada disso. Só estou dizendo para deixar regras loucas de lado. Para comer quando estiver com fome, sem vergonha ou medo. Para não passar fome nem privações. Permita-se ser você mesma. Escolher não fazer dieta significa escolher comer para promover a recuperação de desordens alimentares, energéticas e de saúde física e mental. Troque a mentalidade de dieta pela mentalidade

O primeiro passo na alimentação intuitiva é rejeitar a mentalidade da dieta. Comece escolhendo fazer hoje, algo que vem adiando. Não espere para viver apenas quando você mudar o formato ou tamanho do seu corpo. Pense nas suas comidas favoritas e repita várias vezes “não há alimentos bons ou ruins”. Comece sua jornada de alimentação consciente.

Você é viciada em pesar-se? Então pare. Sua saúde não é definida por um número na balança. Apenas cuide-se. Aprenda a ouvir seu corpo, dê a ele o que precisa, movimente-se, faça seus check-ps, respeite-se e cuide-se de forma holística. Pare de seguir nas redes sociais quem só fala sobre dieta, peso ou barriga definida. Não prenda-se nas armadilhas da comparação. Desenvolva-se e valorize suas qualidades. O que deseja entregar para o mundo? Como deseja contribuir? Não tenha medo de ocupar seu espaço no mundo!

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, mestre em nutrição humana, doutora em psicologia clínica e cultura, pós-doutora em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em Coaching e Yoga. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/contato/
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Compulsão alimentar entre homens

Mulheres sempre foram mais cobradas em relação à aparência. Homens podiam ter qualquer corpo, sem que isso chamasse atenção ou fosse motivo de muita polêmica. Porém, cada vez mais os homens assemelham-se às mulheres em níveis de insatisfação corporal e comer transtornado.

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A estética mudou. Hoje até os bonecos vendidos para meninos tem a cintura mais fina e os músculos mais definidos (Pope et al., 1998). A autocobrança aumentou. Nos Estados Unidos, estima-se que dentre os pacientes com compulsão alimentar 40% sejam homens. 

Comedores compulsivos podem sofrer de baixa auto-estima e frequentemente usam a comida para anestesiar as emoções e aliviar  momentaneamente o estresse. Os sintomas do transtorno da compulsão alimentar periódica são semelhantes em homens e mulheres e incluem o consumo de grandes quantidades de comida em curtos períodos de tempo, sentimento de não ter controle sobre a alimentação, comer escondido, comer sem fome, sentimentos de vergonha, desgosto ou desespero após a alimentação, passar a vida em dieta. 

Apesar do sofrimento, é comum que homens procurem menos por tratamento do que mulheres. Após o diagnóstico o tratamento inclui aconselhamento nutricional e alguma modalidade de terapia - cognitivo-comportamental ou dialética são as mais comuns. Dependendo das co-morbidades (depressão, hipertensão, dislipidemias, esteatose hepática, diabetes etc) o uso de medicamentos também pode ser necessário.

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O estresse também precisa ser trabalhado pois afeta o sono, o humor, aumenta os níveis de cortisol e também perpetua a compulsão alimentar. Técnicas integrativas como massagem, uso de fitoterápicos, técnicas respiratórias e de meditação apaziguam, distraem e facilitam o autocontrole.

A atividade física também é importante. Escolher algo que agrade facilita a continuidade. O foco deve ser o prazer de movimentar o corpo e não a perda de peso. O exercício não precisa ser pesado, se a pessoa não gostar. Estudos mostram que mesmo abordagens suaves como yoga reduzem o estresse, melhoram a tolerância à glicose, regularizam os níveis lipídicos, diminuem a pressão arterial e a ansiedade. O  yoga também promove o autoconhecimento, alivia sentimentos de depressão e melhora a auto-imagem.

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Homens também precisam ser cuidados e apoiados. Estudo publicado em 2018 mostrou que a compulsão alimentar em homens associa-se à maior tendência suicida. 

Brown KL, LaRose JG, and Mezuk B. (2018) The Relationship between Body Mass Index, Binge Eating Disorder, and Suicidality. BMC Psychiatry, 18: 196

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Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, mestre em nutrição humana, doutora em psicologia clínica e cultura, pós-doutora em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em Coaching e Yoga. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/contato/

"Às vezes como demais, tenho compulsão?"

Muitas pessoas chegam à consulta nutricional com a queixa: "sofro de compulsão, ajude-me". Contudo, em geral, o diagnóstico foi feito pela própria pessoa e não por um profissional. E nem todo mundo que come muito tem compulsão.

Como podemos traçar a linha entre compulsão alimentar e o comer exagerado?

O fato de você um dia ter comido metade do bolo ou uma caixa de bombom porque achou gostoso ou porque nesse dia estava mais estressado já caracteriza a compulsão? Isto não é algo que acontece com todo mundo? Não é natural que alguém coma mais em algumas situações como na pizzaria, na festa de aniversário ou no rodízio? Sim, é normal!

Mas, indivíduos com compulsão alimentar, um transtorno alimentar, experimentam uma maior perda de controle sobre a alimentação, em comparação com as pessoas sem compulsão alimentar. A perda de controle caracteriza-se por um "impulso", uma "obrigação" de comer, ou uma "incapacidade" para parar de comer ou de evitar que o episódio compulsivo ocorra. 

A compulsão alimentar é diferente da bulimia pois neste caso há alguma compensação, como indução de vômito, uso de diuréticos ou laxantes, ou mesmo prática exagerada de exercícios. Já na compulsão alimentar isso não acontece e por isso o ganho de peso costuma ser mais evidente. Mesmo assim, o transtorno pode ocorrer de forma irregular, com períodos em que há grande consumo de alimentos e outros períodos de um "comer mais normal" ou mesmo de restrições alimentares. Desta forma, o peso acaba ficando dentro do padrão de referência. Ou seja, tanto pessoas magras, quanto pessoas gordas podem sofrer com a compulsão.

O diagnóstico é feito por um psiquiatra que avalia o paciente seguindo as orientações do DSM-5, a bíblia da psiquiatria. De acordo com o manual, os sintomas do transtorno de compulsão alimentar incluem:

• Episódios recorrentes de compulsão alimentar. Todo mundo come mais do que deveria em algumas ocasiões, mas quando isto se repete semanalmente há um sinal de alerta.

• Compulsão extrema. Enquanto algumas pessoas podem se referir a uma noite passada comendo biscoitos como uma farra, pessoas com transtornos consomem uma quantidade tão grande de calorias em pouco tempo que ficam sentindo-se mal. O fato de você ter comido muito sorvete não caracteriza uma compulsão mas se isto traz sintomas físicos muito desagradáveis (como dor abdominal, falta de ar) com frequência há aqui outro sinal de alerta. 

• Durante os episódios de compulsão a velocidade de consumo de alimentos é maior do que o normal. Pessoas com compulsão podem ingerir milhares de calorias sem nem perceber o sabor da comida. 

• Muitas vezes comemos sem fome, simplesmente pois passamos por um alimento cheiroso ou bonito que abre nosso apetite. Mas na compulsão isto é obsessivo. A pessoa pode não conseguir parar de pensar em comida, mesmo quando não está com fome.

• Após os episódios compulsivos o sofrimento, a culpa ou vergonha é frequente. Por isso, comer escondido também é comum em quem tem compulsão.

O que causa a compulsão?

Nossa cultura, recheada de alimentos ultraprocessados é, por si só, um gatilho para a compulsão. Pessoas que aprenderam a aplacar a tristeza, a dor, a ansiedade, o estresse com comida, encontram muita dificuldade de lidar com a oferta incessante de alimentos. Claro, esta não é a única causa. Outros fatores incluem:

• Transtornos psicológicos. Quando um problema de saúde mental é deixado sem tratamento, como a depressão, o comer compulsivo pode aparecer. Não é de se espantar que muitas pessoas com histórico de abuso sexual, físico ou psicológico desenvolvam problemas com a alimentação.

• Dieta rígidas. Nossa cultura valoriza a magreza fazendo com que muitas pessoas - principalmente as mulheres - tentem adequar-se à padrões nem sempre possíveis. Pesquisas mostram que dietas restritivas, principalmente quando iniciadas na adolescência ou juventude, podem fazer com que algumas pessoas desenvolvam ao longo do tempo um comer transtornado.

• Idade e sexo. Para cada 3 mulheres com compulsão, parecem existir 2 homens com o mesmo problema. Em relação à idade, enquanto bulimia e anorexia atingem os mais jovens, a compulsão alimentar pode surgir em outras fases como entre os 40 e 50 anos, quando muitas mudanças na vida aparecem.

• Pressão social. Pessoas que estão sob forte pressão (modelos, bailarinas, atletas, pessoas que vivem ou relacionam-se com pessoas muito rígidas) podem estressar-se a tal ponto que desequilíbrios na produção de neurotransmissores aparecem, contribuindo para a compulsão alimentar.

• Fatores biológicos. A química cerebral individual e a genética podem influenciar as chances de um comer transtornado.

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Os perigos da compulsão alimentar

Comer demais no natal é uma coisa. O transtorno da compulsão alimentar é outra e pode apresentar consequências graves para a saúde. A compulsão frequente contribui para o ganho excessivo de peso. Estudos evidenciam que um alto percentual de gordura aumenta o risco de doenças, incluindo artrite, osteoporose, diabetes, pressão alta, problemas cardiovasculares, certos tipos de câncer e problemas na vesícula biliar. Pessoas com compulsão também podem sentir muita culpa e vergonha, o que acaba prejudicando a auto-estima.

Tratamento para o transtorno da compulsão alimentar

Encontrar recursos para evitar a compulsão é o primeiro passo. Isto é feito por meio de técnicas cognitivo-comportamentais. Na terapia, o paciente com compulsão trabalha para descobrir as razões pelas quais come compulsivamente, enquanto implementa estratégias para lidar com a angústia emocional e os desejos por comida. A terapia cognitivo-comportamental, ajuda o comedor compulsivo a gerenciar melhor as emoções, a entender como as mesmas afetam os comportamentos, a escolher mecanismos de enfrentamento saudáveis.

Quando não há boa resposta pode-se tentar o uso de medicações, como antidepressivos. Porém, medicamentos nunca devem ser considerados de forma isolada. Por fim, pessoas que já estão com algum problema de saúde por conta do excesso de peso, poderão precisar de remédios, dieta e exercício (Galasso et al., 2018) para controle de questões como aumento da glicose, dos triglicerídeos, do ácido úrico, da pressão arterial* etc.

Práticas integrativas como meditação (Godfrey, Gallo, & Niloofar, 2014; Kristeller, Wolever, & Sheets, 2013) e yoga (Klatte et al., 2016) também apresentam ótimos resultados como tratamento coadjuvante para a compulsão alimentar.

*tensão arterial em Portugal

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, mestre em nutrição humana, doutora em psicologia clínica e cultura, pós-doutora em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em Coaching e Yoga. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/contato/
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