Diferença entre rastreamento e avaliação nutricional

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A triagem nutricional e, se indicado, a avaliação nutricional fazem parte do cuidado integral de qualquer indivíduo doente, com o objetivo de diminuir a morbimortalidade relacionada à má nutrição. O rastreamento ou triagem nutricional é um processo que tem como objetivo verificar a probabilidade de uma pessoa internada em um hospital, ter uma recuperação melhor ou pior, em decorrência de fatores nutricionais. Identifica se uma pessoa está em desnutrida ou em processo de desnutrição e determina se a avaliação nutricional completa será necessária.

A desnutrição aparece quando as necessidades por energia ou nutrientes não são atendidas. Pode ser consequência da ingestão insuficiente, do aumento da demanda por nutrientes, de distúrbio na absorção ou uso de nutrientes. Em tese, a ferramenta de triagem ideal deve ser de fácil utilização, rápida aplicação, e ter alta sensibilidade e especificidade, com boa acurácia na detecção do risco nutricional.

São várias as ferramentas de triagem nutricional (Raslan et al., 2008; Skipper, 2012; Lima & Silva, 2017):

  • MUST (Ferramenta universal de triagem de desnutrição);

  • NRS 2002 (Triagem de risco nutricional);

  • MNA-SF (mini avaliação nutricional reduzida);

  • MST (Ferramenta de triagem de desnutrição);

  • URS (Índice de risco de desnutrição);

  • NSI Determine - Idosos;

  • NRI (Índice de risco nutricional para pacientes cirúrgicos e clínicos);

  • NRAS (Escala de avaliação do risco nutricional) - idosos;

  • SNAQ (Questionário de rastreamento nutricional simplificado)

A maioria das ferramentas de rastreamento tem em comum duas perguntas: (1) houve perda de peso recente não intencional?; e (2) houve ingestão inadequada de alimentos nas últimas 1 ou 2 semanas? Uma resposta positiva para qualquer um das perguntas indica a necessidade de uma avaliação nutricional mais profunda e que permita um adequado diagnóstico e planejamento da terapia nutricional.

A avaliação do estado nutricional difere da triagem nutricional na profundidade das informações obtidas. Várias ferramentas de avaliação nutricional associam-se ao prognóstico, mortalidade e custos da internação. Dentro da avaliação nutricional, a antropometria é um critério importante. Fundamenta-se na investigação de medidas do corpo. É simples, obtido com facilidade e rapidez, de boa aceitabilidade e baixo custo. As medidas mais utilizadas são peso, estatura, perímetro cefálico, circunferência do braço, dobras cutâneas e medidas dos segmentos corporais (para indivíduos com limitações físicas ou acamados). A partir dessas medidas são construídos indices que permitem situar os indivíduos dentro de uma faixa aceita como normal.

Vários exames também podem ser solicitados, como marcadores hepáticos, incluindo albumina, transferrina, proteína ligadora de retinol, pré-albumina. A avaliação do estado imunológico também é comum, pelo pedido do leucograma e testes de hipersensibilidade cutânea tardia. Inquéritos dietéticos são também usados para investigar a dieta, tanto em quantidade quanto em qualidade.

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Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, mestre em nutrição humana, doutora em psicologia clínica e cultura, pós-doutora em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em Coaching e Yoga. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/contato/

Dieta saudável não tem desvantagem

Dieta saudável não tem contra-indicação. O que dá problema é macarrão instantâneo, salgadinhos e refrigerantes. Alimentos ultraprocessados não contribuem para a saúde. Ponto. A indústria esperneia. Diz que não há ensaios aleatorizados, randomizados, controlados suficientes (mas há). E mesmo que não houvesse, você não precisa esperar por este tipo de estudo.

Veja o caso do cigarro. Foram necessários mais de 7.000 estudos e a morte de uma quantidade gigantesca de pessoas para que os governos e as sociedades médicas entrassem em um consenso sobre a conexão entre o tabagismo e o câncer de pulmão. A pressão da indústria do tabaco sempre foi grande. E no caso da indústria alimentícia acontece o mesmo. É muito lobby, muito financiamento (compra) de pesquisadores. Você não precisa de milhares de estudos dizendo que alimentos cheios de açúcar e gordura hidrogenada fazem mal para entender a mensagem.

São cinco os comportamentos capazes de estender sua vida em mais de uma década: dieta saudável, não fumar, praticar atividade física regular, reduzir o consumo de álcool e manter um peso adequado para sua altura (Li et al., 2018).

O câncer, por exemplo, é um fardo mundial. Em 2012 foram diagnosticados mais de 14 milhões de casos em todo o mundo. Mas muito está em nossas mãos. Cerca de um terço das neoplasias mais comuns podem ser evitados com mudanças de hábito. O problema é que mesmo com toda essa informação disponível, a dieta tem piorado em quase todos os países industrializados. O consumo de alimentos ultraprocessados é altíssimo, chegando a contribuir com 50% das calorias que muita gente consome diariamente. Várias características dos alimentos ultraprocessados podem estar envolvidos em doenças, como o câncer.

Alimentos ultraprocessados são ricos em gordura total, gordura saturada, açúcar e sal. Possuem baixa quantidade de fibras e vitaminas. Podem ter contaminantes cancerígenos (como acrilamida, aminas heterocíclicas e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos). A embalagem pode conter disruptores endócrinos - como ftalatos e bisfenol -, aditivos como como nitrito de sódio e dióxido de titânio. A ingestão de alimentos ultraprocessados (como salgadinhos, refrigerantes, balas, pirulitos, sorvetes, macarrão instantâneo, foi associada a uma maior incidência de dislipidemia (excesso de gordura no sangue), maior risco de sobrepeso, obesidade e hipertensão em crianças brasileiras e universitários espanhóis.

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Na França, o estudo NutriNet-Santé observou que o alto consumo de alimentos ultraprocessados (incluindo também pães embalados, snacks doces ou salgados, produtos de confeitaria, sobremesas refrigeradas, nuggets e hambúrgeres congelados, bebidas açucaradas, sopas instantâneas, refeições prontas, óleos hidrogenados ou qualquer outro produto rico em aromatizantes, corantes, emulsionantes, humectantes, adoçantes que imitem propriedades naturais dos alimentos). O consumo de 104.980 participantes sem câncer no início do estudo foi comparado com o registro médico e níveis de atividade física.

Os modelos foram ajustados por idade (escala de tempo), sexo, índice de massa corporal, estatura, atividade física (alta, moderada, baixa), tabagismo (nunca ou ex-fumantes, fumantes atuais), ingestão de álcool, consumo energético, história familiar de câncer (sim/não), e nível de escolaridade (menos de ensino médio, menos de dois anos após o ensino médio, dois ou mais anos após o ensino médio). Para análises de câncer de mama, foram feitos ajustes adicionais para o número de crianças biológicas, fase da vida (menopausa / perimenopausa / não menopáusica), tratamento hormonal e utilização de contracepção oral. O modelo também foi ajustado para ingestão de lipídios, sódio e carboidratos.

Durante o período de 8 anos de acompanhamento 2.228 pessoas desenvolveram câncer. As análises estatísticas mostraram que o aumento de 10% de consumo de alimentos ultraprocessados foi associado ao aumento em 12% do risco de câncer total. Gorduras e molhos ultraprocessados, bebidas e produtos açucarados foram associados a maior risco de câncer total. Particularmente, o risco de câncer de mama é bastante elevado com este padrão de consumo ocidentalizado.

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Alimentos ultraprocessados têm sido associados a uma maior resposta glicêmica e um menor efeito de saciedade. A ingestão excessiva de energia, gordura e açúcar contribui para o ganho de peso e o risco de obesidade, sendo a obesidade reconhecida como um importante fator de risco para câncer de mama, estômago, fígado, colo-retal, esôfago, pâncreas, rim, vesícula biliar, endométrio, ovário, fígado e câncer de próstata e malignidades hematológicas. A ampla gama de aditivos contidos em alimentos ultraprocessados podem ter efeito cumulativo, merecendo mais investigação. Carnes processadas podem conter nitrosaminas carcinogênicas envolvidas no aumento do câncer colorretal.

Produtos ultraprocessados ricos em carboidratos como batatas fritas, biscoitos e pão são submetidos a altas temperaturas, o que gera maior formação de acrilamida, envolvida no aumento de vários tipos de câncer, como o renal. Por fim, o bisfenol A é outro contaminante suspeito de migrar de embalagens plásticas para alimentos ultraprocessados. Evidências crescentes sugerem envolvimento da substância com problemas endócrinos e câncer de de várias glândulas.

Recomenda-se ações de políticas voltadas à reformulação de produtos, tributação e restrições de comercialização de produtos ultraprocessados e um esforço maior para a promoção de alimentos in natura ou minimamente processados, que contribuam para a saúde (Fiolet et al., 2018). Como será sua alimentação em 2019? Mais sobre câncer e alimentação:

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, mestre em nutrição humana, doutora em psicologia clínica e cultura, pós-doutora em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em Coaching e Yoga. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/contato/

Brasil exporta tecnologia de pesquisa em nutrição para o resto do mundo

Durante o século XX, os padrões alimentares nos países desenvolvidos mudaram radicalmente como resultado do crescimento econômico, aumento do poder de compra das pessoas, progresso na tecnologia de alimentos, mudanças no ambiente alimentar, marketing de alimentos e transformação nos estilos de vida. As rápidas mudanças sociais, econômicas, culturais e ambientais introduziram adaptações relevantes no estilo de vida e contribuíram para a globalização e o aumento do uso de alimentos ultraprocessados prontos para consumo. Ao mesmo tempo, o aumento do excesso de peso e obesidade tem sido observado em todo o mundo.

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Os alimentos ultraprocessados são aqueles que passaram por técnicas e processamentos com alta quantidade de sal, açúcar, gorduras, realçadores de sabor e texturizantes. Estes alimentos possuem um perfil nutricional danoso à saúde. Por serem hiperpalatáveis, ou seja, acentuam muito o sabor, danificam os processos que sinalizam o apetite e a saciedade e provocam o consumo excessivo e “desapercebido” de calorias, sal, açúcar, etc.

Os alimentos ultraprocessados também são pobres em micronutrientes (vitaminas, sais minerais, água e fibras), o que impacta negativamente a saúde favorecendo o desenvolvimento de várias doenças crônicas como diabetes, problemas cardiovasculares, Alzheimer e muitos tipos de câncer. Vários pesquisadores defendem que tais produtos nem deveriam ser considerados como alimentos.

Dados de pesquisas epidemiológicas no Brasil, como a Vigitel 2014 (Inquérito que avalia fatores de risco para doenças crônicas), revelam que no Brasil a prevalência de excesso de peso na população ultrapassa 50,0%. Pior, 17.5% dos brasileiros são obesos, 6.9% tem diabetes e 24,1% hipertensão. Estes números são, em grande parte, provocados pelo enfraquecimento dos padrões alimentares tradicionais e pelo consumo exagerado de alimentos ultraprocessados.

O mesmo acontece em outros países e em todas as faixas etárias. Em Portugal, a prevalência de sobrepeso e obesidade atingiu 53% da população adulta em 2014. A hipótese de que a ingestão de alimentos ultraprocessados comprometa a nutrição e a qualidade da dieta e contribua para a epidemia da obesidade vem sendo testada em muitos países.

O projeto UPPer estuda os padrões de consumo de alimentos ultraprocessados em Portugal e está integrado a pesquisa internacional em que participam outros 7 países (Austrália, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Reino Unido e EUA). O programa internacional é coordenado pelo centro de pesquisa brasileiro NUPENS da USP.

Os interesses de pesquisa do NUPENS permanecem são, em essência:

1. Desenvolver alternativas metodológicas que orientem e facilitem a realização de pesquisas populacionais em nutrição e saúde, bem como a implementação de sistemas para identificação de tendências temporais.

2. Elaborar e testar modelos analíticos referentes à epidemiologia de problema nutricionais e de saúde, aplicando-os em particular ao estudo das relações de interdependência entre nutrição e saúde.

3. Formular intervenções e propostas de avaliação de efetividade que se ajustem à epidemiologia dos problemas estudados e à realidade da organização dos programas e serviços.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, mestre em nutrição humana, doutora em psicologia clínica e cultura, pós-doutora em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em Coaching e Yoga. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/contato/

O consumo de alimentos ultraprocessados está ligado ao aumento da obesidade em 19 países europeus

O Brasil é referência na área de pesquisa em nutrição. Em 2009 o professor Carlos Monteiro, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo propôs uma classificação dos alimentos de acordo com o grau de processamento. Esta classificação, apelidada de NOVA, foi posteriormente adotada pelo Ministério da Saúde no Guia alimentar para a população brasileira

No 1º grupo estão os alimentos in natura ou minimamente processados: arroz, feijão, hortaliças, frutas, leite pasteurizado, carne congelada ou fresca, ovos, batata, mandioca, etc. Ou seja, esse grupo é formado por alimentos que saem da natureza e recebem ou não algum tipo de processamento como secagem e moagem.

O 2º grupo é composto pelos alimentos que contenham ingredientes culinários processados: gorduras (óleo, azeite, manteiga), sal, azeite e vinagre, que são substâncias retiradas de alguns alimentos ou da natureza (sal) e são utilizados para temperar, preparar e cozinhar os alimentos do primeiro grupo.

No 3º grupo estão os alimentos processados: são aqueles que combinam ingredientes do primeiro grupo com o do segundo. Por exemplo, utilizando o leite do primeiro grupo, com o sal do segundo grupo, produz-se o queijo. Dentre outros exemplos de alimentos do 3º grupo também foram citados o pão e a geléia de frutas.

Por fim, no 4º grupo encontramos os alimentos que mais devemos evitar: os ultraprocessados. Trata-se de uma invenção da tecnologia alimentar e, segundo o pesquisador Carlos Monteiro, não tem nada a ver com os outros grupos, pois não tem como base um alimento. Os alimentos ultraprocessados são formulações de amido, gorduras, sal, açúcar e proteínas extraídas de alguns outros alimentos, como da soja por exemplo, e muito aditivos (corantes, texturizantes e aromatizantes) que tornam os alimentos saborosos mas que deturpam e viciam o paladar.

A classificação NOVA tem sido utilizada hoje em muitos países para o acompanhamento da situação alimentar e de saúde da população. Pesquisa publicada recentemente avaliou a disponibilidade domiciliar de grupos alimentares NOVA em dezenove países europeus e analisou a associação entre a disponibilidade de alimentos ultraprocessados e a prevalência de obesidade.

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Nos dezenove países, a mediana da disponibilidade média domiciliar representou 33,9% do total de energia dietética comprada para alimentos não processados ou minimamente processados, 20,3% para ingredientes culinários processados, 19,6% para alimentos processados e 26,4% para alimentos ultraprocessados. A disponibilidade média domiciliar de alimentos ultraprocessados variou de 10,2% em Portugal e 13,4% na Itália para 46,2% na Alemanha e 50,4% no Reino Unido (Monteiro et al., 2018).

Uma associação positiva significativa foi encontrada entre a disponibilidade nacional de alimentos ultraprocessados e a prevalência nacional de obesidade entre adultos. Os resultados reforçam a necessidade de políticas e ações públicas que promovam o consumo de alimentos não processados ou minimamente processados e tornem os alimentos ultraprocessados menos disponíveis e acessíveis.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, mestre em nutrição humana, doutora em psicologia clínica e cultura, pós-doutora em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em Coaching e Yoga. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/contato/