Metabolômica e Sepse: Como a Análise de Pequenas Moléculas Está Revolucionando o Diagnóstico em UTI?

A sepse continua sendo um dos maiores desafios da medicina intensiva moderna. Trata-se de uma condição grave, na qual o organismo responde de forma exagerada e desordenada a uma infecção, podendo levar à falência de órgãos e à morte. Mesmo com todos os avanços dos cuidados intensivos, diagnosticar a sepse precocemente e prever sua evolução ainda são tarefas extremamente difíceis.

É nesse cenário que a metabolômica vem ganhando espaço como uma ferramenta promissora. Essa área da ciência se dedica a estudar, de forma ampla, as pequenas moléculas (metabólitos) presentes em fluidos biológicos como sangue e urina. Ao analisar esse "retrato químico" do organismo, pesquisadores conseguem entender melhor o que acontece dentro das células durante a sepse — e, mais importante, encontrar pistas que ajudem médicos a agir mais rápido e com mais precisão.

O que acontece no metabolismo durante a sepse?

Quando o corpo entra em estado de sepse, ocorre uma verdadeira reviravolta no funcionamento celular. O metabolismo, que normalmente segue um ritmo de construção e reposição (anabolismo), passa a operar no modo de degradação (catabolismo), consumindo reservas de carboidratos, gorduras e proteínas para tentar manter o organismo funcionando.

Mitocôndrias sob estresse

As mitocôndrias — as "usinas de energia" das células — são especialmente afetadas. Estudos mostram que pacientes sépticos apresentam produção reduzida de energia (ATP) e consumo alterado de oxigênio nessas estruturas. Pesquisas recentes conseguiram até criar modelos que estimam o funcionamento mitocondrial por meio de marcadores metabólicos no sangue, sem precisar de exames invasivos diretamente nas células.

Da energia limpa à energia "de emergência"

Em situações normais, o corpo produz energia de forma eficiente, utilizando oxigênio. Na sepse, esse processo é prejudicado, e o organismo passa a depender mais da via anaeróbica — aquela que não usa oxigênio, mas que é menos eficiente e gera lactato como subproduto. Não é por acaso que o lactato é, até hoje, um dos marcadores mais usados em UTIs para avaliar a gravidade de um paciente, embora ele sozinho não conte toda a história.

Músculos e aminoácidos

A sepse também provoca a quebra de proteínas musculares, liberando aminoácidos que o corpo redireciona para produzir energia e moléculas de defesa. Pesquisas de metanálise mostraram que alterações nas vias de metabolismo de aminoácidos estão fortemente ligadas ao risco de morte, com boa capacidade preditiva quando combinadas em modelos estatísticos.

Gorduras em desequilíbrio

Outra peça importante do quebra-cabeça envolve os lipídios. Substâncias como esfingolipídios e fosfolipídios aparecem alteradas em pacientes com sepse grave, tanto no sangue quanto na urina. Um composto chamado esfingosina, por exemplo, tem aparecido repetidamente como um possível marcador útil para identificar casos graves.

Como os cientistas "leem" essas moléculas?

Para detectar e medir essas centenas de pequenas moléculas, os pesquisadores recorrem principalmente a duas tecnologias:

Espectrometria de massas (combinada com cromatografia líquida) é a técnica mais usada, por sua altíssima sensibilidade e capacidade de identificar uma enorme variedade de substâncias em uma única amostra. Com ela, já foi possível identificar conjuntos de biomarcadores no sangue e na urina capazes de distinguir pacientes com sepse grave de pessoas saudáveis.

Ressonância magnética nuclear (RMN) é uma alternativa menos sensível, mas extremamente reprodutível e precisa para quantificar metabólitos, sendo útil, por exemplo, para estimar a função mitocondrial a partir de amostras de sangue.

Os estudos também se dividem entre abordagens "não direcionadas" (que fazem uma varredura ampla, ideal para descobrir novos marcadores) e "direcionadas" (que focam em moléculas específicas já conhecidas, úteis para validação e uso clínico).

Biomarcadores: das amostras de sangue à urina

Diversos candidatos a biomarcadores já foram identificados em diferentes biofluidos. No sangue, combinações de metabólitos específicos mostraram capacidade de prever, já na admissão hospitalar, quais pacientes têm maior risco de não sobreviver. Na urina — uma amostra mais fácil e não invasiva de coletar — também foram encontrados conjuntos de moléculas com potencial diagnóstico para sepse grave.

Um destaque especial vai para a lesão pulmonar aguda induzida por sepse, uma complicação com mortalidade particularmente alta. Nesses casos, um metabólito urinário específico chegou a apresentar desempenho diagnóstico muito robusto em estudos de validação.

Prevendo o desfecho: quem vai e quem não vai sobreviver?

Talvez o aspecto mais impressionante da metabolômica aplicada à sepse seja sua capacidade de ajudar a prever desfechos. Uma grande metanálise reunindo mais de mil pacientes de diversos estudos identificou um conjunto de "vias metabólicas relacionadas à morte", envolvendo metabolismo de aminoácidos, função mitocondrial, eicosanoides e lisofosfolipídios. Quando usadas para prever óbito, essas vias tiveram um desempenho comparável ao de painéis de biomarcadores tradicionais — e, em uma validação posterior com quase 200 pacientes, o desempenho foi ainda melhor.

Outro ponto interessante é que combinar dados metabolômicos com informações clínicas tradicionais (como sinais vitais e escores de gravidade) melhora significativamente a previsão de mortalidade em comparação ao uso isolado de qualquer um dos dois.

O papel do microbioma intestinal

A sepse também afeta — e é afetada por — o microbioma intestinal. Durante episódios sépticos, a diversidade das bactérias do intestino cai drasticamente, abrindo espaço para que microrganismos potencialmente nocivos se tornem dominantes. Essas mudanças deixam "assinaturas" no perfil metabólico do paciente, que podem servir tanto como sinais de alerta quanto como pistas para futuros tratamentos. Existe ainda um campo emergente chamado farmacometabolômica, que busca prever como cada paciente vai responder a determinados medicamentos com base em seu perfil metabólico individual — um passo importante rumo à medicina personalizada na UTI.

Os desafios pela frente

Apesar do entusiasmo, ainda há obstáculos importantes. A sepse é uma síndrome extremamente heterogênea: o perfil metabólico de um paciente pode variar bastante dependendo do tipo de infecção, do agente causador, da genética e de doenças preexistentes. Não por acaso, diferentes estudos frequentemente encontram conjuntos distintos de biomarcadores — embora, curiosamente, esses marcadores tendam a convergir para as mesmas vias biológicas no fundo.

Para que a metabolômica saia do laboratório e chegue de fato à beira do leito, será necessário padronizar protocolos de coleta e análise, além de realizar estudos de validação em larga escala. Iniciativas como a criação de bancos de dados dedicados a biomarcadores de sepse já representam passos concretos nessa direção.

O futuro: integração é a palavra-chave

O caminho mais promissor parece ser a integração — tanto entre a metabolômica e outras tecnologias "ômicas" (genômica, proteômica, transcriptômica e análise do microbioma), quanto entre dados de laboratório e informações clínicas do dia a dia. Modelos que combinam essas diferentes fontes de informação já demonstraram resultados superiores aos métodos tradicionais isolados.

Com o avanço contínuo das tecnologias analíticas, a expectativa é que, em poucos anos, perfis metabolômicos se tornem parte da rotina de avaliação de pacientes críticos — ajudando médicos a tomar decisões mais rápidas, precisas e personalizadas no combate à sepse.

Há uma aula completa sobre o tema no curso de metabolômica

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

5α-Androstanediol: um importante Marcador Hormonal

Sabia que é possível ter excesso de androgênios com testosterona dentro dos valores normais? Conheça o metabólito que pode mudar o diagnóstico.

Hirsutismo sem causa aparente. Queda de cabelo sem explicação. Acne persistente apesar de exames "normais". Se já viveu algum destes cenários, talvez a resposta não estivesse nos marcadores habituais — mas num metabolito pouco conhecido chamado 5α-androstanediol.

Um white paper publicado pela Precision Analytical, fabricante do DUTCH Test, reúne a evidência científica sobre este marcador e o que ele pode revelar sobre a atividade androgénica nas mulheres. O que descobriram é importante.

O Problema com Medir Só a Testosterona

Os androgênios — hormônios tradicionalmente associados à fisiologia masculina — têm um papel essencial na saúde da mulher. Influenciam o humor, a cognição, a função sexual, a saúde da pele, a densidade óssea, a saúde cardiovascular e a massa muscular.

Na prática clínica, a avaliação dos androgênios faz-se habitualmente através da medição da testosterona sérica. Mas esta abordagem tem uma limitação fundamental: os efeitos clínicos dos androgênios resultam de uma interação complexa de fatores, incluindo a atividade de metabolitos que não circulam no sangue de forma mensurável.

O melhor exemplo disso é a di-hidrotestosterona (DHT) — o metabólito mais potente da testosterona, três vezes mais potente do que a própria testosterona. O DHT atua principalmente dentro das células de tecidos periféricos como a pele. Produzido localmente pela enzima 5α-redutase, permanece no interior celular a exercer os seus efeitos sem ser libertado para a corrente sanguínea em quantidades significativas. Por isso, não conseguimos medir o DHT no sangue de forma clinicamente relevante.

Entra o 5α-Androstanediol

Aqui é onde o 5α-androstanediol se torna crucial. Quando há excesso de DHT dentro da célula, este converte-se no seu metabolito — o 5α-androstanediol — que é então libertado para a corrente sanguínea e excretado na urina. É por isso que o 5α-androstanediol é considerado o melhor marcador disponível da atividade intracelular de DHT nos tecidos periféricos.

Em linguagem simples: medir o 5α-androstanediol é como encontrar as "pegadas" do DHT — uma evidência indireta mas fiável do que está a acontecer dentro das células.

O Que a Investigação Mostra?

A evidência acumulada nos últimos anos é consistente em quatro pontos principais:

1. Hirsutismo — Quando a Testosterona Está Normal Mas o Problema Existe

O hirsutismo idiopático — crescimento excessivo de pelos em padrão masculino sem causa médica identificável — é um desses casos frustrantes em que a testosterona aparece dentro dos valores normais. Durante décadas, ficou sem explicação.

A investigação sobre o 5α-androstanediol muda isso. Vários estudos demonstraram que os níveis de 5α-androstanediol estão significativamente elevados em mulheres com hirsutismo idiopático — tanto no sangue como na urina — mesmo quando a testosterona é normal. Num estudo que avaliou sete hormonas esteroides em amostras de urina, o 5α-androstanediol foi o que mostrou a maior diferença entre mulheres hirsutas e mulheres saudáveis.

2. Alopecia Androgenética — Um Marcador da Gravidade

A mesma lógica aplica-se à queda de cabelo de padrão feminino. Na raiz do couro cabeludo, o excesso de DHT encurta o ciclo de crescimento do cabelo e promove a miniaturização dos folículos pilosos — tornando-os progressivamente mais finos e curtos.

Vários estudos mostraram que mulheres com alopºecia androgenética têm níveis sanguíneos de 5α-androstanediol significativamente mais elevados do que mulheres saudáveis. Ainda mais revelador: os níveis de 5α-androstanediol correlacionam-se com a gravidade da alopecia — quanto mais avançada a queda de cabelo, mais elevado o marcador.

3. Acne Feminina — O Androgénio Escondido

Em mulheres com acne a quem se tinha dito que os androgénios estavam normais, estudos encontraram uma realidade diferente: metade dessas mulheres tinha, na verdade, níveis elevados de 5α-androstanediol. Noutro estudo, um subgrupo de pacientes com acne apresentou níveis de 5α-androstanediol três vezes superiores ao grupo de controlo — mesmo com DHEA, androstenediona e testosterona (total e livre) dentro dos valores normais.

4. PCOS — O Melhor Marcador Discriminativo

Numa análise de 40 metabolitos esteroides diferentes em urina de 24 horas, o 5α-androstanediol emergiu como o melhor marcador individual para distinguir mulheres com síndrome do ovário poliquístico (PCOS) de mulheres saudáveis. Os dados foram marcantes: mesmo o percentil 25 das mulheres com PCOS superou o percentil 75 das mulheres saudáveis — ou seja, sem sobreposição entre os dois grupos.

Monitorizar o Tratamento

O 5α-androstanediol não serve apenas para o diagnóstico. Estudos mostram que, quando o tratamento resulta, os níveis de 5α-androstanediol descem junto com a melhoria dos sintomas.

Isto foi observado com inibidores da 5α-redutase (como a finasterida), com espironolactona, com contracetivos orais, com agonistas da GnRH para o hirsutismo, e com retinoides para a acne. Os níveis do marcador acompanham a resposta clínica — tornando-o útil também para acompanhar a eficácia terapêutica ao longo do tempo.

Urina vs. Sangue: Uma Nota Prática

Nos estudos científicos, o 5α-androstanediol tem sido medido tanto no sangue como na urina. Na prática clínica, a recolha de urina tem vantagens importantes: é mais cómoda e menos invasiva, e reflete a exposição hormonal ao longo de um período de tempo mais alargado — ao contrário do sangue, que apenas fornece uma "fotografia" do momento.

O Que Isto Significa na Prática

A mensagem principal deste conjunto de evidências é clara: um painel androgênico completo vai além da testosterona.

Para mulheres com:

  • Crescimento excessivo de pelos sem causa identificada

  • Queda de cabelo de padrão feminino

  • Acne persistente com exames "normais"

  • Irregularidades menstruais

  • Suspeita de PCOS

…avaliar o 5α-androstanediol pode revelar uma atividade androgénica intratecidular que os marcadores convencionais simplesmente não capturam.

Como sublinham os autores do white paper: "Androgen metabolites such as 5α-androstanediol are key indicators of intracrine androgen metabolism, reflecting localized hormone activity at the tissue level that may not be captured through a single test of circulating testosterone alone."

A endocrinologia feminina é complexa, e os androgénios são uma parte frequentemente subestimada dessa complexidade. O 5α-androstanediol representa uma janela para uma dimensão da atividade hormonal que permaneceu invisível durante demasiado tempo — e que pode ser a peça que falta no puzzle clínico de muitas mulheres.

Se reconhece os sintomas descritos neste artigo e os seus exames convencionais foram "normais", vale a pena perguntar ao seu médico sobre uma avaliação androgénica mais completa, incluindo os metabolitos.

Este artigo tem fins informativos e educativos. Não constitui aconselhamento médico ou nutricional. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado para avaliação e tratamento.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Como o seu DNA influencia a capacidade de "detox" do fígado?

Durante anos, uma ideia ganhou força nas consultas de nutrição e nos painéis de genética funcional: quem carrega certas variantes genéticas tem o fígado "mais lento" para eliminar toxinas e, portanto, precisa de protocolos de suporte hepático mais intensivos. Mas um estudo publicado no International Journal of Molecular Sciences veio questionar essa premissa — e os resultados merecem atenção de qualquer profissional ou pessoa interessada em nutrigenômica (Schauer et al., 2025).

O que os investigadores queriam saber?

A equipa de Schauer e colegas recrutou 30 adultos austríacos e submeteu-os a oito semanas de suplementação com um protocolo de suporte hepático contendo glutationa lipossômica, N-acetilcisteína (NAC), ácido alfa-lipóico, DIM (diindolilmetano), um complexo fitoterápico hepático e zeólita. A lógica era simples: estimular os mecanismos antioxidantes e as chamadas vias de biotransformação de fase I e fase II — os processos através dos quais o fígado transforma substâncias tóxicas em formas que o organismo consegue eliminar.

Antes de começar, os participantes foram divididos em dois grupos com base nos seus genes. O grupo CDL (capacidade de destoxificação limitada) reunia quem tinha duas ou mais variantes consideradas desfavoráveis nos genes GSTM1, GSTT1, GSTP1, NQO1 e CYP1A1. O grupo CDN (capacidade de destoxificação normal) incluía quem não apresentava essas variantes de risco. A pergunta central era: as pessoas com genética "menos favorável" responderiam de forma diferente à suplementação?

O que aconteceu depois de oito semanas

Os biomarcadores utilizados para avaliar a resposta foram dois marcadores urinários: o ácido D-glucárico, que reflete a atividade das vias de glucuronidação (um mecanismo de fase II), e os ácidos mercaptúricos, que indicam a formação e excreção de conjugados dependentes de glutationa. Em termos simples, quanto maiores os valores destes marcadores, maior a atividade das vias de eliminação hepática.

E o protocolo funcionou — pelo menos nos biomarcadores. Após oito semanas, todos os participantes apresentaram aumentos significativos tanto no ácido D-glucárico como nos ácidos mercaptúricos. Houve também uma pequena mas estatisticamente significativa redução de peso (–0,87 kg em média) e de IMC (–0,31 kg/m²).

Mas o achado mais importante não foi esse.

A genética não fez diferença — e isso é o que mais importa

Ao comparar os dois grupos, os investigadores não encontraram diferenças significativas entre quem tinha a genética "limitada" e quem tinha a genética "normal". As melhorias nos biomarcadores foram semelhantes em ambos os grupos. O genótipo, neste caso, não previu a resposta funcional à suplementação.

Isto tem implicações directas para a prática clínica. Sugere que as vias de destoxificação hepática possuem uma elevada redundância biológica — ou seja, quando um caminho fica comprometido, o organismo tende a compensar por outros. Uma variante num gene isolado, ou mesmo a combinação de algumas variantes, pode não ser suficiente para determinar como o metabolismo de cada pessoa realmente funciona no dia a dia.

Os próprios autores reconhecem que factores como a microbiota intestinal, a dieta, a exposição a tóxicos ambientais, o estado redox global e a disponibilidade de cofatores provavelmente exercem uma influência maior sobre a capacidade funcional de destoxificação do que os polimorfismos analisados.

O que isto significa para os testes genéticos comerciais?

Saber que alguém tem uma variante no GSTM1 não é suficiente para concluir que o seu fígado "detoxifica mal". O fenótipo metabólico real, medido através de biomarcadores funcionais e exames metabolômicos, parece ser muito mais informativo do que o genótipo isolado.

É importante sermos honestos quanto às limitações. Trinta participantes é uma amostra muito pequena para tirar conclusões definitivas. O estudo não tinha grupo placebo, o que impede afirmar com certeza que as alterações observadas foram exclusivamente causadas pelos suplementos. Os próprios biomarcadores utilizados são marcadores indirectos — um aumento do ácido D-glucárico urinário não é sinónimo directo de maior capacidade de eliminar toxinas, mas sim de maior actividade de uma via específica. E o painel genético analisado foi relativamente pequeno face à enorme complexidade das vias de biotransformação hepática.

Trata-se, portanto, de um estudo piloto que levanta questões importantes, mas que precisa de ser replicado em amostras maiores e com metodologia mais robusta.

A mensagem que fica

A genética é uma peça do puzzle (quebra-cabeças), mas apenas uma peça. Para compreender verdadeiramente a capacidade de destoxificação de cada pessoa, é necessário integrar dados genéticos com biomarcadores funcionais, metabolômica, microbiota, historial de exposição ambiental e estado nutricional. Reduzir essa complexidade a um conjunto de SNPs num relatório genético é, no mínimo, uma simplificação excessiva.

A próxima vez que alguém mostrar um teste genético dizendo que tem "genes de detox comprometidos", vale a pena recordar este estudo: o genoma diz muito sobre predisposições, mas o metabolismo real é escrito também por tudo o que fazemos — e comemos — todos os dias.

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Baseado em: Schauer M, et al. Does Genetic Variation in Detoxification Capacity Influence Hepatic Biomarker Responses to a Liver Support Supplementation Regimen? Int J Mol Sci. 2025;26(20):10209; https://doi.org/10.3390/ijms262010209

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/