Shatavari: evidências científicas, mecanismos e aplicações clínicas

O shatavari, derivado da planta Asparagus racemosus, é uma das ervas mais utilizadas na medicina ayurvédica para saúde feminina, fertilidade e modulação do estresse. Nas últimas décadas, estudos experimentais e clínicos começaram a investigar seus efeitos sobre menopausa, função reprodutiva, humor, estresse oxidativo e função gastrointestinal.

Os principais compostos bioativos do shatavari incluem:

  • saponinas esteroidais (shatavarins);

  • flavonoides;

  • alcaloides;

  • compostos antioxidantes;

  • fitoestrógenos.¹

Os mecanismos propostos envolvem:

  • atividade fitoestrogênica leve;

  • modulação neuroendócrina;

  • ação antioxidante;

  • redução de inflamação;

  • possível modulação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal.¹

Shatavari e menopausa

A área mais estudada atualmente é o uso do shatavari em mulheres na perimenopausa e menopausa. Um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e placebo-controlado publicado em 2025 avaliou 135 mulheres entre 45 e 65 anos durante oito semanas. O grupo suplementado apresentou melhora significativa em sintomas menopausais, qualidade de vida, humor e percepção de estresse.²

Outro estudo observou melhora de sintomas da perimenopausa associada ao aumento de estradiol sérico após suplementação com shatavari, sugerindo possível atividade estrogênica moderada.³

Os autores sugerem que os efeitos podem estar relacionados à presença de fitoestrógenos vegetais capazes de interagir parcialmente com receptores hormonais femininos.³

Apesar dos resultados promissores, ainda existem limitações importantes:

  • amostras pequenas;

  • curta duração dos estudos;

  • heterogeneidade dos extratos utilizados;

  • poucos estudos independentes.

Assim, não há evidência suficiente para substituir terapia hormonal convencional.

Modulação do estresse e possível efeito adaptógeno

Na medicina ayurvédica, o shatavari é classificado como adaptógeno.

Os estudos atuais sugerem possível melhora em:

  • fadiga;

  • humor;

  • tolerância ao estresse;

  • percepção subjetiva de ansiedade.²

Os mecanismos propostos incluem:

  • redução de estresse oxidativo;

  • proteção neuronal;

  • modulação neuroendócrina;

  • possível influência sobre cortisol e eixo HPA.¹

Entretanto, faltam estudos clínicos robustos avaliando biomarcadores hormonais como cortisol, ACTH e catecolaminas.

Fertilidade e saúde reprodutiva

Tradicionalmente, o shatavari é utilizado como tônico reprodutivo feminino.

As evidências atuais sugerem potencial benefício em:

  • ovulação;

  • saúde endometrial;

  • libido;

  • qualidade do muco cervical;

  • suporte à fertilidade;

  • lactação.

Uma revisão publicada em 2025 descreveu o shatavari como um potencial agente complementar na fertilidade feminina devido às propriedades antioxidantes e hormonais da planta.

No entanto, a maior parte das evidências nessa área ainda vem de:

  • estudos animais;

  • estudos in vitro;

  • revisões narrativas;

  • uso tradicional ayurvédico.

Ainda faltam ensaios clínicos de maior qualidade metodológica em infertilidade humana.

Saúde gastrointestinal

Estudos experimentais demonstram possível efeito gastroprotetor do shatavari.¹

Os mecanismos propostos incluem:

  • aumento da proteção da mucosa;

  • ação antioxidante;

  • redução de inflamação;

  • efeito citoprotetor gástrico.

Historicamente, a planta também é utilizada em gastrite, azia, irritação gastrointestinal, mas faltam estudos robustos em humanos.

Segurança e efeitos adversos

Os estudos clínicos disponíveis relatam poucos efeitos adversos, geralmente leves, incluindo:

  • desconforto gastrointestinal;

  • náusea;

  • tontura.²

O uso deve ser cauteloso em indivíduos com:

  • câncer hormônio-dependente;

  • endometriose;

  • uso de terapia hormonal;

  • alergia a aspargos.

A padronização dos extratos comerciais ainda varia significativamente entre fabricantes e, embora os resultados atuais sejam promissores, a literatura ainda apresenta limitações metodológicas importantes. São necessários estudos clínicos maiores, mais longos e independentes para definir eficácia, dose ideal e segurança em longo prazo. Você pode aprender mais sobre uso de ervas, especiarias e suplementos a base de plantas nos cursos de fitoterapia e Ayurveda.

Referências

  1. Alok S, Jain SK, Verma A, Kumar M, Mahor A, Sabharwal M. Plant profile, phytochemistry and pharmacology of Asparagus racemosus (Shatavari): a review. Asian Pac J Trop Dis. 2013;3(3):242-251. doi: 10.1016/S2222-1808(13)60049-3

  2. Sharma R, et al. Effects of Shatavari supplementation on menopausal symptoms and quality of life in women: a randomized placebo-controlled trial. Front Reprod Health. 2025. https://doi.org/10.3389/frph.2025.1654503

  3. Mahajan S, Avad P, Langade J. Efficacy and Safety of Shatavari (Asparagus racemosus) Root Extract for Perimenopause: Randomized, Double-Blind, Placebo-Controlled Study. Int J Womens Health. 2025 Nov 3;17:4057-4073. doi: 10.2147/IJWH.S544267.

  4. Oyovwi MO, Chijiokwu EA, Ben-Azu B, Ugwuishi EW, Jeroh E. Shatavari (Asparagus racemosus): A Promising Ally for Fertility. Curr Nutr Rep. 2025 Sep 20;14(1):108. doi: 10.1007/s13668-025-00694-5.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Cuidados após a remoção da vesícula (colecistectomia)

Após colecistectomia, o principal ajuste fisiológico é que a bile deixa de ser armazenada e concentrada na vesícula. Ela passa a escorrer continuamente do fígado para o intestino. A maioria das pessoas adapta-se bem, mas algumas desenvolvem sintomas digestivos, especialmente nas primeiras semanas ou meses.

Cuidados principais:

• refeições menores e mais frequentes
• evitar grandes cargas de gordura em uma única refeição
• aumentar fibra gradualmente
• hidratação adequada
• evitar excesso de álcool nas primeiras semanas
• caminhar precocemente após cirurgia para reduzir risco trombótico e melhorar motilidade intestinal

Alimentação inicial:

Nas primeiras 2–6 semanas costuma haver menor tolerância a:

• frituras
• gordura muito concentrada
• alimentos ultraprocessados
• molhos gordurosos
• excesso de cafeína
• refeições volumosas

O motivo é que a liberação biliar perde a sincronização fina com a refeição.

Sintomas comuns transitórios:

• diarreia pós-prandial
• urgência evacuatória
• distensão abdominal
• flatulência
• náusea leve

Isso geralmente melhora com adaptação intestinal e hepática.

Fisiologia importante:

Sem vesícula, há aumento relativo de exposição intestinal contínua a sais biliares. Em algumas pessoas isso causa:

• má absorção de ácidos biliares
• irritação colônica
• diarreia biliar

Se houver diarreia persistente, especialmente após gordura, considerar avaliação para “bile acid diarrhea”.

O mecanismo envolve excesso de ácidos biliares alcançando o cólon.

Nesses casos podem ajudar:

• fibra solúvel
• psyllium
• redução de gordura concentrada
• sequestrantes de ácidos biliares como Cholestyramine em casos selecionados

Possíveis alterações metabólicas de longo prazo:

Em parte dos pacientes observa-se:

• alteração da microbiota
• aumento de ácidos biliares secundários
• maior trânsito intestinal
• mudanças discretas no metabolismo lipídico e glicêmico

Mas a maioria mantém vida normal sem restrições permanentes.

Sinais de alerta após cirurgia:

• febre
• icterícia
• dor abdominal intensa progressiva
• vômitos persistentes
• fezes claras
• urina muito escura
• perda de peso importante
• dor no ombro persistente associada a dispneia

Isso exige avaliação médica.

Há também uma entidade chamada síndrome pós-colecistectomia, que pode envolver:

• disfunção do esfíncter de Oddi
• refluxo biliar
• hipersensibilidade intestinal
• cálculos residuais
• alterações funcionais intestinais

Mas isso ocorre em minoria.

Em termos nutricionais, o padrão que tende a funcionar melhor é:

• gordura distribuída ao longo do dia
• fibra fermentável moderada
• proteína adequada
• menor carga ultraprocessada
• adaptação progressiva, não restrição extrema de gordura

Restrição crônica severa de gordura geralmente não é necessária e pode até prejudicar absorção de vitaminas lipossolúveis e saciedade.

Efeitos da colecistectomia no intestino e no cérebro

A remoção da vesícula altera de forma persistente o ecossistema intestinal porque muda o padrão temporal e a concentração da bile no lúmen intestinal.

Normalmente, a vesícula libera bile em pulsos coordenados com as refeições. Após colecistectomia, ocorre fluxo biliar contínuo, menos concentrado e menos sincronizado. Isso modifica:

• composição da microbiota
• metabolismo bacteriano
• produção de ácidos biliares secundários
• permeabilidade intestinal
• sinalização imune e neuroendócrina

Disbiose

Os ácidos biliares têm forte ação antimicrobiana seletiva. Quando o padrão biliar muda, há pressão ecológica diferente sobre as bactérias intestinais.

Tende a ocorrer:

• redução de algumas espécies benéficas produtoras de butirato
• aumento de bactérias tolerantes à bile
• aumento relativo de espécies 7α-desidroxilantes que produzem ácidos biliares secundários

Gêneros frequentemente envolvidos incluem Bilophila, Bacteroides e certos Clostridium.

Isso não significa obrigatoriamente doença, mas uma mudança ecológica mensurável.

Consequências intestinais possíveis:

• diarreia biliar
• aumento de fermentação disfuncional
• distensão
• urgência evacuatória
• hipersensibilidade visceral
• piora de sintomas tipo SII

Ácidos biliares secundários e mucosa intestinal

Maior exposição colônica a DCA e LCA pode:

• aumentar estresse oxidativo epitelial
• alterar tight junctions
• aumentar permeabilidade intestinal
• ativar citocinas inflamatórias

Em excesso crônico, isso favorece inflamação de baixo grau.

Eixo intestino cérebro

A consequência neurologicamente mais interessante é que alterações biliares modificam:

• produção de metabólitos microbianos
• sinalização vagal
• serotonina intestinal
• GLP-1
• citocinas inflamatórias

Isso pode repercutir em:

• fadiga
• “brain fog”
• ansiedade
• alteração de humor
• piora cognitiva subjetiva

Não porque a cirurgia “cause doença neurológica”, mas porque microbiota e metabolismo biliar participam do eixo neuroimune.

Neuroinflamação

Perfis mais pró-inflamatórios de ácidos biliares podem aumentar:

• ativação microglial
• permeabilidade da barreira hematoencefálica
• sinalização inflamatória sistêmica

Especialmente em indivíduos predispostos metabolicamente.

Há estudos associando colecistectomia com maior incidência futura de:

• síndrome metabólica
• MASLD
• alterações microbiotas persistentes

Mas os dados ainda são heterogêneos e não provam causalidade forte.

O mais importante clinicamente:

A maioria adapta-se bem.

Os problemas tendem a surgir em indivíduos que já tinham:

• disbiose prévia
• dieta ultraprocessada
• baixa fibra
• obesidade visceral
• resistência à insulina
• SII
• inflamação metabólica

Estratégias que tendem a ajudar:

• fibra solúvel gradual
• amido resistente
• polifenóis
• distribuição de gordura ao longo do dia
• atividade física
• evitar grandes cargas lipídicas isoladas
• manejo do trânsito intestinal
• eventualmente probióticos específicos

Em alguns pacientes, melhorar o metabolismo biliar reduz sintomas neurocognitivos e fadiga de maneira relevante, o que reforça a importância do eixo intestino fígado cérebro.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Por que ceramidas na pele fazem bem e no sangue fazem mal?

As ceramidas têm funções completamente diferentes dependendo de onde estão.

Na pele, elas são estruturais e protetoras.
No sangue e dentro de tecidos metabólicos, podem atuar como moléculas de estresse celular e inflamação.

Na pele: ceramidas fazem bem

A camada mais externa da pele, o estrato córneo, funciona como uma “parede de tijolos”.

Os “tijolos” são as células da pele.
O “cimento” entre elas é formado principalmente por:

  • ceramidas;

  • colesterol;

  • ácidos graxos.

As ceramidas representam cerca de 50% dos lipídios da barreira cutânea.

Funções:

  • reduzem perda de água;

  • mantêm hidratação;

  • protegem contra bactérias, fungos e irritantes;

  • diminuem sensibilidade e inflamação;

  • ajudam na cicatrização.

Quando faltam ceramidas na pele:

  • pele seca;

  • dermatite atópica;

  • eczema;

  • maior permeabilidade;

  • inflamação local.

Por isso cosméticos com ceramidas costumam melhorar a barreira cutânea.

No sangue e nos tecidos metabólicos: excesso pode ser ruim

Ceramidas também são produzidas dentro do organismo a partir de gordura saturada, excesso calórico e inflamação.

Nesse contexto, níveis elevados de ceramidas circulantes estão associados a:

  • resistência à insulina;

  • diabetes tipo 2;

  • esteatose hepática;

  • aterosclerose;

  • disfunção mitocondrial;

  • maior risco cardiovascular.

Elas funcionam como moléculas sinalizadoras de “estresse metabólico”.

Por que fazem mal metabolicamente?

Ceramidas em excesso podem:

1. Bloquear sinalização da insulina

Elas inibem a via Akt/PKB, fundamental para a ação da insulina.

Resultado:

  • glicose entra menos na célula;

  • aumenta resistência insulínica.

2. Prejudicar mitocôndrias

Podem:

  • aumentar espécies reativas de oxigênio;

  • reduzir produção de ATP;

  • favorecer apoptose.

3. Aumentar inflamação

Ativam vias inflamatórias como:

  • NF-kB;

  • inflamassoma;

  • citocinas pró-inflamatórias.

4. Favorecer aterosclerose

Certas ceramidas plasmáticas estão associadas a:

  • instabilidade de placas;

  • inflamação vascular;

  • maior risco de infarto.

Hoje existem até painéis laboratoriais de ceramidas para estratificação cardiovascular.

Então a ceramida é “boa” ou “má”?

Nenhuma das duas, pois depende:

  • do local;

  • da quantidade;

  • do tipo de ceramida;

  • do contexto metabólico.

Na pele:

  • são componentes estruturais essenciais.

No metabolismo sistêmico:

  • excesso geralmente sinaliza sobrecarga lipídica e inflamação.

É parecido com colesterol:

  • colesterol na membrana celular é essencial;

  • excesso oxidado em artérias é problemático.

O que aumenta ceramidas circulantes?

Principalmente:

  • excesso calórico;

  • gordura saturada em excesso;

  • obesidade visceral;

  • resistência à insulina;

  • sedentarismo;

  • inflamação crônica;

  • lipotoxicidade.

O que tende a reduzir?

  • exercício físico;

  • perda de gordura visceral;

  • melhora da sensibilidade à insulina;

  • dieta com menos ultraprocessados;

  • ômega-3;

  • melhora mitocondrial.

Alguns estudos também investigam:

  • berberina;

  • metformina;

  • polifenóis;

  • inibidores da síntese de ceramidas.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/