Por que ceramidas na pele fazem bem e no sangue fazem mal?

As ceramidas têm funções completamente diferentes dependendo de onde estão.

Na pele, elas são estruturais e protetoras.
No sangue e dentro de tecidos metabólicos, podem atuar como moléculas de estresse celular e inflamação.

Na pele: ceramidas fazem bem

A camada mais externa da pele, o estrato córneo, funciona como uma “parede de tijolos”.

Os “tijolos” são as células da pele.
O “cimento” entre elas é formado principalmente por:

  • ceramidas;

  • colesterol;

  • ácidos graxos.

As ceramidas representam cerca de 50% dos lipídios da barreira cutânea.

Funções:

  • reduzem perda de água;

  • mantêm hidratação;

  • protegem contra bactérias, fungos e irritantes;

  • diminuem sensibilidade e inflamação;

  • ajudam na cicatrização.

Quando faltam ceramidas na pele:

  • pele seca;

  • dermatite atópica;

  • eczema;

  • maior permeabilidade;

  • inflamação local.

Por isso cosméticos com ceramidas costumam melhorar a barreira cutânea.

No sangue e nos tecidos metabólicos: excesso pode ser ruim

Ceramidas também são produzidas dentro do organismo a partir de gordura saturada, excesso calórico e inflamação.

Nesse contexto, níveis elevados de ceramidas circulantes estão associados a:

  • resistência à insulina;

  • diabetes tipo 2;

  • esteatose hepática;

  • aterosclerose;

  • disfunção mitocondrial;

  • maior risco cardiovascular.

Elas funcionam como moléculas sinalizadoras de “estresse metabólico”.

Por que fazem mal metabolicamente?

Ceramidas em excesso podem:

1. Bloquear sinalização da insulina

Elas inibem a via Akt/PKB, fundamental para a ação da insulina.

Resultado:

  • glicose entra menos na célula;

  • aumenta resistência insulínica.

2. Prejudicar mitocôndrias

Podem:

  • aumentar espécies reativas de oxigênio;

  • reduzir produção de ATP;

  • favorecer apoptose.

3. Aumentar inflamação

Ativam vias inflamatórias como:

  • NF-kB;

  • inflamassoma;

  • citocinas pró-inflamatórias.

4. Favorecer aterosclerose

Certas ceramidas plasmáticas estão associadas a:

  • instabilidade de placas;

  • inflamação vascular;

  • maior risco de infarto.

Hoje existem até painéis laboratoriais de ceramidas para estratificação cardiovascular.

Então a ceramida é “boa” ou “má”?

Nenhuma das duas, pois depende:

  • do local;

  • da quantidade;

  • do tipo de ceramida;

  • do contexto metabólico.

Na pele:

  • são componentes estruturais essenciais.

No metabolismo sistêmico:

  • excesso geralmente sinaliza sobrecarga lipídica e inflamação.

É parecido com colesterol:

  • colesterol na membrana celular é essencial;

  • excesso oxidado em artérias é problemático.

O que aumenta ceramidas circulantes?

Principalmente:

  • excesso calórico;

  • gordura saturada em excesso;

  • obesidade visceral;

  • resistência à insulina;

  • sedentarismo;

  • inflamação crônica;

  • lipotoxicidade.

O que tende a reduzir?

  • exercício físico;

  • perda de gordura visceral;

  • melhora da sensibilidade à insulina;

  • dieta com menos ultraprocessados;

  • ômega-3;

  • melhora mitocondrial.

Alguns estudos também investigam:

  • berberina;

  • metformina;

  • polifenóis;

  • inibidores da síntese de ceramidas.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Alterações no metabolismo de ômega-3 no autismo

Estudo analisou se variantes genéticas nos genes envolvidos no metabolismo de ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa, especialmente DHA e AA, estão associadas ao risco de transtorno do espectro autista (TEA) em crianças chinesas. Os genes investigados foram o cluster FADS1/FADS2 e o gene ELOVL2.

Os genes FADS e ELOVL codificam enzimas fundamentais para:

  • dessaturação de ácidos graxos essenciais

  • elongação de PUFAs

  • síntese endógena de DHA e EPA

Isso é biologicamente relevante porque o cérebro em desenvolvimento depende intensamente de DHA para:

  • neurogênese

  • sinaptogênese

  • fluidez de membrana neuronal

  • neurotransmissão

  • modulação neuroinflamatória

Métodos:

  • estudo caso-controle

  • 243 crianças com TEA

  • 243 controles saudáveis

  • população Han chinesa

  • genotipagem de 16 SNPs nos genes FADS1, FADS2 e ELOVL2

Principais achados:

  1. Algumas variantes do FADS2 pareceram protetoras contra TEA.
    O SNP rs526126 mostrou associação consistente com menor risco de autismo.

  2. Variantes do ELOVL2 aumentaram o risco de TEA.
    Os SNPs:

  • rs17606561

  • rs3756963

  • rs9468304

foram associados a maior susceptibilidade ao transtorno.

Uma variante específica do ELOVL2 (rs10498676) foi associada a sintomas comunicativos menos graves. Crianças com genótipo A/A apresentaram menores escores de comprometimento em comunicação verbal e não verbal no ADI-R.

O estudo sugere que alterações genéticas na capacidade de sintetizar LC-PUFAs podem modificar o neurodesenvolvimento e influenciar vulnerabilidade ao TEA.

A hipótese central é a de que genótipos que reduzem eficiência metabólica de DHA/EPA poderiam favorecer:

  • neuroinflamação

  • alterações sinápticas

  • disfunção de membrana neuronal

  • alterações na conectividade cerebral

O trabalho fortalece a ideia de que metabolismo lipídico participa da fisiopatologia do autismo, especialmente via eixo:

PUFAs → inflamação → desenvolvimento neural.

Limitações importantes:

  • estudo observacional

  • associação genética não prova causalidade

  • população exclusivamente chinesa

  • tamanho amostral moderado

  • não mediram níveis plasmáticos ou cerebrais de DHA/EPA

  • não avaliaram interação gene-dieta

O estudo chinês é biologicamente plausível porque FADS1/FADS2 e ELOVL2 são genes universalmente importantes no metabolismo de DHA, EPA e ácido araquidônico. Portanto, o mecanismo potencialmente pode existir em qualquer população humana.

Porém, associação genética não é automaticamente generalizável entre etnias. A frequência dos SNPs, o padrão de ligação genética (linkage disequilibrium), dieta, microbiota e exposições ambientais mudam muito entre populações.

Exemplo:

  • variantes do cluster FADS têm distribuição extremamente diferente entre asiáticos, europeus, africanos e indígenas

  • populações com alto consumo histórico de peixe tendem a sofrer pressões evolutivas diferentes no metabolismo de LC-PUFAs

  • o efeito do gene depende fortemente da dieta de ômega-3/ômega-6

Então, o mecanismo provavelmente é universal; os SNPs específicos associados ao TEA talvez não sejam. FADS e ELOVL também foram implicados em:

  • TDAH

  • depressão

  • esquizofrenia

  • bipolaridade

Ou seja, provavelmente não são genes “específicos do autismo”, mas genes ligados à neuroinflamação e plasticidade neuronal. Estudos de suplmentação com ômega-3 em autismo têm resultados fracos. Esse é um ponto importante.

Se o metabolismo de PUFA é relevante, esperaríamos melhora robusta com suplementação. Mas os ensaios clínicos até hoje mostram:

  • efeitos pequenos

  • inconsistentes

  • frequentemente sem significância estatística

  • amostras pequenas

As revisões sistemáticas e meta-análises concluem que ainda não há evidência forte para recomendar ômega-3 como tratamento central do TEA.

Isso sugere algo importante: o problema talvez não seja apenas “deficiência de DHA”, mas regulação complexa do metabolismo lipídico cerebral. Estudos mais recentes caminham para biomarcadores metabólicos
A linha atual da pesquisa está migrando de “ômega-3 faz bem?” para
“quais subgrupos metabólicos/genéticos respondem?”

Hoje existe interesse em:

  • metabolômica

  • lipidômica

  • eicosanoides

  • epigenética do FADS cluster

  • interação gene-dieta

  • exposição pré-natal

Alguns estudos sugerem que alterações de metabólitos derivados do ácido araquidônico durante gestação e período neonatal podem influenciar risco ou severidade do TEA.

A interpretação mais equilibrada hoje é:

  • há evidência moderada de que metabolismo de PUFA participa da biologia do TEA

  • há evidência fraca/modesta para suplementação terapêutica universal

  • provavelmente existe um subgrupo metabólico/genético de pacientes mais responsivos

  • TEA é extremamente heterogêneo, então efeitos médios populacionais tendem a diluir subgrupos biológicos reais

O artigo chinês é relevante principalmente porque reforça que o TEA não envolve apenas neurotransmissores e genética sináptica; também envolve metabolismo energético, inflamação e composição lipídica neuronal.

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Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Meu teste de DNA mostrou uma alteração. O que isso significa?

Muita gente recebe um exame genético com variantes como COMT, MTHFR, APOE, FTO e entra em desespero achando que “tem” uma doença, um déficit metabólico ou uma predisposição inevitável. Mas a biologia humana não funciona de forma tão simples.

Ter uma variante genética não significa, necessariamente, desenvolver uma característica ou doença. Na genética, usamos o conceito de penetrância para descrever o quanto uma variante realmente se manifesta nos indivíduos que a carregam.

• Penetrância completa: quando praticamente todas as pessoas com aquela variante manifestam a característica associada.

• Penetrância incompleta: quando apenas parte das pessoas manifesta a característica, mesmo carregando a mesma variante genética.

Ou seja: duas pessoas podem ter exatamente a mesma variante e apresentarem respostas biológicas completamente diferentes.

Isso acontece porque a expressão genética depende de múltiplas camadas de interação:

• genes e ancestralidade genética

• genes e ambiente

• contexto metabólico e inflamatório

• mecanismos epigenéticos

• envelhecimento

• hormônios

• alimentação

• estresse

• atividade física

• sono

• microbiota

Além disso, nem toda variante é patogênica. As variantes genéticas podem ser classificadas como:

• benignas

• provavelmente benignas

• variantes de significado incerto

• provavelmente patogênicas

• patogênicas

Grande parte das variantes comuns avaliadas em testes comerciais não representa mutações causadoras de doença. Muitas são apenas polimorfismos relativamente frequentes na população.

Os genes também passam por regulação epigenética.

Na epigenética, a sequência do DNA não muda, mas a atividade dos genes pode aumentar, diminuir ou até ser silenciada dependendo do ambiente e do contexto biológico.

Isso ajuda a explicar por que não existe determinismo genético.

O mesmo gene pode produzir efeitos diferentes em pessoas diferentes, especialmente quando consideramos ancestralidade distinta, exposições ambientais diferentes e estados metabólicos individuais.

Genômica moderna não é sobre medo. É sobre entender probabilidades, contexto biológico e individualidade metabólica.

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Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/