Síntese de neurotransmissores monoaminérgicos

A imagem a seguir representa o caminho bioquímico para a síntese de neurotransmissores monoaminérgicos (dopamina, norepinefrina, serotonina e óxido nítrico) a partir de precursores como guanosina trifosfato, fenilalanina, tirosina e triptofano.

Observações importantes da figura (Doummar et al., 2018):

Enzimas em vermelho: pontos críticos no controle da via

Produtos intermediários em azul: cofatores ou metabólitos

BH4 é essencial para todas as reações de hidroxilação

AADC/PLP decarboxila tanto L-Dopa quanto 5-OH-Trp

1. Produção de tetrahidrobiopterina (BH4)

  • Guanosina trifosfato (GTP) → Dihidroneopterina trifosfato
    Enzima: GTPCH

  • Dihidroneopterina trifosfato → 6-Piruvoyl-tetrahidrobiopterin
    Enzima: PTPS

  • 6-Piruvoyl-tetrahidrobiopterin → Tetrahidrobiopterina (BH4)
    Enzima: SR (sepiapterin reductase)

BH4 é um cofator essencial para as enzimas que hidroxilam aminoácidos aromáticos (PAH, TH, TPH).

  • Regeneração de BH4:
    Tetrahidrobiopterina oxidada → q-Dihidrobiopterina (BH2)
    Enzima: DHPR
    Metilenotetrahidrofolato (vitamina B9 na forma ativa) atua no ciclo envolvendo a enzima MTHFR.

2. Síntese de neurotransmissores a partir de aminoácidos

  1. Fenilalanina (Phe)Tirosina (Tyr)
    Enzima: PAH (fenilalanina hidroxilase)
    Cofator: BH4

  2. Tirosina (Tyr)L-Dopa
    Enzima: TH (tirosina hidroxilase)
    Cofator: BH4

  3. L-DopaDopamina
    Enzimas: AADC (aromatic L-amino acid decarboxylase) / PLP (vitamina B6)

  4. DopaminaNorepinefrinaEpinefrina
    Enzimas: DBH (dopamina beta-hidroxilase), PNMT (não mostrado)

3. Síntese de serotonina

  • Triptofano (Trp)5-OH-Trp
    Enzima: TPH (triptofano hidroxilase)
    Cofator: BH4

  • 5-OH-TrpSerotonina
    Enzima: AADC / PLP

4. Síntese de óxido nítrico (NO)

  • Arginina (Arg)NO
    Enzima: NOS (óxido nítrico sintase)
    Cofator: BH4

5. Metabolismo e excreção (avaliado por exames metabolômicos)

  • Dopamina → HVA (ácido homovanílico) via MAO

  • Serotonina → 5-HIAA (ácido 5-hidroxi-indolacético)

  • Norepinefrina → MHPG

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Prisão de ventre e risco de depressão

Um intestino que funciona bem é fundamental para o bem-estar físico e mental, para a prevenção do câncer de cólon e também da depressão. Um estudo envolvendo 3.362 adultos com idades entre 18 e 55 anos constatou que indivíduos com depressão apresentavam um risco significativamente maior de constipação. A associação foi mais forte em homens em comparação com mulheres [1].

Outro estudo utilizando dados da Pesquisa Nacional de Exame de Saúde e Nutrição (NHANES) de 2005 a 2010 constatou que a constipação estava significativamente associada à depressão grave [2].

A análise de 4.562 adultos da NHANES de 2009 a 2010 mostrou ainda que a constipação estava associada à depressão de qualquer gravidade (leve, moderada e grave). A associação foi mais forte em homens do que em mulheres [3].

Um estudo de randomização mendeliana bidirecional confirmou uma relação causal entre depressão e constipação crônica. Não foram encontradas evidências de causalidade reversa [4]. Outro estudo utilizando randomização mendeliana constatou que a depressão geneticamente prevista estava associada a um risco aumentado de constipação[5].

Impacto na Qualidade de Vida

A gravidade da depressão intermediou a relação entre a gravidade da constipação e a qualidade de vida relacionada à saúde mental em pacientes constipados. O tratamento da depressão pode melhorar a qualidade de vida desses pacientes [6].

Os estudos demonstram consistentemente uma associação significativa entre constipação e depressão, com a depressão aumentando o risco de constipação. Essa relação é particularmente pronunciada em homens e em diferentes graus de depressão. Recomenda-se o rastreamento regular de depressão em pacientes com constipação para prevenir a deterioração de sua condição.

Referências

1) P Adibi et al. Relationship between Depression and Constipation: Results from a Large Cross-sectional Study in Adults. The Korean journal of gastroenterology = Taehan Sohwagi Hakhoe chi (2022). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36004635/

2) P Wang et al. Association between constipation and major depression in adult Americans: evidence from NHANES 2005-2010. Frontiers in psychiatry (2023). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37654986/

3) Y Wang et al. Constipation is associated with depression of any severity, but not with suicidal ideation: insights from a large cross-sectional study. International journal of colorectal disease (2023). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37713119/

4) Z He et al. Can depression lead to chronic constipation, or does chronic constipation worsen depression? NHANES 2005-2010 and bidirectional mendelian randomization analyses. BMC gastroenterology (2024). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39390366/

5) T Liu et al. Causal relationships between psychological disorders and functional gastrointestinal disorders: a bidirectional two-sample Mendelian randomization study. European journal of gastroenterology & hepatology (2024). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38973539/

6) JJ Albiani et al. Impact of depression and anxiety on the quality of life of constipated patients. Journal of clinical psychology in medical settings (2012). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22581107/

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Microbiota e influência no peso corporal

A microbiota intestinal contribui para a regulação da homeostase energética e tem sido associada tanto ao excesso de peso corporal e acúmulo de massa gorda (sobrepeso, obesidade) quanto à perda de peso, fraqueza, atrofia muscular e depleção de gordura (ou seja, caquexia).

A figura abaixo traz as principais áreas cerebrais envolvidas na alimentação homeostática (núcleo arqueado, núcleo paraventricular e hipotálamo lateral) e hedônica (área tegmental ventral, núcleo accumbens, estriado e córtex pré-frontal).

ARC (núcleo arqueado), PVN (núcleo paraventricular), LH (hipotálamo lateral), VTA (área tegmental ventral), NA (núcleo accumbens), estriado e PFC (córtex pré-frontal) - Hul et al., 2024

Efeito dos microorganismos e metabólitos intestinais no contexto da obesidade e comorbidades relacionadas

As bactérias intestinais podem se transformar, decompor e produzir compostos, resultando em uma infinidade de metabólitos microbianos, como ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), ácidos biliares (AB), lipídios bioativos, aminoácidos (AA), indóis e vitaminas. Acredita-se que o microbioma humano produza ou processe mais de 55.000 compostos diferentes, muitos dos quais podem modular a fisiologia e a fisiopatologia do hospedeiro de alguma forma. Para tanto, as bactérias usam substâncias prebióticas, incluindo polissacarídeos não-amiláceos, amido resistente, oligossacarídeos resistentes (XOS, GOS, FOS, POS, dextrinas resistentes) e polifenóis.

Fibras prebióticas alteram a composição e/ou a atividade da microbiota intestinal, com produção de AGCC e outros metabólitos que são usados no cólon ou no fígado, afetando suas funções. Metabólitos podem se ligar e ativar receptores acoplados à proteína G, levando à produção de hormônios intestinais, regulando beneficamente a homeostase energética e a função da barreira intestinal.

Funções e efeitos das enterosinas (moléculas derivadas no intestino) e que conseguem modular neurônios entéricos, diminuindo a motilidade duodenal para (i) reduzir a absorção de glicose e (ii) restaurar o eixo intestino-cérebro-periferia e a sensibilidade à insulina durante o dia (Hul et al., 2024)

Nutrição de nova geração: integrando o microbioma nas recomendações alimentares

O microbioma — o conjunto de micro‑organismos que habitam o intestino — funciona como um mediador importante da forma como a alimentação afeta o organismo: metabolismo, imunidade, integridade intestinal, entre outros.

A dieta fornece substratos (por exemplo fibras alimentares, polifenóis, outros micronutrientes) que são metabolizados pelo microbioma, produzindo metabólitos (como ácidos gordos de cadeia curta) que têm efeitos fisiológicos no hospedeiro.

O microbioma, por sua vez, modula digestão, absorção, imunidade, homeostase metabólica e barreira intestinal — o que significa que a “qualidade” da microbiota pode influenciar como o indivíduo responde à alimentação. Assim, as recomendações dietéticas devem levar em consideração a ciência do microbioma.

O que comemos, como comemos, com quem comemos, tudo importa. Além de vegetais ricos em fibras e polifenóis, devemos levar em conta o contexto individual (histórico alimentar, genética, estilo de vida) e o microbioma próprio que tornam cada pessoa um “ecosistema” distinto.

O microbioma e a dieta não são respostas mágicas a tudo, mas sem eles funcionando bem, a saúde é sim afetada. Lembrar que existem outros fatores (genética, ambiente, estilo de vida) que devem ser levados em consideração.

Modulação intestinal (curso online): https://bit.ly/disbiose-at

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/