Interações microbianas com a curcumina

A cúrcuma, particularmente seu composto ativo curcumina, é geralmente reconhecida por suas propriedades anti-inflamatórias. No entanto, há circunstâncias em que a cúrcuma pode afetar negativamente o microbioma intestinal:

- Variabilidade individual: a resposta à cúrcuma pode ser altamente personalizada. Um estudo descobriu que, embora a suplementação de curcumina tenha levado a um aumento significativo na diversidade da microbiota intestinal em alguns indivíduos, outros não mostraram a mesma resposta positiva, indicando que algumas pessoas podem experimentar efeitos adversos em seu microbioma [1].

Certos táxons bacterianos podem responder negativamente à cúrcuma. O estudo indicou que enquanto algumas espécies aumentaram em abundância com o tratamento com curcumina, outras, como Blautia spp. e Ruminococcus spp., mostraram abundância relativa reduzida, o que pode indicar uma mudança em direção a uma composição desfavorável do microbioma para alguns indivíduos [1].

- Disbiose: a interação da curcumina com a microbiota intestinal pode nem sempre levar a resultados benéficos. A disbiose, um desequilíbrio no microbioma intestinal, está associada a várias doenças metabólicas. Se a cúrcuma agravar a disbiose existente, ela pode contribuir para a inflamação intestinal em vez de aliviá-la [2].

- Baixa biodisponibilidade: a curcumina tem baixa biodisponibilidade sistêmica, o que significa que, embora possa exercer efeitos benéficos localmente no intestino, também pode levar à produção de metabólitos que podem não ser favoráveis ​​para todos os indivíduos. A transformação da curcumina pela microbiota intestinal pode produzir diferentes metabólitos, alguns dos quais podem impactar negativamente a saúde intestinal [3].

A curcumina é metabolizada pela microbiota intestinal, levando a vários metabólitos. Alguns metabólitos, como etossuximida e xantosina, foram encontrados elevados em camundongos modelo de câncer colorretal (CCR), o que pode sugerir um potencial impacto negativo na saúde intestinal [4].

- Interação com a microbiota intestinal: a curcumina e seus metabólitos podem interagir com a microbiota intestinal, potencialmente levando a efeitos benéficos e adversos. Os metabólitos produzidos pelas bactérias intestinais podem, às vezes, ser mais ativos do que a própria curcumina, o que complica a compreensão de seu impacto geral [5].

Referências:

1) CT Peterson et al. Effects of Turmeric and Curcumin Dietary Supplementation on Human Gut Microbiota: A Double-Blind, Randomized, Placebo-Controlled Pilot Study. Journal of evidence-based integrative medicine (2018). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30088420/

2) S Servida et al. Curcumin and Gut Microbiota: A Narrative Overview with Focus on Glycemic Control. International journal of molecular sciences (2024). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39062953/

3) W Zam et al. Gut Microbiota as a Prospective Therapeutic Target for Curcumin: A Review of Mutual Influence. Journal of nutrition and metabolism (2019). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30647970/

4) W Deng et al. Curcumin suppresses colorectal tumorigenesis through restoreing the gut microbiota and metabolites. BMC cancer (2024). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39267014/

5) R Pluta et al. Mutual Two-Way Interactions of Curcumin and Gut Microbiota. International journal of molecular sciences (2020). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32033441/

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Jejum e perda de gordura abdominal

A relação entre depósitos de gordura abdominal e função cognitiva, especialmente no contexto do risco de Alzheimer, é uma área de grande interesse na pesquisa. Estudos sugerem que o excesso de gordura abdominal, particularmente a gordura visceral (gordura armazenada ao redor dos órgãos), pode estar associado a diversos desfechos de saúde negativos, incluindo o declínio cognitivo e um risco aumentado de doença de Alzheimer.

Gordura Abdominal e Função Cognitiva

Gordura abdominal refere-se à gordura visceral, que é armazenada profundamente no abdômen e ao redor de órgãos vitais como fígado, pâncreas e intestinos. Ela é distinta da gordura subcutânea, que fica logo abaixo da pele.

Pesquisas indicam que indivíduos com níveis mais altos de gordura abdominal, particularmente na meia-idade, tendem a apresentar um desempenho cognitivo mais baixo. Isso pode estar relacionado à inflamação, resistência à insulina e outras disfunções metabólicas associadas ao excesso de gordura abdominal.

O declínio cognitivo pode começar na meia-idade, e a obesidade abdominal nesta fase é considerada um possível fator de risco para Alzheimer e outras formas de demência na vida adulta. Homens de meia-idade com obesidade abdominal podem ter maior probabilidade de apresentar declínio cognitivo (Shekhtman et al., 2024).

Mecanismos que Ligam a Gordura Abdominal ao Declínio Cognitivo

  • Inflamação: A gordura visceral é metabolicamente ativa e libera citocinas inflamatórias que podem influenciar a função cerebral. A inflamação crônica de baixo grau é considerada um fator importante em doenças neurodegenerativas como o Alzheimer.

  • Resistência à insulina: A obesidade e o acúmulo de gordura abdominal estão ligados à resistência à insulina, que pode levar ao diabetes tipo 2. A resistência à insulina pode afetar negativamente a função cerebral e está associada a um maior risco de doença de Alzheimer.

  • Redução dos volumes cerebrais: Estudos demonstraram que indivíduos com maiores níveis de gordura abdominal tendem a apresentar volumes cerebrais menores, especialmente em áreas críticas para a memória e cognição, como o hipocampo.

Prevenção e Intervenção

  • Controle de peso: Reduzir a gordura abdominal por meio de mudanças na alimentação, atividade física e modificações no estilo de vida pode ajudar a mitigar o risco de declínio cognitivo.

  • Atividade física: O exercício, particularmente o aeróbico, tem mostrado reduzir a gordura abdominal e melhorar a saúde cerebral. A atividade física regular pode ajudar a proteger contra o declínio cognitivo, promovendo uma melhor circulação sanguínea e reduzindo a inflamação.

  • Dieta: Dietas ricas em frutas, vegetais, grãos integrais e gorduras saudáveis, com baixo teor de alimentos processados e açúcares, podem ajudar a controlar a obesidade abdominal e apoiar a saúde cerebral.

  • Jejum: envolve limitar a alimentação a uma janela específica de tempo, geralmente entre 8 a 12 horas por dias, com períodos de jejum fora dessa janela. Essa abordagem visa aproveitar o ritmo circadiano natural do corpo e melhorar a saúde metabólica. O jejum associado a dietas com baixo teor de carboidrato pode ajudar a reduzir a gordura visceral devido a melhoria da sensibilidade insulínica e promoção da queima de gordura (He et al., 2022).

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Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Desnutrição e Alzheimer

Estudo investigou a prevalência do declínio cognitivo em centenários e idosos da China, com foco especial na relação entre nutrição e esse declínio. Realizado dentro do Estudo de Coorte de Centenários de Hainan, envolveu 946 participantes e utilizou o Mini Exame do Estado Mental (MEEM) para avaliar a função cognitiva (Feng et al., 2022).

Resultados Principais:

  1. Prevalência do Declínio Cognitivo: O estudo encontrou uma maior prevalência de declínio cognitivo entre os centenários em comparação aos idosos mais jovens. Isso sugere que a função cognitiva tende a diminuir mais acentuadamente na população de centenários.

  2. Relação com a Nutrição: A desnutrição foi identificada como um fator importante associado ao declínio cognitivo. Índices nutricionais, como o Índice Nutricional Prognóstico (PNI) e a Avaliação Nutricional Mini – Forma Curta (MNA-SF), apresentaram valores significativamente menores nos participantes com declínio cognitivo.

  3. Associação entre Nutrição e Função Cognitiva: Análises mais detalhadas revelaram que pontuações mais altas no PNI e MNA-SF estavam associadas a uma menor probabilidade de declínio cognitivo. Indivíduos com melhores indicadores nutricionais também apresentaram melhores resultados no MEEM.

Conclusão:

O estudo enfatiza a importância do tratamento da desnutrição para prevenir ou retardar o declínio cognitivo em centenários e idosos. Investir em estratégias para melhorar a nutrição dessas populações pode ser uma medida crucial na promoção da saúde cognitiva a longo prazo.

Esses achados destacam a relevância de abordagens nutricionais preventivas no cuidado de idosos, principalmente em grupos etários mais avançados, como os centenários.

Cuidados nutricionais na demência

Organizações que prestam cuidado a pessoas com demência devem estabelecer procedimentos para atender às suas necessidades de nutrição e hidratação, orientando a prática de forma eficaz. É crucial identificar e gerenciar possíveis causas de desnutrição e desidratação em pessoas com demência (Volkert et al., 2024).

Devido ao alto risco de desnutrição e desidratação, orientação alimentar deve ser oferecida a pessoas com demência e seus familiares. Esse aconselhamento deve ser preventivo e conduzido por um especialista em nutrição para garantir qualidade.

Os cuidados nutricionais exigem consciência, conhecimento e habilidades para oferecer alimentos e líquidos adequados, reconhecer problemas nutricionais e manejar os desafios relacionados à alimentação e hidratação enfrentados por pessoas com demência. Isso inclui iniciar intervenções para prevenir e tratar desnutrição e desidratação.

Triagens de rotina para desnutrição e desidratação, juntamente com avaliação nutricional e monitoramento próximo, são essenciais. A nutrição oral deve ser apoiada abordando causas potenciais de desnutrição e desidratação, além de oferecer suporte social e de enfermagem adequados.

Suplementos nutricionais orais são recomendados para melhorar o estado nutricional. Nutrição e hidratação enteral e parenteral são consideradas opções temporárias para pacientes com demência leve ou moderada, mas não para aqueles com demência grave ou em fase terminal da vida.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/