Papel dos Polifenóis no Desempenho Esportivo

Os polifenóis são compostos bioativos encontrados em alimentos de origem vegetal, como frutas, vegetais e bebidas como chá e café. Cada vez mais, estudos sugerem que os polifenóis desempenham um papel importante no desempenho esportivo, com efeitos benéficos na saúde e na capacidade atlética. Este artigo explora como esses compostos atuam no corpo humano, abordando o impacto dos polifenóis no desempenho físico através da interação com a genômica nutricional, a microbiota intestinal e a epigenômica fitonutricional.

Polifenóis e Desempenho Esportivo

Os polifenóis têm sido reconhecidos por suas propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e anticâncerígenas. Quando se trata de desempenho atlético, esses compostos ajudam a reduzir o estresse oxidativo e a inflamação, fatores que podem prejudicar a recuperação muscular e aumentar a fadiga. Além disso, os polifenóis têm sido associados ao aumento da capacidade aeróbica, melhora da resistência muscular e diminuição da dor muscular pós-exercício, ajudando os atletas a se recuperarem mais rapidamente e a manterem uma melhor performance.

Genômica Nutricional e Microbiota Intestinal

A interação entre a genômica nutricional e os polifenóis é central para entender como esses compostos influenciam o desempenho esportivo. A genética individual pode afetar como o corpo metaboliza e utiliza os polifenóis, com algumas pessoas respondendo melhor a certos tipos de alimentos ricos nesses compostos.

Além disso, os polifenóis têm um impacto significativo na microbiota intestinal, promovendo o crescimento de bactérias benéficas. Uma microbiota intestinal saudável está relacionada à melhora na digestão, sintese de ácidos graxos de cadeia curta e ao equilíbrio da resposta inflamatória, fatores que, por sua vez, beneficiam o desempenho físico e a recuperação.

Influência da genética na modulação epigenética e microbioma (Sorrenti et al., 2020)

Epigenômica Fitonutricional

A epigenômica fitonutricional se refere a como os polifenóis influenciam a expressão dos genes sem alterar o código genético. Esses compostos podem regular a expressão de genes relacionados à inflamação, recuperação muscular e resistência ao estresse oxidativo. Ao agir em mecanismos epigenéticos, como a modulação da metilação do DNA, os polifenóis podem potencialmente melhorar a resposta do corpo ao exercício e otimizar o desempenho atlético.

Fatores de transcrição modulados por polifenóis (Sorrenti et al., 2020)

Curcumina: Um Exemplo de Polifenol no Desempenho Esportivo

Um dos polifenóis mais estudados no contexto esportivo é a curcumina, um composto encontrado na cúrcuma (Curcuma longa). A curcumina possui propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e anticancerígenas, e pode modular várias vias moleculares envolvidas na sobrevivência celular e na inflamação.

Na prática esportiva, a curcumina tem sido usada para ajudar na recuperação muscular, reduzir a fadiga e melhorar o desempenho em atividades intensas. Estudos demonstram que a suplementação com curcumina pode atenuar a dor muscular, reduzir a inflamação e melhorar a recuperação após exercícios extenuantes.

A curcumina também pode melhorar a biogênese mitocondrial, um processo fundamental para a saúde muscular e a resistência. Pesquisas indicam que a curcumina pode ajudar a proteger contra a perda de massa muscular e a inflamação associada ao exercício, especialmente em atletas que sofrem de estresse oxidativo devido a treinos intensos.

Resveratrol e o Desempenho Físico

Estudos demonstraram que o resveratrol pode melhorar a força muscular, a tolerância à fadiga e a regeneração muscular após períodos de inatividade. Em experimentos com camundongos envelhecidos, observou-se que o resveratrol melhora a funcionalidade mitocondrial e mantém o desempenho muscular durante o envelhecimento. Além disso, pesquisas com exercícios de baixa intensidade revelaram que a combinação de resveratrol com piperina pode aumentar a capacidade mitocondrial nos músculos esqueléticos.

Outro aspecto importante do resveratrol é sua contribuição para a composição corporal. Ele tem mostrado propriedades ergogênicas, hipoglicemiantes e anti-obesidade, sendo útil no controle de peso e na redução da gordura corporal. O resveratrol pode estimular proteínas envolvidas na oxidação de ácidos graxos e no metabolismo de glicose, além de melhorar a biogênese mitocondrial e o metabolismo muscular em indivíduos obesos.

Quercetina: Benefícios para o Desempenho Esportivo e Saúde

A quercetina é um polifenol natural presente em frutas, vegetais, chá e frutas vermelhas, pertencente à família dos flavonoides. É conhecida por suas propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e cardioprotetoras, além de sua ação na modulação do metabolismo da glicose e redução do risco de doenças crônicas. A biodisponibilidade da quercetina é influenciada pela forma como é absorvida no intestino e pela interação com a microbiota intestinal.

Após a ingestão, a quercetina pode ser absorvida na forma glicolisada ou aglicona, sendo convertida em metabólitos no fígado. A quercetina glicolisada, como o rutin, tem baixa absorção no intestino, sendo então decomposta pela microbiota intestinal, o que libera a forma ativa da substância.

Estudos demonstram que a quercetina pode melhorar o desempenho físico, tanto em exercícios aeróbicos como anaeróbicos. Ela atua modulando a inflamação, reduzindo a produção de substâncias inflamatórias como TNF-α e interleucinas, além de estimular a resposta imunológica e melhorar a biogênese mitocondrial em músculos e cérebro.

A quercetina também tem sido estudada em atletas para melhorar o desempenho em exercícios de resistência e força. Uma análise de estudos mostrou que a suplementação com quercetina pode aumentar o desempenho atlético em cerca de 2,8%. Em um estudo com atletas, a quercetina aumentou parâmetros como taxa metabólica basal, massa magra e gasto energético.

Além disso, a quercetina demonstrou efeitos benéficos na recuperação muscular após exercícios intensos. Em um estudo com corredores de longa distância, a suplementação reduziu os níveis de peroxidação, embora sem alterações significativas no desempenho. Em outros estudos, a quercetina ajudou a melhorar a força neuromuscular e a reduzir danos musculares após exercícios de resistência.

Com base nos resultados, a quercetina mostra-se uma suplementação eficaz para atletas, com benefícios na recuperação pós-exercício e na melhoria do desempenho físico. A dose diária recomendada varia entre 50 e 2000 mg, dependendo da formulação e biodisponibilidade.

Flavonóis de Cacau: Benefícios para a Saúde e Desempenho Esportivo

Nos últimos anos, os flavonóis, uma classe de polifenóis encontrados em alimentos como cacau, chá, frutas e vegetais, têm atraído a atenção pela sua capacidade de melhorar a saúde e o desempenho físico. O cacau, originário da América Central e do Sul, é uma rica fonte de flavonóis, como catequinas e epicatequinas, que demonstraram propriedades benéficas para o organismo, incluindo efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios.

Os flavonóis do cacau ajudam a regular o estresse oxidativo e a inflamação, estimulando a produção de óxido nítrico, o que melhora a função endotelial, promove a vasodilatação e pode reduzir a pressão arterial. Além disso, também têm mostrado melhorar a sensibilidade à insulina e os perfis lipídicos, com benefícios tanto para indivíduos com riscos cardiovasculares quanto para os saudáveis. No cérebro, os flavonóis do cacau atravessam a barreira hematoencefálica, melhorando o fluxo sanguíneo cerebral e promovendo funções cognitivas.

Outro aspecto interessante dos flavonóis do cacau é a sua interação com a microbiota intestinal. Estudos indicam que as bactérias intestinais, como Escherichia coli, Bifidobacterium e Lactobacillus, desempenham um papel fundamental na metabolização desses compostos. Esse processo gera pequenos metabólitos bioativos, que podem influenciar diversos caminhos bioquímicos no corpo humano.

Em relação ao desempenho esportivo, os resultados dos estudos sobre flavonóis de cacau são mistos. Alguns demonstram benefícios na função vascular, redução do estresse oxidativo induzido pelo exercício e alteração na utilização de gorduras e carboidratos durante a atividade física. No entanto, os efeitos sobre o desempenho atlético em si não são sempre consistentes. A variação nos resultados pode ser atribuída a diferenças genéticas e à diversidade da microbiota intestinal de cada indivíduo, que afeta a metabolização dos flavonóis.

Porém, a maior parte das evidências sugere que os flavonóis de cacau têm um papel positivo na recuperação pós-exercício e na melhoria da função endotelial, especialmente em situações de hipoxia (baixa concentração de oxigênio). Um estudo mostrou que a suplementação com flavonóis de cacau ajudou a melhorar a oxigenação pré-frontal e a reduzir o estresse oxidativo durante o treinamento intensivo em hipoxia.

Em termos de dosagem, os flavonóis de cacau são comumente consumidos em quantidades entre 5 a 1000 mg por dia, com uma média de 200-500 mg em diferentes produtos, como cacau em pó, chocolate amargo enriquecido e barras de cacau. Esses produtos são frequentemente consumidos antes da atividade física para melhorar o desempenho e acelerar a recuperação.

Por fim, os flavonóis de cacau também apresentam benefícios potenciais como prebióticos, ajudando a promover o crescimento de bactérias benéficas no intestino, o que pode ter impactos positivos tanto na saúde geral quanto no desempenho esportivo.

Extratos Vegetais e Suplementos para Melhorar a Recuperação Pós-Exercício

Diversos estudos têm mostrado que extratos vegetais ricos em polifenóis, como os de chá verde, mirtilo, casca de pinheiro marítimo francês e cereja Montmorency, podem ser eficazes na recuperação pós-exercício, devido às suas propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e reguladoras do metabolismo lipídico.

Chá Verde
Os extratos de chá verde, ricos em catequinas, têm se mostrado promissores na redução do estresse oxidativo e danos musculares induzidos pelo exercício. Suplementos de 250 a 1000 mg/dia de extrato de chá verde podem diminuir os danos musculares e melhorar parâmetros neuromusculares, como a fadiga muscular. Um estudo com atletas de sprint mostrou que o chá verde impediu o estresse oxidativo, mas não melhorou o desempenho nos sprints. No entanto, a suplementação com chá verde foi eficaz em reduzir o dano muscular e o estresse oxidativo em resposta à fadiga acumulada, mostrando benefícios na recuperação.

Mirtilo
Os extratos de mirtilo, ricos em antocianinas, também apresentam efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios que auxiliam na recuperação após o exercício. Um estudo revelou que o consumo diário de mirtilos (75-150g) melhorou a função endotelial e a rigidez arterial, sugerindo que esses frutos podem ser úteis na redução do risco cardiovascular. Além disso, um estudo mostrou que o consumo de smoothies de mirtilo antes e após o exercício melhorou a recuperação da força muscular. Isso ocorre provavelmente devido a mecanismos indiretos relacionados à interação com a microbiota intestinal, que pode beneficiar a saúde metabólica e reduzir a inflamação associada à síndrome metabólica.

Casca de Pinheiro Marítimo Francês (Pycnogenol®)
O extrato de casca de pinheiro marítimo francês, rico em proantocianidinas oligoméricas (OPC), tem mostrado resultados promissores na melhoria do desempenho físico e proteção contra o estresse oxidativo pós-exercício. A suplementação com Pycnogenol® pode ser útil tanto para atletas quanto para indivíduos saudáveis, promovendo a recuperação após atividades físicas intensas.

Cereja Montmorency
O concentrado de cereja Montmorency, rico em antocianidinas, também tem se destacado devido às suas propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes. Estudos mostraram que o consumo de suco de cereja Montmorency pode reduzir a inflamação pós-exercício e acelerar a recuperação da força muscular. Além disso, o suco de cereja pode melhorar o desempenho em exercícios de alta intensidade, como foi demonstrado em ciclistas que experimentaram um aumento no pico de potência após a ingestão de suco de cereja antes de sprints.

Polifenóis de Ecklonia Cava
A alga marinha Ecklonia cava, rica em polifenóis, tem se mostrado eficaz em melhorar a capacidade de resistência e os parâmetros fisiológicos durante o exercício. A suplementação com polifenóis de Ecklonia cava aumentou o tempo de exaustão e melhorou a capacidade máxima de VO2, além de reduzir ligeiramente os níveis de lactato pós-exercício, sugerindo que esses polifenóis podem contribuir para um melhor metabolismo da glicose e menor produção de lactato durante o exercício intenso.

Esses estudos indicam que a suplementação com extratos vegetais ricos em polifenóis pode ser uma estratégia eficaz para melhorar a recuperação após o exercício, reduzir a inflamação e o estresse oxidativo, e até mesmo aprimorar o desempenho atlético.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Modulação intestinal na apneia obstrutiva do sono

A apneia obstrutiva do sono (AOS) é caracterizada por interrupções respiratórias durante o sono devido ao colapso do trato respiratório superior. Essas interrupções resultam em distúrbios do sono e podem causar hipóxia transitória (redução nos níveis de oxigênio no sangue) e hipercapnia (aumento do dióxido de carbono no sangue). A AOS é particularmente prevalente entre pessoas obesas e idosas e está associada a várias doenças cardiometabólicas, como diabetes tipo 2 e hipertensão. No entanto, os mecanismos que ligam a AOS às suas comorbidades ainda não estão completamente esclarecidos.

A variedade de doenças e processos de doenças nos quais a microbiota está envolvida, incluindo transtornos psiquiátricos e neurodegenerativos, dor, ansiedade, estresse, síndrome do intestino irritável (SII), derrame, compulsão e obesidade (Cryan et al., 2019)

A Microbiota Intestinal e a AOS

Pesquisas recentes têm explorado a possibilidade de que mudanças na microbiota intestinal possam estar conectadas à AOS e aos distúrbios metabólicos relacionados. A relação entre a AOS e a microbiota intestinal tem sido investigada por meio de dois métodos principais: fragmentação do sono e indução de hipóxia e hipercapnia – ambos características típicas da AOS.

Evidências em Modelos de Roedores

Estudos com roedores mostraram que a fragmentação do sono pode causar alterações na composição da microbiota intestinal. Por exemplo, camundongos submetidos a 4 semanas de fragmentação do sono apresentaram um aumento na proporção de Firmicutes: Bacteroidetes, um padrão também observado em condições como envelhecimento e obesidade. Além disso, foi observado um aumento da abundância de Lachnospiraceae e diminuição de Lactobacillaceae, além de ruptura da barreira intestinal, levando a um aumento na inflamação periférica.

Estudos Clínicos e Efeitos em Humanos

Em humanos, um estudo com adultos jovens saudáveis observou que duas noites de privação parcial de sono aumentaram a proporção de Firmicutes: Bacteroidetes, semelhante ao que foi visto nos modelos de roedores. Além disso, pacientes geriátricos e pediátricos com AOS apresentam níveis elevados de marcadores de ruptura da barreira intestinal, como a proteína de ligação a LPS.

Pesquisas também revelaram que hipóxia e hipercapnia, características da AOS, podem resultar em alterações na microbiota intestinal, afetando moléculas intestinais importantes, como ácidos biliares, fitoestrogênios e gorduras ácidos, cuja síntese depende diretamente da microbiota.

Embora a conexão entre a AOS e a microbiota intestinal seja forte no modelo de fragmentação do sono, parece que o estado hipóxico desempenha um papel crucial nos efeitos da AOS na microbiota. Mais pesquisas são necessárias para explorar como essas alterações podem contribuir para a disfunção metabólica associada à AOS e como a manipulação da microbiota intestinal poderia ser uma estratégia terapêutica para mitigar esses efeitos.

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Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Eixo neuro-endócrino-imune no autismo

O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) é um transtorno complexo do neurodesenvolvimento, caracterizado por dificuldades nas interações sociais e na comunicação, além de comportamentos, interesses ou atividades restritos e estereotipados. Embora a causa exata do TEA ainda não seja totalmente compreendida, pesquisas sugerem que uma combinação de fatores genéticos e ambientais contribui para o desenvolvimento do transtorno.

Sintomas Associados ao TEA

Além dos sintomas principais, como dificuldades na comunicação e no comportamento social, indivíduos com TEA frequentemente apresentam sintomas gastrointestinais. Entre os sintomas mais comuns estão a constipação, dor abdominal, vômitos, diarreia e gases. Estima-se que esses sintomas variem entre 9% a 70% dos casos de TEA, o que chama a atenção para uma possível conexão entre os distúrbios gastrointestinais e o transtorno.

O Microbioma Intestinal e Sua Influência no Neurodesenvolvimento

O microbioma intestinal é um conjunto de microrganismos que habitam nosso sistema digestivo e desempenham um papel fundamental na fisiologia humana. Estudos recentes têm se aprofundado na possível relação entre o microbioma intestinal e os sintomas do TEA, especialmente devido à alta prevalência de problemas gastrointestinais observados em muitos indivíduos com o transtorno.

A hipótese de que a composição do microbioma intestinal pode afetar o neurodesenvolvimento está ganhando cada vez mais atenção científica. Pesquisas indicam que alterações no microbioma intestinal podem influenciar a função cerebral e o comportamento, o que poderia ser uma explicação para os sintomas observados no TEA. Além disso, a interação entre o microbioma e o sistema imunológico também pode desempenhar um papel importante na modulação de aspectos comportamentais e fisiológicos do transtorno.

O eixo neuro-endócrino-imune e a comunicação microbiota-intestino-cérebro (Agirman, & Hsiao, 2021).

A Influência do Nascimento e da Alimentação na Microbiota e Desenvolvimento Infantil

O modo de nascimento e a alimentação nos primeiros anos de vida desempenham papel crucial na formação da microbiota intestinal. Bebês nascidos de parto normal e alimentados com leite materno tendem a apresentar mais Bifidobactérias do que aqueles nascidos por cesariana e alimentados com fórmula. Durante a introdução alimentar complementar, a diversidade da dieta é fundamental para moldar diferentes grupos microbianos que permanecerão na vida adulta. Por outro lado, uma dieta pobre em fibras pode causar disbiose — um desequilíbrio na microbiota intestinal.

Eixo Microbiota-Intestino-Cérebro e Neurodesenvolvimento

A microbiota intestinal influencia a produção de neurotransmissores essenciais para o neurodesenvolvimento, evidenciando sua comunicação pelo eixo intestino-cérebro. Essa interação é particularmente importante nos primeiros três anos de vida, período de rápido desenvolvimento do sistema nervoso central (SNC) e de mudanças significativas na microbiota devido à transição alimentar.

Estudos mostram que o eixo intestino-microbioma-cérebro é relevante para a saúde mental e cognitiva, inclusive em crianças com transtorno do espectro autista (TEA). Segundo Yap e colaboradores (2021), a disbiose intestinal é consequência, e não causa, dos sintomas centrais do TEA.

Microbiota Intestinal e TEA

A relação entre microbiota intestinal e TEA tem sido amplamente estudada devido à alta prevalência de sintomas gastrointestinais (9% a 91%) nesses pacientes. Alguns fatores, como gravidade do TEA, forma de nascimento e idade materna, impactam a diversidade microbiana. Crianças com TEA apresentam menor abundância de Bacteroides e Faecalibacterium e maior presença de Clostridial e outras bactérias, como Erysipelotrichaceae, associadas a casos mais graves.

A disbiose pode levar ao aumento da permeabilidade intestinal, permitindo que lipopolissacarídeos (LPS) bacterianos entrem na circulação. Esses compostos provocam respostas inflamatórias, aumentando citocinas pró-inflamatórias — um padrão observado em crianças com TEA, especialmente aquelas com regressão mental.

Impacto da Microbiota na Saúde do Hospedeiro

Em condições normais, a microbiota intestinal promove funções essenciais como:

  • Proteção contra patógenos;

  • Absorção de nutrientes;

  • Produção de ácidos graxos de cadeia curta;

  • Síntese de vitaminas e aminoácidos.

Por outro lado, na disbiose, há baixa absorção no intestino delgado, permitindo o acúmulo de açúcares simples no intestino grosso, o que favorece o crescimento de bactérias fermentadoras. Esse desequilíbrio pode causar desconfortos como gases e inchaço, além de prejudicar a barreira intestinal, alterando a diversidade microbiana e reduzindo bactérias benéficas como Lactobacillus.

Microbiota, GABA e Neuroinflamação no TEA

O aumento do LPS e a redução de neurotransmissores como o GABA podem agravar os processos neuroinflamatórios no TEA. GABA e glutamato são essenciais para o equilíbrio neuronal, e sua disfunção pode afetar o neurodesenvolvimento. Estudos sugerem que o GABA pode aliviar inflamações causadas por LPS, indicando sua relevância para entender os processos neuroinflamatórios associados ao TEA.

Microbiota Intestinal e o Sistema Imunológico: Papel Essencial no Desenvolvimento e Saúde

A microbiota intestinal desempenha um papel fundamental no desenvolvimento e modulação do sistema imunológico, influenciando desde a maturação imunológica até a proteção contra inflamações crônicas. A relação é complexa:

1. Desenvolvimento Imunológico nos Primeiros Anos de Vida

  • Microbiota como Educadora Imunológica:
    A microbiota intestinal é uma fonte de antígenos que "educam" os sistemas imunológicos inato e adaptativo por meio de compostos como peptidoglicanos e lipopolissacarídeos (LPS). Uma microbiota equilibrada, formada nos primeiros anos de vida, é crucial para essa educação.

  • Importância das Bifidobactérias:
    Transmitidas de mãe para filho durante o parto e amamentação, as Bifidobactérias são as primeiras colonizadoras do intestino neonatal. Elas modulam o sistema imunológico, produzem metabólitos benéficos e auxiliam na maturação intestinal.

  • Impacto do Leite Materno:
    O leite humano contém oligossacarídeos que nutrem as bifidobactérias, reforçando a coevolução entre o hospedeiro humano e sua microbiota.

  • Fatores de Risco para Disbiose:
    Parto cesariano, uso precoce de antibióticos e ausência de amamentação podem comprometer o equilíbrio microbiano, impactando a formação do sistema imunológico.

2. Microbiota e Inflamação

  • Barreira Epitelial Intestinal:
    A barreira epitelial intestinal é a primeira linha de defesa contra micróbios. Fatores como o fator de crescimento epidérmico, presente no leite materno, promovem sua integridade. Quando essa barreira é comprometida, ocorre translocação microbiana, levando à ativação exagerada do sistema imunológico e ao aumento de inflamações.

  • Interleucina-17 (IL-17):
    Disbiose está associada à hiperprodução de IL-17, uma citocina que, quando desregulada, pode causar inflamações crônicas e autoimunes no intestino, especialmente em hospedeiros geneticamente suscetíveis.

  • Fatores Genéticos:
    Variantes genéticas, como no gene APOA5, afetam a composição microbiana e estão relacionadas a doenças metabólicas e inflamações.

3. Microbiota, Sistema Nervoso Central e Neurodesenvolvimento

  • Papel da Microglia:
    A microbiota influencia a maturação da microglia, as células imunológicas do cérebro. A disfunção da microglia pode impactar a neurogênese, sinapses e regulação inflamatória, afetando o neurodesenvolvimento.

  • Distúrbios Relacionados:
    Fatores como infecções maternas durante a gestação podem alterar a microbiota e o sistema imunológico da prole, resultando em maior risco de transtornos como autismo e condições neuroinflamatórias.

4. O Eixo Microbiota-Intestino-Cérebro

  • Conexão Bidirecional:
    O eixo microbiota-intestino-cérebro conecta o cérebro, sistema nervoso entérico (intestinal) e microbiota. Alterações nesse eixo afetam desde a motilidade intestinal até a imunidade cerebral.

  • Metabólitos Bacterianos:
    Compostos como os ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) e o p-cresol têm impacto direto na saúde intestinal e cerebral. No autismo, alterações nos níveis de p-cresol estão relacionadas a inflamações e comportamentos específicos.

  • Impacto na Inflamação:
    O excesso de LPS, um metabólito bacteriano, aumenta a permeabilidade intestinal e desencadeia respostas inflamatórias sistêmicas que atravessam a barreira hematoencefálica, impactando o sistema nervoso central (SNC).

5. Terapias Promissoras

  • Probióticos e Metabólitos:
    Terapias baseadas em probióticos, especialmente Bifidobacterium, ajudam a restaurar a microbiota saudável, promovendo o equilíbrio imunológico e metabólico.

  • Estudos Recentes:
    Combinações terapêuticas, como vancomicina e probióticos, mostraram melhorar sintomas de TEA e normalizar metabólitos relacionados à neuroinflamação.

  • Prebióticos: Estudos mostram que a suplementação com fibras prebióticas pode melhorar sintomas gastrointestinais e comportamentais em pacientes com TEA.

  • Transplante Fecal: Essa técnica reduziu sintomas gastrointestinais e comportamentais em crianças com TEA, demonstrando uma ligação direta entre a microbiota e os sintomas.

  • Dietas Personalizadas: Ajustes alimentares podem melhorar a composição microbiana e amenizar manifestações gastrointestinais, embora o impacto direto nos sintomas centrais do TEA ainda seja limitado.

Embora a microbiota intestinal desempenhe um papel importante no eixo intestino-cérebro, sua influência no TEA é limitada por fatores genéticos e ambientais predominantes. Intervenções baseadas na restauração da microbiota mostram benefícios complementares, mas ainda são necessárias mais pesquisas para entender totalmente suas implicações no tratamento do TEA.

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