O Papel das Mitocôndrias no Transtorno do Espectro Autista (TEA)

As mitocôndrias, conhecidas como "usinas de energia" das células, desempenham um papel crucial no metabolismo energético, sinalização celular e regulação do estresse oxidativo. Estudos recentes sugerem que disfunções mitocondriais podem estar intimamente ligadas ao desenvolvimento do transtorno do espectro autista (TEA).

1. Disfunção Mitocondrial no TEA

Pessoas com TEA frequentemente apresentam anormalidades na função mitocondrial, como:

  • Produção reduzida de energia (ATP);

  • Excesso de espécies reativas de oxigênio (EROs), que podem causar danos celulares;

  • Alterações no metabolismo energético, afetando o desenvolvimento e a função cerebral.

2. Conexão com a Neuroinflamação e o Estresse Oxidativo

A inflamação crônica e o estresse oxidativo são características comuns no TEA. Mitocôndrias disfuncionais contribuem para:

  • O aumento de marcadores inflamatórios no cérebro;

  • A dificuldade de neutralizar os danos causados por radicais livres, o que pode prejudicar a sinalização neuronal.

3. Mecanismos Genéticos e Ambientais

A disfunção mitocondrial pode ser causada por:

  • Fatores genéticos, como mutações no DNA mitocondrial (DNAmt) ou genes nucleares relacionados à função mitocondrial;

  • Fatores ambientais, incluindo exposição a toxinas, medicamentos ou estresse durante a gestação.

4. Impactos no Desenvolvimento Cerebral

O cérebro é altamente dependente de energia. Alterações no metabolismo mitocondrial durante períodos críticos de desenvolvimento podem levar a:

  • Deficiências na plasticidade sináptica (processo essencial para o aprendizado e memória);

  • Alterações no comportamento, cognição e habilidades sociais.

5. Perspectivas Terapêuticas

Tratamentos baseados na melhora da função mitocondrial têm mostrado potencial, como:

  • Suplementos antioxidantes (coenzima Q10, vitamina E);

  • Intervenções metabólicas para otimizar o fornecimento energético;

  • Abordagens personalizadas baseadas em testes genéticos e metabólicos.

A pesquisa sobre o papel das mitocôndrias no TEA ainda está em expansão, mas reforça a importância de compreender o transtorno como uma condição multifatorial. Investir em estratégias que considerem tanto os fatores genéticos quanto ambientais pode abrir portas para novas terapias mais eficazes.

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Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Eye floaters (moscas volantes): como combater

Já notou algo nadando no seu campo de visão? Parecendo um pequeno verme ou uma bolha transparente que desaparece ao tentar focar? Não se preocupe, você não está sozinho. Esses fenômenos, conhecidos como floaters oculares, são muito comuns. Também chamados de Muscae Volitantes (do latim, "moscas voadoras"), eles podem ser irritantes, mas geralmente inofensivos. Neste artigo, vamos explorar causas, sintomas e tratamentos naturais, com destaque para as abordagens da Ayurveda.

O que são Floaters nos Olhos?

Os floaters não são objetos externos, mas pequenos fragmentos dentro do olho. Eles aparecem como sombras projetadas na retina – o tecido sensível à luz no fundo do olho. Esses fragmentos podem ser pedaços de tecido, glóbulos vermelhos ou aglomerados de proteína suspensos no humor vítreo, a substância gelatinosa dentro do olho. Eles são mais perceptíveis ao olhar para superfícies claras e uniformes, como o céu ou uma tela branca.

Principais Causas das moscas volantes

  1. Miopia

  2. Diabetes

  3. Infecções oculares profundas

  4. Inflamação ocular

  5. Descolamento de retina

  6. Lesões que causam sangramento ocular

  7. Envelhecimento e alterações relacionadas à idade

  8. Uso de medicamentos ou cirurgias oculares

Remédios Naturais para Floaters

1. Descanso e Limitação do Tempo de Tela

Evite esforço excessivo nos olhos, que pode causar inflamação da retina. Reduza o tempo de uso de celulares, computadores e TVs.

2. Hidratação com Água e Sucos

Na medicina Ayurvédica, problemas oculares estão associados ao desequilíbrio do dosha Pitta (fogo). Beba bastante água e consuma sucos de beterraba, cenoura, amla e babosa, ricos em antioxidantes e vitaminas que auxiliam na reparação dos tecidos oculares.

3. Massagem com Óleos Essenciais ou Ghee

  • Aplique uma gota de óleo de rícino orgânico nos olhos à noite e lave pela manhã.

  • Massageie a área acima das sobrancelhas com óleo de olíbano para reduzir a degeneração celular.

  • O tratamento Nethra Basti (imersão dos olhos em ghee) é altamente eficaz para limpeza ocular (faça isto com um terapeuta ayurvédico).

4. Dieta para Floaters

Adote uma alimentação que pacifique o Pitta, rica em vegetais verdes, alimentos com ômega-3 (peixes, nozes) e frutas cítricas. Evite comidas salgadas, apimentadas, café e álcool. Inclua especiarias como gengibre e alho, que ajudam na digestão.

5. Exercícios Oculares

  • Piscadas frequentes: Hidratam e acalmam os olhos.

  • Movimentos circulares: Gire os olhos para fortalecer os músculos.

  • Pranayama e meditação: Promovem relaxamento e saúde ocular.

6. Ervas Ayurvédicas

  • Triphala: Equilibra os doshas e melhora a visão.

  • Água de rosas: Aplicada como colírio, refresca os tecidos oculares.

  • Outras ervas benéficas incluem jatamansi, ginkgo biloba e extrato de semente de uva.

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Outras Abordagens Naturais

Medicina Chinesa

Na medicina tradicional chinesa, olhos saudáveis dependem do bom funcionamento do fígado e dos rins. Práticas como acupuntura, qigong e dieta equilibrada ajudam a restaurar a circulação e a nutrição ocular.

Compressas Quentes e Frias

Alternar compressas mornas e frias melhora a circulação e reduz a inflamação.

Suplementos Diários

  • Ômega-3: 3-9g por dia para reduzir inflamações.

  • Vitaminas A, C, E e luteína: Auxiliam na regeneração dos tecidos oculares.

Chlorella e Floaters nos Olhos: Benefícios e Como Usar

A chlorella, uma alga verde rica em nutrientes, tem ganhado destaque como um suplemento benéfico para a saúde ocular, incluindo no tratamento de floaters nos olhos. Floaters são causados por fragmentos dentro do humor vítreo, muitas vezes relacionados a inflamações ou degradação celular. A chlorella pode ajudar devido às suas propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e desintoxicantes.

Como a Chlorella Ajuda com Floaters nos Olhos?

  1. Rica em Clorofila
    A chlorella contém altos níveis de clorofila, que auxilia na desintoxicação do corpo e na remoção de resíduos celulares acumulados que podem contribuir para floaters.

  2. Propriedades Antioxidantes
    É uma fonte de beta-caroteno, luteína e zeaxantina, compostos conhecidos por proteger a retina e reparar danos nos tecidos oculares.

  3. Redução da Inflamação
    A chlorella contém ácidos graxos ômega-3 e compostos que ajudam a reduzir a inflamação ocular, melhorando a circulação no humor vítreo.

  4. Apoio à Regeneração Celular
    Rica em aminoácidos essenciais, ela promove a regeneração celular, beneficiando os tecidos dos olhos.

  5. Fortalecimento do Sistema Imunológico
    O consumo regular pode ajudar a prevenir infecções que podem piorar os floaters, como uveítes.

Como Consumir Chlorella para Floaters

  • Suplementos em pó ou cápsulas:
    Dose recomendada: 3g a 6g por dia (ou conforme orientação de um profissional de saúde).

  • Smoothies e sucos:
    Adicione chlorella a sucos de cenoura ou beterraba para potencializar os efeitos antioxidantes.

  • Água de chlorella:
    Misture 1 colher de chá de chlorella em um copo de água e consuma diariamente.

O que Evitar?

  • Uso prolongado de telas ou leitura em ambientes mal iluminados.

  • Exposição ao álcool, cigarro e café.

  • Situações de estresse, que prejudicam o equilíbrio energético do corpo.

Com essas práticas e mudanças no estilo de vida, é possível reduzir os floaters e promover a saúde ocular de forma eficaz e natural. Consulte sempre um especialista para avaliar sua condição e evitar complicações maiores. Cuide bem dos seus olhos!

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Miocinas e treino resistido

O treinamento de resistência é um estresse agudo controlado que, quando feito corretamente, pode gerar adaptações benéficas, como o aumento da força muscular. No entanto, é importante entender que o treinamento excessivo pode ter o efeito oposto, gerando fadiga excessiva e até prejudicando a saúde intestinal.

O Treinamento de Resistência e Seus Benefícios

O treinamento de resistência é amplamente reconhecido por ser eficaz no ganho e manutenção da massa muscular e da força. No entanto, por muito tempo, esse tipo de exercício ficou em segundo plano, sendo ofuscado pelos benefícios do exercício aeróbico, especialmente no que se refere à saúde cardiovascular. No entanto, uma nova compreensão sobre os efeitos do treinamento de resistência surgiu com a descoberta das miocinas.

O Papel das Miocinas

Miocinas são citocinas, pequenos peptídeos e proteoglicanos secretados pelas células musculares esqueléticas durante a contração muscular. Essas moléculas possuem efeitos parácrinos, autócrinos e endócrinos, o que significa que não apenas atuam localmente, mas também podem afetar outros órgãos e sistemas do corpo. O estudo das miocinas revelou como o músculo esquelético, ao ser estimulado de maneira adequada, pode melhorar a saúde metabólica, cardiovascular, mental e imunológica. Este novo entendimento destaca o papel vital da atividade muscular para o bem-estar geral.

A Importância do Treinamento de Resistência

O treinamento de resistência vai além do aumento de força e massa muscular. Ele também tem efeitos positivos nos processos metabólicos e pode ajudar no tratamento de doenças não transmissíveis, como diabetes, doenças cardiovasculares e até distúrbios mentais. Ao estimular o músculo esquelético, podemos melhorar não apenas a força, mas também o funcionamento de sistemas vitais do corpo, aproveitando o "crosstalk" entre o músculo e os outros órgãos.

Como as Células Musculares Reagem ao Treinamento de Resistência?

O treinamento de resistência regular resulta em adaptações tanto a nível neuronal quanto morfológico. Na fase inicial, as adaptações neurais geram um aumento na força máxima e na velocidade de contração muscular. Com o tempo e a continuidade do treinamento, as adaptações morfológicas começam a ocorrer, incluindo o aumento da massa muscular.

Mecanismos de Adaptação Muscular

Existem três mecanismos principais pelos quais o treinamento de resistência induz essas adaptações:

  1. Tensão mecânica: A carga imposta sobre os músculos durante o exercício ativa as vias de sinalização que promovem o crescimento muscular.

  2. Dano muscular: O exercício provoca pequenas lesões nas fibras musculares, que, ao se regenerarem, tornam-se maiores e mais fortes.

  3. Estresse metabólico: A exaustão muscular gerada pelo treinamento aumenta a produção de substâncias que estimulam a recuperação e o crescimento muscular.

Esses processos estimulam a hipertrofia das miofibrilas (estruturas responsáveis pela contração muscular), alterações nas fibras musculares e aumento da massa muscular sarcoplasmática (o fluido que envolve as miofibrilas), além de fortalecer o tecido conjuntivo.

A tensão mecânica gerada pela contração e alongamento do músculo esquelético é um dos principais gatilhos para a hipertrofia muscular. Esse estresse mecânico ativa uma série de cascatas moleculares, chamadas mecanotransdução, que promovem a síntese de proteínas.

O processo começa com o aumento dos níveis de ácido fosfatídico (PA) através de uma enzima chamada diacilglicerol quinase zeta. O PA ativa o mTOR, um regulador chave na síntese proteica. A sinalização é mediada por canais de cálcio dependentes de tensão e mecanossensores na membrana celular, como as integrinas, que respondem à quantidade e à duração do estresse mecânico no músculo.

Danos Musculares e Resposta Inflamatória

Durante o exercício de resistência, o músculo sofre microtraumas que, embora sejam benéficos para o crescimento muscular, também desencadeiam uma resposta inflamatória. A extensão desse dano depende da intensidade e duração do treino.

O microtrauma provoca a infiltração de granulócitos e macrófagos, células do sistema imune que liberam citocinas e fatores de crescimento. Esses sinais ativam as células satélites, células-tronco musculares que ficam localizadas entre a membrana basal e o sarcolema do músculo. Após ativadas, as células satélites se dividem e migram para o local do dano, dando origem a células precursoras miogênicas (MPCs), que podem se fundir e formar novas fibras musculares. Esse processo ajuda na regeneração do tecido muscular, tornando-o mais forte e funcional.

Estresse Metabólico e Regulação Energética

Durante o treinamento de resistência, o estresse metabólico é outro fator crucial para o crescimento muscular. Esse estresse envolve mudanças no metabolismo celular, incluindo o uso de ATP e cálcio para as contrações musculares. Quando o ATP disponível se esgota, a célula recorre a outras fontes de energia, como o fosfato de creatina e a glicólise anaeróbica, que geram ATP rapidamente, mas também produzem subprodutos como lactato e NADH/H+.

O acúmulo de lactato e a queda no pH celular são sinais que ativam o hormônio do crescimento (GH), a testosterona e miocinas anabólicas, como a IL-6. Essas mudanças ativam o mTOR, promovendo a síntese proteica e o crescimento muscular. Além disso, a diminuição nos níveis de energia ativa a AMP-quinase (AMPK), que regula a oxidação lipídica e estimula a biogênese mitocondrial, ajudando o corpo a otimizar o uso de energia.

Esses dois sistemas, mTOR e AMPK, estão em competição: quando a energia celular está baixa, a síntese proteica (mediada por mTOR) é interrompida, enquanto a AMPK busca preservar a energia, estimulando processos como a biogênese mitocondrial.

Tipos de Treinamento de Resistência e Seus Efeitos

Existem diferentes abordagens no treinamento de resistência, e duas das mais investigadas são o treinamento de hipertrofia e o treinamento de resistência de força. Ambos têm efeitos distintos, mas igualmente importantes para a saúde muscular e o bem-estar geral.

Treinamento de Hipertrofia

O treinamento de hipertrofia é focado no aumento da massa muscular. A evidência sugere que o volume total de treinamento é crucial para maximizar o crescimento muscular. Embora os protocolos possam variar, uma recomendação comum é realizar 6 a 12 repetições com 70-85% do máximo que uma pessoa consegue levantar (1RM), com intervalos de descanso entre 1 a 3 minutos.

Esse tipo de treinamento foca em aumentar a área da seção transversal das fibras musculares, especialmente as fibras rápidas do tipo IIA, promovendo também o armazenamento de fosfato de creatina e glicogênio, que são fontes importantes de energia. O treinamento de hipertrofia também melhora o metabolismo anaeróbico, ajudando a aumentar a resistência muscular.

Treinamento de Resistência de Força

O treinamento de resistência de força é mais voltado para o aumento da potência e da força muscular, utilizando cargas mais leves, geralmente de 50-70% de 1RM, e realizando mais repetições. Este tipo de treino é ideal para melhorar o tempo até a exaustão e a potência aeróbica máxima, sem focar no aumento da massa muscular.

Embora o treinamento de força não seja tão eficaz quanto o de hipertrofia para aumentar a área das fibras musculares, ele pode causar conversões das fibras Tipo IIB para Tipo IIA, melhorando a resistência e a força muscular, especialmente nos membros inferiores. Além disso, o treinamento de resistência de força pode melhorar a economia de movimento em atividades como corrida ou ciclismo, aumentando o limiar de lactato.

O Continuum Força-Resistência ilustra, de maneira exemplar, diferentes tipos de desportos associados ao treinamento de força. Embora o levantamento de peso seja o mais popular, existem diversas outras modalidades de treino que também promovem efeitos benéficos para a saúde. Nesse contexto, as miocinas desempenham um papel crucial, sendo substâncias secretadas pelas contrações musculares que ajudam a restaurar o equilíbrio metabólico e a promover a saúde geral.

As miocinas têm se mostrado potentes reguladores do metabolismo e da saúde, sendo estudadas no tratamento de doenças não transmissíveis, como a síndrome metabólica, o câncer e doenças neurodegenerativas. Diversas miocinas foram identificadas até agora, com muitas outras ainda aguardando descoberta. Entre as mais proeminentes, destacam-se a interleucina-6 (IL-6), miostatina, decorina, folistatina e o fator neurotrópico derivado do cérebro (BDNF), cada uma com funções e efeitos específicos no corpo.

1. IL-6: A Miocina Multifuncional

A IL-6 foi a primeira miocina descoberta e continua sendo uma das mais estudadas. Originalmente identificada como interferon beta2, ela foi renomeada em 1989. Este hormônio tem um papel duplo: além de ser uma citocina pró-inflamatória, também exerce efeitos anti-inflamatórios quando liberada durante a atividade muscular. A IL-6 aumenta a sensibilidade à insulina e favorece o acúmulo de GLUT-4, além de estimular a multiplicação de células satélites no músculo, contribuindo para a hipertrofia muscular. Seus efeitos anti-inflamatórios também estão associados à redução de substâncias inflamatórias como TNF alfa e IL-1 beta, sendo essencial para o processo de recuperação após o exercício.

No entanto, é importante destacar que níveis elevados de IL-6 estão associados à inflamação, o que torna necessário um equilíbrio na produção dessa substância, que pode ser alterado por fatores como a intensidade do exercício e o tipo de contração muscular realizada.

2. Miostatina: O Inibidor do Crescimento Muscular

A miostatina, descoberta em 1997, é uma miocina que atua como regulador negativo do crescimento muscular. Ela limita o crescimento do músculo esquelético durante o desenvolvimento e também está presente na fase adulta. Quando ativada, a miostatina inibe a proliferação de células satélites, dificultando a regeneração muscular e a hipertrofia. Além disso, altos níveis de miostatina estão associados a condições como sarcopenia, miopatia e até insuficiência cardíaca. A miostatina também desempenha um papel na resistência à insulina e está envolvida na perda muscular induzida por medicamentos como glicocorticoides.

Nos últimos anos, surgiram pesquisas farmacológicas visando a inibição da miostatina como estratégia terapêutica, especialmente para o tratamento de distrofias musculares. Contudo, ainda existem desafios na transição das descobertas de modelos animais para seres humanos, sendo a ativação dessa via pela prática de exercício físico uma alternativa terapêutica promissora.

3. Decorina e Folistatina: Antagonistas da Miostatina

Decorina e folistatina são antagonistas da miostatina e têm se mostrado promissores no fomento ao crescimento muscular. A decorina, descoberta em 1991, liga-se à miostatina, impedindo seus efeitos negativos no crescimento muscular. A folistatina, por sua vez, além de se ligar à miostatina, também bloqueia seus receptores, promovendo a proliferação de células satélites e acelerando a cicatrização muscular. Esses antagonistas têm grande potencial para o tratamento de lesões musculares e condições que envolvem atrofia muscular.

4. BDNF: A Proteína Protetora do Sistema Nervoso

O BDNF, ou fator neurotrópico derivado do cérebro, é uma miocina produzida por várias células, incluindo as musculares. Embora originalmente identificado no cérebro, o BDNF também tem papel crucial em outras partes do corpo, como o sistema muscular. Ele está envolvido na regeneração muscular e tem sido associado à redução da resistência à insulina e ao controle do metabolismo. Estudos demonstram que o treinamento de resistência aumenta os níveis circulantes de BDNF, promovendo benefícios para a saúde geral, como a melhoria do metabolismo lipídico e da utilização de glicose.

O BDNF também tem sido alvo de pesquisas terapêuticas para doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson. No entanto, sua aplicação terapêutica ainda enfrenta desafios, principalmente devido à dificuldade de atravessar a barreira hematoencefálica. Apesar disso, o aumento do BDNF com o exercício físico regular oferece uma alternativa promissora para a melhoria do desempenho cerebral e a prevenção de doenças neurodegenerativas.

5. O Grupo Alfa PGC-1 e o Papel das Miocinas no Exercício Físico

5.1 - Irisina: é uma miocina recentemente identificada, derivada da clivagem da proteína FNDC5, dependente do PGC-1 alfa. Ela é produzida em resposta ao exercício físico e tem o potencial de promover o "escurecimento" do tecido adiposo branco, aumentando a termogênese e o metabolismo energético. Estudos mostraram que a irisina melhora a homeostase da glicose, reduz a resistência à insulina e combate a inflamação no tecido adiposo. Além disso, ela tem efeitos protetores no miocárdio e pode influenciar positivamente o metabolismo ósseo. No âmbito neurológico, a irisina está associada à melhora na doença de Alzheimer e na neurogênese. No câncer, os resultados variam, mas muitos estudos sugerem que a irisina pode induzir a apoptose em células cancerígenas, além de potencializar os efeitos de quimioterápicos como a doxorrubicina. Medicamentos como a metformina, usados no tratamento do diabetes tipo 2, demonstraram aumentar os níveis de irisina, embora ainda seja necessário mais pesquisa para confirmar esses efeitos em humanos.

5.2 Meteorina (Metrnl): descoberta em 2014, a Metrnl é uma adipomiocina também dependente do PGC-1 alfa. Inicialmente relacionada ao treinamento de resistência e hipertrofia muscular, essa miocina também é induzida pelo exercício físico. A Metrnl tem a capacidade de promover o escurecimento do tecido adiposo branco, aumentando a sensibilidade à insulina e a tolerância à glicose. Embora os estudos com camundongos mostrem uma redução significativa na gordura corporal, os resultados em humanos são mais complexos devido a fatores como medicações concomitantes. Recentemente, a Metrnl foi associada a respostas imunológicas e à regulação inflamatória, demonstrando seu papel nas respostas imunes.

5.3 - Miocinas e Exercício de Resistência: o treinamento de resistência tem se mostrado eficaz na indução de várias miocinas importantes para a saúde metabólica e neurológica.

  • IL-6: A IL-6 é uma miocina inflamatória que pode aumentar após o exercício de resistência, embora os resultados variem conforme o tipo de treino e o método de medição. O exercício de resistência, especialmente quando envolve grandes grupos musculares, parece ser o mais eficaz para induzir o aumento dessa miocina.

  • Miostatina: A miostatina inibe o crescimento muscular, e sua redução após o exercício de resistência é um objetivo importante para quem busca hipertrofia muscular. Mesmo uma única sessão de treino pode diminuir seus níveis.

  • Decorina: Antagonista da miostatina, a decorina se correlaciona inversamente com a miostatina. O exercício de resistência tem mostrado aumentar os níveis de decorina, o que pode ser benéfico para o crescimento muscular.

  • Folistatina: A folistatina, outra miocina associada ao crescimento muscular, tem seus níveis elevados após o treinamento de resistência, dependendo do volume e intensidade do treino. Esse aumento tem implicações positivas para a hipertrofia.

  • BDNF: O BDNF é amplamente estudado por seu impacto nas doenças neurológicas. O treinamento de resistência parece aumentar seus níveis plasmáticos, especialmente com treinos de alta carga e intensidade. Esse aumento está relacionado ao fortalecimento neuronal e à melhoria na função cognitiva.

O exercício de resistência não apenas melhora a força muscular, mas também tem um impacto significativo na produção de miocinas, que promovem benefícios metabólicos e neurológicos. Para otimizar esses efeitos, é fundamental considerar fatores como a intensidade do exercício, a dieta e o contexto individual de cada pessoa. A pesquisa continua a explorar como diferentes protocolos de exercício podem ser aplicados para maximizar os benefícios das miocinas.

Não apenas os esportes, mas também o controle do peso corporal, a redução do estresse, a nutrição, o movimento diário e outros fatores de estilo de vida podem aumentar a produção de miocinas. Vice-versa, um estilo de vida pouco saudável pode levar à perda de massa muscular e à produção prejudicada de miocinas.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/