O Continuum Força-Resistência ilustra, de maneira exemplar, diferentes tipos de desportos associados ao treinamento de força. Embora o levantamento de peso seja o mais popular, existem diversas outras modalidades de treino que também promovem efeitos benéficos para a saúde. Nesse contexto, as miocinas desempenham um papel crucial, sendo substâncias secretadas pelas contrações musculares que ajudam a restaurar o equilíbrio metabólico e a promover a saúde geral.
As miocinas têm se mostrado potentes reguladores do metabolismo e da saúde, sendo estudadas no tratamento de doenças não transmissíveis, como a síndrome metabólica, o câncer e doenças neurodegenerativas. Diversas miocinas foram identificadas até agora, com muitas outras ainda aguardando descoberta. Entre as mais proeminentes, destacam-se a interleucina-6 (IL-6), miostatina, decorina, folistatina e o fator neurotrópico derivado do cérebro (BDNF), cada uma com funções e efeitos específicos no corpo.
1. IL-6: A Miocina Multifuncional
A IL-6 foi a primeira miocina descoberta e continua sendo uma das mais estudadas. Originalmente identificada como interferon beta2, ela foi renomeada em 1989. Este hormônio tem um papel duplo: além de ser uma citocina pró-inflamatória, também exerce efeitos anti-inflamatórios quando liberada durante a atividade muscular. A IL-6 aumenta a sensibilidade à insulina e favorece o acúmulo de GLUT-4, além de estimular a multiplicação de células satélites no músculo, contribuindo para a hipertrofia muscular. Seus efeitos anti-inflamatórios também estão associados à redução de substâncias inflamatórias como TNF alfa e IL-1 beta, sendo essencial para o processo de recuperação após o exercício.
No entanto, é importante destacar que níveis elevados de IL-6 estão associados à inflamação, o que torna necessário um equilíbrio na produção dessa substância, que pode ser alterado por fatores como a intensidade do exercício e o tipo de contração muscular realizada.
2. Miostatina: O Inibidor do Crescimento Muscular
A miostatina, descoberta em 1997, é uma miocina que atua como regulador negativo do crescimento muscular. Ela limita o crescimento do músculo esquelético durante o desenvolvimento e também está presente na fase adulta. Quando ativada, a miostatina inibe a proliferação de células satélites, dificultando a regeneração muscular e a hipertrofia. Além disso, altos níveis de miostatina estão associados a condições como sarcopenia, miopatia e até insuficiência cardíaca. A miostatina também desempenha um papel na resistência à insulina e está envolvida na perda muscular induzida por medicamentos como glicocorticoides.
Nos últimos anos, surgiram pesquisas farmacológicas visando a inibição da miostatina como estratégia terapêutica, especialmente para o tratamento de distrofias musculares. Contudo, ainda existem desafios na transição das descobertas de modelos animais para seres humanos, sendo a ativação dessa via pela prática de exercício físico uma alternativa terapêutica promissora.
3. Decorina e Folistatina: Antagonistas da Miostatina
Decorina e folistatina são antagonistas da miostatina e têm se mostrado promissores no fomento ao crescimento muscular. A decorina, descoberta em 1991, liga-se à miostatina, impedindo seus efeitos negativos no crescimento muscular. A folistatina, por sua vez, além de se ligar à miostatina, também bloqueia seus receptores, promovendo a proliferação de células satélites e acelerando a cicatrização muscular. Esses antagonistas têm grande potencial para o tratamento de lesões musculares e condições que envolvem atrofia muscular.
4. BDNF: A Proteína Protetora do Sistema Nervoso
O BDNF, ou fator neurotrópico derivado do cérebro, é uma miocina produzida por várias células, incluindo as musculares. Embora originalmente identificado no cérebro, o BDNF também tem papel crucial em outras partes do corpo, como o sistema muscular. Ele está envolvido na regeneração muscular e tem sido associado à redução da resistência à insulina e ao controle do metabolismo. Estudos demonstram que o treinamento de resistência aumenta os níveis circulantes de BDNF, promovendo benefícios para a saúde geral, como a melhoria do metabolismo lipídico e da utilização de glicose.
O BDNF também tem sido alvo de pesquisas terapêuticas para doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson. No entanto, sua aplicação terapêutica ainda enfrenta desafios, principalmente devido à dificuldade de atravessar a barreira hematoencefálica. Apesar disso, o aumento do BDNF com o exercício físico regular oferece uma alternativa promissora para a melhoria do desempenho cerebral e a prevenção de doenças neurodegenerativas.
5. O Grupo Alfa PGC-1 e o Papel das Miocinas no Exercício Físico
5.1 - Irisina: é uma miocina recentemente identificada, derivada da clivagem da proteína FNDC5, dependente do PGC-1 alfa. Ela é produzida em resposta ao exercício físico e tem o potencial de promover o "escurecimento" do tecido adiposo branco, aumentando a termogênese e o metabolismo energético. Estudos mostraram que a irisina melhora a homeostase da glicose, reduz a resistência à insulina e combate a inflamação no tecido adiposo. Além disso, ela tem efeitos protetores no miocárdio e pode influenciar positivamente o metabolismo ósseo. No âmbito neurológico, a irisina está associada à melhora na doença de Alzheimer e na neurogênese. No câncer, os resultados variam, mas muitos estudos sugerem que a irisina pode induzir a apoptose em células cancerígenas, além de potencializar os efeitos de quimioterápicos como a doxorrubicina. Medicamentos como a metformina, usados no tratamento do diabetes tipo 2, demonstraram aumentar os níveis de irisina, embora ainda seja necessário mais pesquisa para confirmar esses efeitos em humanos.
5.2 Meteorina (Metrnl): descoberta em 2014, a Metrnl é uma adipomiocina também dependente do PGC-1 alfa. Inicialmente relacionada ao treinamento de resistência e hipertrofia muscular, essa miocina também é induzida pelo exercício físico. A Metrnl tem a capacidade de promover o escurecimento do tecido adiposo branco, aumentando a sensibilidade à insulina e a tolerância à glicose. Embora os estudos com camundongos mostrem uma redução significativa na gordura corporal, os resultados em humanos são mais complexos devido a fatores como medicações concomitantes. Recentemente, a Metrnl foi associada a respostas imunológicas e à regulação inflamatória, demonstrando seu papel nas respostas imunes.
5.3 - Miocinas e Exercício de Resistência: o treinamento de resistência tem se mostrado eficaz na indução de várias miocinas importantes para a saúde metabólica e neurológica.
IL-6: A IL-6 é uma miocina inflamatória que pode aumentar após o exercício de resistência, embora os resultados variem conforme o tipo de treino e o método de medição. O exercício de resistência, especialmente quando envolve grandes grupos musculares, parece ser o mais eficaz para induzir o aumento dessa miocina.
Miostatina: A miostatina inibe o crescimento muscular, e sua redução após o exercício de resistência é um objetivo importante para quem busca hipertrofia muscular. Mesmo uma única sessão de treino pode diminuir seus níveis.
Decorina: Antagonista da miostatina, a decorina se correlaciona inversamente com a miostatina. O exercício de resistência tem mostrado aumentar os níveis de decorina, o que pode ser benéfico para o crescimento muscular.
Folistatina: A folistatina, outra miocina associada ao crescimento muscular, tem seus níveis elevados após o treinamento de resistência, dependendo do volume e intensidade do treino. Esse aumento tem implicações positivas para a hipertrofia.
BDNF: O BDNF é amplamente estudado por seu impacto nas doenças neurológicas. O treinamento de resistência parece aumentar seus níveis plasmáticos, especialmente com treinos de alta carga e intensidade. Esse aumento está relacionado ao fortalecimento neuronal e à melhoria na função cognitiva.
O exercício de resistência não apenas melhora a força muscular, mas também tem um impacto significativo na produção de miocinas, que promovem benefícios metabólicos e neurológicos. Para otimizar esses efeitos, é fundamental considerar fatores como a intensidade do exercício, a dieta e o contexto individual de cada pessoa. A pesquisa continua a explorar como diferentes protocolos de exercício podem ser aplicados para maximizar os benefícios das miocinas.