Chemerina e doenças autoimunes

A chemerina é uma proteína multifacetada descoberta em 2003. Atua como quimioatraente para células imunológicas, desempenhando um papel crucial nas respostas imunes inata e adaptativa. Além disso, é classificada como uma adipocina, influenciando processos como angiogênese, adipogÊnese e metabolismo energético. Estudos demonstram correlações positivas entre os níveis sistémicos de chemerina e fenótipos relacionados com a obesidade, como resistência à insulina, índice de massa corporal (IMC) e triglicerídeos séricos, sugerindo sua participação em doenças metabólicas. Os níveis séricos de chemerina aumentam em indivíduos acima do peso. Quanto maior os níveis de chemerina, pior o controle glicêmico e o aumento do risco de doenças inflamatórias e autoimunes.

No contexto da psoríase, uma doença inflamatória crônica da pele, observou-se que os níveis séricos de chemerina estão elevados em pacientes com psoríase em placas crônicas. Este aumento ocorre independentemente de fatores como idade, sexo e IMC, indicando uma ligação direta entre a chemerina e a inflamação associada à psoríase. Além disso, tratamentos com infliximab, um agente biológico, normalizaram os níveis de chemerina nestes pacientes, reforçando a sua relevância na patogênese da doença.

A chemerina é produzida principalmente por adipócitos e hepatócitos, mas também pode ser sintetizada por células imunes e endoteliais.

Funções da Chemerina:

  1. Regulação do Metabolismo: A chemerina influencia a sensibilidade à insulina, a gliconeogênese hepática e o metabolismo lipídico. Níveis elevados dessa proteína foram associados à resistência à insulina e a distúrbios metabólicos como obesidade e diabetes tipo 2.

  2. Inflamação e Imunidade: Atua como um fator de atração para células do sistema imunológico, como macrófagos e células dendríticas. Dependendo do contexto, pode ter efeitos pró ou anti-inflamatórios.

  3. Angiogênese e Saúde Vascular: A chemerina estimula a formação de novos vasos sanguíneos e pode influenciar processos vasculares, contribuindo para condições como aterosclerose e hipertensão.

  4. Regulação da Pressão Arterial: Estudos sugerem que a chemerina pode afetar a pressão arterial de maneira dependente do gênero, sendo associada a disfunções cardiovasculares em algumas populações.

  5. Papel em Doenças Inflamatórias e Autoimunes: A chemerina tem sido investigada na psoríase, artrite reumatoide e outras doenças inflamatórias crônicas, onde pode modular a resposta imunológica e inflamatória.

  6. Influência no Câncer: A proteína tem efeitos variáveis no desenvolvimento de tumores, podendo tanto promover a migração celular em alguns tipos de câncer quanto inibir o crescimento tumoral em outros.

A complexidade da chemerina está relacionada à sua ativação por diferentes proteases, que geram isoformas com efeitos distintos. A compreensão da modulação da chemerina é essencial para explorar seu potencial como alvo terapêutico em doenças metabólicas, inflamatórias e cardiovasculares.

Atualmente compreende-se que a redução da chemerina depende principalmente de melhorias no estilo de vida, incluindo:

A. Dieta

  • Reduza alimentos processados: alimentos processados ​​ricos em açúcar e gorduras não saudáveis ​​podem promover inflamação e aumentar os níveis de quemerina. Concentre-se na perda de peso sustentável em vez de dietas radicais.

  • Aumente a ingestão de fibras: grãos integrais, legumes, frutas e vegetais podem ajudar a regular o metabolismo e a inflamação.

  • Gorduras saudáveis: incorpore ácidos graxos ômega-3 (encontrados em peixes, sementes de linhaça e nozes) para combater a inflamação.

  • Limite gorduras saturadas e trans: encontradas em alimentos fritos, fast food e lanches processados, podem contribuir para níveis mais altos de quemerina.

  • Dieta anti-inflamatória: inclua açafrão, chá verde e alimentos ricos em polifenóis (por exemplo, frutas vermelhas, chocolate amargo).

B. Exercício

A chemerina está intimamente ligada ao tecido adiposo (gordura). Perder o excesso de peso por meio de dieta e exercícios pode reduzir significativamente seus níveis.

  • Exercício aeróbico: atividades regulares como caminhar, correr, andar de bicicleta ou nadar podem reduzir os níveis de quemerina.

  • Treinamento de força: exercícios de resistência ajudam a melhorar a sensibilidade à insulina e a saúde metabólica.

  • Consistência é a chave: tente fazer pelo menos 150 minutos de exercícios de intensidade moderada por semana.

C. Higiene do sono e controle do estresse

  • Sono ruim e estresse crônico podem aumentar a inflamação e a disfunção metabólica, levando a níveis mais altos de chemerina. Pratique uma boa higiene do sono (7–9 horas por noite).

  • Controle o estresse com meditação, respiração profunda, yoga ou técnicas de relaxamento.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Acompanhamento dos participantes do programa The biggest loser (Peso pesado)

Existe excesso de peso com saúde? Até certo ponto. Com o passar do tempo o tecido adiposo cheio de gordura torna-se disfuncional, gerando vários problemas de saúde. Existem 236 co-morbidades associadas ao excesso de gordura corporal.

Os prejuízos começam com o acúmulo de 10kg de gordura subcutânea ou apenas 2 kg de gordura visceral! Por isso, a redução do peso é recomendada. Leia aqui os benefícios.

A culpa da obesidade não raramente é a tireoide. Aliás, a maior parte dos pacientes sabe disso. Chegam ao consultório querendo analisar a tireoide pois tiveram ganho de peso. Mas, geralmente a tireoide está normal.
Quando a tireoide não funciona bem há certo acúmulo de água corporal, mais cansaço e menos vontade de fazer exercício. Mas isso não é suficiente para levar à obesidade.

Este estudo mostrou que mesmo pacientes que retiraram a tireoide tiveram um ganho de peso modesto (entre 2 e 5kg) e não 15, 30 ou mais kg como vemos na obesidade.

As causas da obesidade são multifatoriais. É uma doença crônica em que fatores ambientais (alimentação, atividade física, sono, estresse), genéticos (polimorfismos de genes poupadores), hormonais, neurometabólicos e outros entrelaçam-se.

O cuidado e acompanhamento geralmente é para sempre. Existem muitas estratégias para emagrecimento: dieta hipocalórica, jejum, atividade física, cirurgia, medicação. O problema é que o reganho é frequente e as estratégias precisam ir mudando ao longo do tempo (nos treinos, abordagens dietéticas, troca de medicação, terapia…).

A obesidade é uma doença crônica. A maior parte dos pacientes volta a ganhar peso. O que uso significa? Que há uma doença crônica baseada na obesidade. Não é falta de caráter, não é falta de auto-estima ou motivação. É doença. Assim como diabetes, doenças cardiovasculares, que exigem acompanhamento contínuo.

Durante o processo de emagrecimento o corpo entra em modo de alerta e defesa. Reganhar o peso é fácil, fácil devido a:

  • Redução da taxa metabólica basal - Para cada quilo de peso perdido a taxa de metabolismo basal cai em 20 a 30 kcal/dia (Polidori et al., 2016).

  • Aumento da fome - associado à elevação do hormônio orexígeno grelina e à diminuição dos hormônios anorexígenos. Para cada quilo de peso perdido a fome aumenta para compensar em 100 kcal/ dia com a finalide de restaurar, como o tempo, o estoque que foi perdido.

The Biggest Loser foi um reality show popular que foi exibido na NBC por mais de uma década, começando em 2004. Nele, os participantes com obesidade competiam entre si por meio de desafios físicos intensos e faziam uma dieta com poucas calorias para ver quem conseguia perder a maior porcentagem do peso corporal.

Os participantes perderam entre 20 kg e 59 kg durante as 30 semanas do programa. Contudo, a maior parte ganhou de volta o peso perdido. Com a perda de peso o metabolismo desacelera drasticamente e a maioria dos participantes acaba reganhando todo ou quase todo o peso perdido quando voltam à vida normal e aos hábitos antigos.

O Dr. Kevin Hall acompanhou os participantes e teoriza que, como os competidores se envolveram em períodos longos e sustentados de intensa atividade física, seus metabolismos desaceleraram substancialmente, a fim de reduzir suas taxas metabólicas e, assim, minimizar as mudanças em gasto total de energia. Em outras palavras, seus corpos fizeram alterações compensatórias automáticas para manter o equilíbrio energético.

Felizmente, para aqueles que tentam manter uma perda de peso significativa, os mecanismos compensatórios não neutralizam completamente as mudanças no estilo de vida, por isso é possível evitar quantidades substanciais de peso. Mas como?

Proteja-se dos danos da inflamação crônica

A ciência provou que a inflamação crônica e de baixo grau pode transformar-se num assassino silencioso que contribui para doenças cardiovasculares, certos tipos de câncer, diabetes tipo 2 e outras condições. Uma dieta antiinflamatória, livre de alimentos ultraprocessados, açúcar, álcool, com menos gordura hidrogenada e saturada é muito importante (Hall et al., 2019). Aumentar fibras para mais saciedade é fundamental. Podemos usar fibras como psyllium antes das refeições ou outras fibras disponíveis no mercado.

Uma dieta com menos carboidratos e hiperproteica também é importante para elevação da termogênese (Mathijs et al., 2019). Quanto mais velha a pessoa maior é a resistência anabólica e a ingestão proteica aumentada junto com treino é fundamental (Aragon, Tipton, & Schoenfeld, 2023).

Exercícios de resistência promovem ganho de massa muscular e ajudam na manutenção do peso perdido. Os indivíduos que mantiveram a perda de peso aumentaram a atividade física em até 160% em relação ao período pré-competição (Kerns et al., 2016).

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Hipogonadismo e infertilidade em homens com obesidade

O hipogonadismo é caracterizado pela produção inadequada de testosterona e pode ocorrer por falha direta do testículo ou por alteração no eixo hipotálamo-hipófise.

No hipogonadismo primário, o problema está no testículo. O organismo tenta compensar essa falha aumentando a produção de LH e FSH, mas o testículo não responde adequadamente.

No hipogonadismo secundário, a disfunção está no hipotálamo ou na hipófise, que não enviam o estímulo hormonal necessário para o funcionamento testicular.

Em pacientes com obesidade é comum o hipogonadismo misto ou funcional. O excesso de tecido adiposo aumenta a atividade da enzima aromatase, que converte testosterona em estradiol. O estradiol exerce efeito inibitório sobre o eixo hipotálamo-hipófise, reduzindo a secreção de LH e FSH e, consequentemente, a produção de testosterona. Nesses casos, a reposição isolada de testosterona não resolve o problema. A intervenção principal é a perda de peso.

O aumento do IMC e da relação cintura-quadril aumenta o risco de hipogonadismo. A resistência à leptina, o estado inflamatório crônico mediado por citocinas, a hiperinsulinemia e a hiperglicemia contribuem para a disfunção hormonal e para a piora da qualidade seminal, incluindo redução da motilidade dos espermatozoides. Esses mecanismos são potencialmente reversíveis com emagrecimento e controle glicêmico.

A testosterona baixa agrava a síndrome metabólica, reduz a taxa metabólica basal e aumenta a resistência insulínica, perpetuando um ciclo metabólico desfavorável.

Sinais específicos de hipogonadismo

  • Redução de libido e atividade sexual

  • Reduz de ereção espontânea

  • Infertilidade

  • Ginecomastia (aumento de mamas)

  • Redução de pelos pubianos e axilares

  • Redução de massa óssea

Sinais inespecíficos de hipogonadismo masculina

  • Cansaço

  • Alteração de humor

  • Sonolência

  • Anemia

  • Redução de massa magra

  • Aumento de gordura corporal

  • Redução da performance esportiva

Avaliação hormonal

Em homens com obesidade há redução da SHBG, o que leva à diminuição da testosterona total. Nesses casos, a testosterona livre tende a estar preservada ou elevada, sendo o marcador mais adequado para avaliação.

Considera-se hipogonadismo quando a testosterona total é inferior a 264 ng/dL. A dosagem deve ser repetida para confirmação. Valores baixos exigem avaliação de LH e FSH.

LH e FSH elevados indicam hipogonadismo primário, com necessidade de investigação testicular, incluindo cariótipo, ultrassonografia de bolsa escrotal e história prévia de caxumba.

LH e FSH normais ou reduzidos sugerem hipogonadismo secundário. Deve-se investigar prolactina, pois sua elevação pode indicar adenoma hipofisário. Hemocromatose deve ser considerada, já que o depósito de ferro pode acometer testículo, hipófise e hipotálamo.

Doenças agudas reduzem transitoriamente a testosterona. Não se recomenda dosagem durante infecções como COVID ou dengue.

Tratamento

A terapia pode ser feita com testosterona intramuscular, utilizando ésteres a cada 15 ou 21 dias, incluindo cipionato. Outra opção é a testosterona transdérmica em gel.

Monitoramento

O acompanhamento deve incluir avaliação clínica de sintomas, adesão e efeitos adversos após 3 e 6 meses. A testosterona sérica deve ser reavaliada nesses períodos.

O PSA deve ser monitorado. Elevação maior que 1,4 ng/mL em 12 meses ou 0,4 ng/mL em 6 meses exige avaliação especializada antes da continuidade da terapia.

A densitometria óssea é indicada quando há risco ou diagnóstico de osteopenia ou osteoporose.

Outras estratégias terapêuticas

• Perda de peso e controle metabólico
• Agonistas dopaminérgicos
• Citrato de clomifeno
• GnRH e gonadotrofinas
• hCG

O manejo do hipogonadismo deve sempre considerar o contexto metabólico, especialmente em pacientes com obesidade, priorizando intervenções que restaurem o eixo hormonal de forma fisiológica. Converse com seu médico.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/