Alteração de microbiota intestinal na síndrome de Peutz-Jeghers (PJS)

A síndrome de Peutz-Jeghers (SPJ) é uma doença genética rara, caracterizada por pólipos hamartomatosos no trato gastrointestinal e pigmentação escura em lábios, mucosa oral e pele. A causa principal é uma mutação no gene STK11 (LKB1), um gene supressor tumoral.

  • Transmissão geralmente autossómica dominante

  • Pode ser hereditária ou surgir por mutação nova

O que o gene STK11 faz normalmente

  • Regula crescimento celular

  • Controla metabolismo energético (via AMPK/mTOR)

  • Atua como “freio” da proliferação celular

Quando há mutação:

  • perda de controle da divisão celular

  • aumento de proliferação desorganizada da mucosa intestinal

  • formação de pólipos hamartomatosos

Manifestações principais

1) Pólipos gastrointestinais

  • Estômago, intestino delgado e cólon

  • Tipo hamartomatoso (crescimento desorganizado, não maligno inicialmente)

  • Podem causar:

    • dor abdominal

    • obstrução intestinal

    • hemorragia

    • intussuscepção (intestino “entra dentro de si”)

2) Manchas pigmentadas (mucocutâneas)

  • Lábios

  • Boca

  • Dedos

  • Região perioral

Estas manchas:

  • surgem na infância

  • podem atenuar na idade adulta, mas não desaparecem completamente

Consequências clínicas importantes

1) Risco elevado de câncer

A SPJ é uma das síndromes hereditárias com maior risco oncológico.

Risco aumentado de:

  • Cancro gastrointestinal (estômago, intestino, pâncreas)

  • Cancro do pâncreas (um dos mais relevantes)

  • Cancro do colo do útero

  • Cancro da mama

  • Cancro do ovário

  • Cancro testicular (em homens jovens)

O risco acumulado ao longo da vida pode ultrapassar 80–90% para algum tipo de cancro.

2) Complicações gastrointestinais

  • obstruções recorrentes

  • necessidade de cirurgias repetidas

  • anemia por perda crónica de sangue

  • má absorção em casos mais avançados

3) Impacto metabólico e inflamatório (menos óbvio, mas relevante)

Estudos recentes mostram:

  • disbiose intestinal

  • aumento de inflamação crónica de baixo grau

  • alteração do microambiente intestinal que favorece carcinogénese

Alterações da microbiota na PJS

Pacientes com síndrome de Peutz-Jeghers (PJS) apresentam disbiose intestinal clara, com redução da diversidade bacteriana e aumento de microrganismos potencialmente inflamatórios e oportunistas. Isso sugere participação da microbiota na fisiopatologia e possivelmente na progressão tumoral.

Um estudo sequenciou bactérias e fungos nas fezes de 23 pacientes com PJS, 17 familiares de primeiro grau assintomáticos e 24 controles saudáveis (Wang et al., 2022). Encontrou:

  • Menor biodiversidade global da microbiota em PJS

  • Disbiose mais evidente, com mais bactérias inflamatórias, associados a LPS elevado e instabilidade epitelial:

    • Proteobacteria

    • Enterobacteriaceae

    • Escherichia-Shigella

  • Redução de bactérias produtoras de butirato:

    • Firmicutes

    • Lachnospiraceae

    • Ruminococcaceae

  • Aumento de fungos oportunistas, especialmente cândida

Interpretação fisiopatológica

O padrão observado é típico de um eixo disbiose–inflamação–proliferação epitelial, caracterizado por:

  • ↓ diversidade microbiana

  • ↓ produtores de AGCC, especialmente butirato

  • ↑ bactérias inflamatórias

  • ↑ fungos oportunistas

Isso cria um ambiente com maior estresse oxidativo, maior turnover celular, maior risco de neoplasia gastrointestinal.

O próprio estudo destaca que a disbiose pode ser um componente estrutural relevante na patogênese da síndrome. Por isso, o monitoramento regular é fundamental.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/