Resolução da inflamação

A inflamação é uma resposta do corpo a lesões ou infecções, essencial para a defesa e reparo tecidual. No entanto, se não for adequadamente controlada, pode levar a doenças crônicas. A resolução da inflamação é um processo ativo e regulado que permite ao corpo encerrar a inflamação de forma eficaz, restaurando a homeostase tecidual.

Mediadores lipídicos: os "arquitetos" da resolução

Durante a inflamação, o corpo produz mediadores lipídicos derivados de ácidos graxos essenciais, como o ácido araquidônico e o ácido eicosapentaenoico. Esses mediadores, conhecidos como mediadores lipídicos pró-resolução, incluem lipoxinas, resolvinas, maresinas e protectinas. Eles atuam coordenadamente para resolver a inflamação sem suprimir a resposta imunológica necessária.

Papel das lipoxinas, resolvinas e maresinas

  • Lipoxinas: Inibem a migração excessiva de neutrófilos, promovem sua apoptose (morte celular programada) e estimulam os macrófagos a fagocitar células mortas, facilitando a limpeza do local inflamatório.

  • Resolvinas: Derivadas do ácido eicosapentaenoico (EPA), as resolvinas promovem a resolução da inflamação e a regeneração tecidual. Por exemplo, a RvD2 induz a resolução ativa da inflamação e a regeneração tecidual em lesões periapicais, enquanto a RvD1 controla o microambiente inflamatório em defeitos em calvárias, promovendo a cicatrização óssea e a angiogênese.

  • Maresinas: Derivadas do ácido docosahexaenoico (DHA), as maresinas, como a MaR1, induzem a proliferação e migração de células-tronco mesenquimais, osteogênese e angiogênese em defeitos em calvárias, promovendo a regeneração óssea em defeitos craniofaciais e alveolares.

A falha na resolução da inflamação pode levar a condições como artrite reumatoide, doença inflamatória intestinal e aterosclerose. Compreender e manipular esses mediadores oferece novas perspectivas terapêuticas para tratar essas doenças.

❌ E quando a inflamação não se resolve?

A inflamação falha em se resolver quando o equilíbrio entre sinais pró-inflamatórios e pró-resolução é perturbado. Algumas causas comuns incluem:

  1. Produção insuficiente de mediadores pró-resolução (SPMs)

    O corpo não consegue gerar lipoxinas, resolvinas, maresinas ou protectinas suficientes.

    • Ex.: em doenças crônicas como artrite reumatoide ou doença inflamatória intestinal, há deficiência de SPMs locais.

  2. Excesso de sinais pró-inflamatórios

    Citocinas como TNF-α, IL-1β e IL-6 continuam ativas por muito tempo, mantendo neutrófilos e outros leucócitos no tecido.

  3. Falha na fagocitose de células mortas

    Macrófagos não conseguem “limpar” neutrófilos apoptóticos ou restos celulares. Isso prolonga o estado inflamatório e pode induzir dano tecidual.

  4. Alterações metabólicas e oxidativas

    Estresse oxidativo, obesidade ou diabetes podem interferir na produção e ação dos SPMs.

  5. Infecção persistente ou estímulo contínuo

    Exposição constante a patógenos ou irritantes mantém a inflamação ativa.

O que é inflamação crônica?

Inflamação crônica ocorre quando o processo inflamatório não se resolve adequadamente. Em vez de desaparecer, ele persiste semanas, meses ou até anos, causando danos progressivos aos tecidos.

Já vimos causas comuns: infecções persistentes, exposição contínua a toxinas, obesidade, estresse oxidativo, doenças autoimunes ou falha na produção de mediadores pró-resolução (SPMs).

Consequências da inflamação crônica

  1. Dano tecidual progressivo

    Neutrófilos e macrófagos liberam enzimas e radicais livres. Isso destrói estruturas celulares e matrizes extracelulares.

    Ex.: na artrite reumatoide, destruição da cartilagem e do osso.

  2. Fibrose e cicatrização desordenada

    O tecido tenta se regenerar, mas com excesso de colágeno e matriz extracelular. Resulta em tecido cicatricial rígido que compromete função.

    Ex.: fibrose hepática em hepatite crônica.

  3. Alterações funcionais dos órgãos

    Inflamação crônica altera a função normal.

    Ex.: em doença inflamatória intestinal, absorção intestinal prejudicada; em aterosclerose, vasos rígidos e estreitos.

  4. Desregulação imunológica

    Ativação contínua do sistema imune pode levar a autoimunidade.

    Ex.: lúpus eritematoso sistêmico ou esclerose múltipla.

  5. Risco aumentado de câncer

    Inflamação persistente gera mutações e alterações no microambiente tecidual.

    Ex.: gastrite crônica por H. pylori aumenta risco de câncer gástrico.

  6. Metabolismo alterado

    Inflamação crônica está associada a resistência à insulina, obesidade e doenças cardiovasculares.

    Ex.: citocinas inflamatórias interferem na sinalização da insulina e no metabolismo lipídico.

Como reduzir a inflamação crônica

Pode existir necessidade de uso de medicação antiinflamatória que bloqueia citocinas ou enzimas que perpetuam a inflamação (como COX-2 em certos contextos) cria um ambiente favorável à ação dos SPMs.

Uso de precursores de mediadores lipídicos importantes:

  • Ácidos graxos ômega-3 (EPA e DHA) são substratos para a síntese de resolvinas e maresinas.

  • Dietas ricas em ômega-3 aumentam a produção natural desses mediadores.

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Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/