Você provavelmente já ouviu falar em radicais livres e antioxidantes. Mas sabia que a sua capacidade de lidar com o estresse oxidativo pode estar, em boa parte, escrita no seu DNA? É precisamente isso que uma revisão científica publicada na revista Frontiers in Genetics veio mostrar (Krishnamurthy et al., 2024).
O oxigênio é indispensável à vida, mas tem um lado sombrio. O metabolismo celular produz continuamente espécies reativas de oxigênio (ROS) e espécies reativas de azoto (RNS), originadas principalmente nas mitocôndrias. Em doses controladas, essas moléculas são úteis — participam na defesa imunitária e na sinalização celular. O problema surge quando a produção se descontrola. O estresse oxidativo é definido como um desequilíbrio entre oxidantes e antioxidantes a favor dos primeiros, resultando em danos moleculares e perturbações na sinalização redox.
As consequências desse desequilíbrio não são triviais. O estresse oxidativo está associado ao início e à progressão de diversas doenças, incluindo câncer, diabetes, distúrbios metabólicos, aterosclerose e doenças cardiovasculares. No caso das doenças cardíacas, contribui para a formação de placas nas artérias; na diabetes, está implicado na resistência à insulina e na disfunção das células beta do pâncreas; no cancro, pode provocar mutações genéticas e favorecer a metástase.
Mas o que a ciência está agora a aprofundar é que a susceptibilidade de cada pessoa a todo este processo é moldada pelos seus próprios genes. O corpo regula a carga oxidativa através de um equilíbrio entre genes pró-oxidantes, que orquestram a produção de espécies oxidantes, e genes antioxidantes, que atuam no combate a essas espécies. Variações em qualquer um desses genes — as chamadas mutações pontuais ou SNPs — podem inclinar a balança para o lado errado.
Do lado dos genes pró-oxidantes, destacam-se nomes como XDH, CYBA, CYP1A1, PTGS2, NOS e MAO, que codificam enzimas responsáveis pela geração de radicais livres. Do lado protetor, entram em cena genes como SOD, CAT, GPX e toda a família do sistema da glutationa (GSS, GLUL, GSTM1, GSTM5, GSTP1), além da tiorredoxina (TXN) e da heme oxigenase-1 (HMOX1). Polimorfismos nesses genes antioxidantes podem comprometer a sua atividade e eficiência, fragilizando as defesas do organismo. Um exemplo concreto: variações no gene SOD reduzem a atividade da enzima superóxido dismutase, aumentando a vulnerabilidade ao estresse oxidativo.
O organismo não fica de braços cruzados perante este cenário. Quando as ROS aumentam, ativa vias de sinalização celular sofisticadas para tentar restaurar o equilíbrio. Uma das mais importantes é a via Nrf2/ARE: em condições de estresse oxidativo, o fator Nrf2 transloca-se para o núcleo celular e desencadeia a expressão de mais de 200 genes envolvidos na defesa antioxidante e no combate à inflamação. Outras vias, como NF-κB, PI3K/AKT e FoxO, também entram em ação para proteger as células.
O que torna esta investigação particularmente relevante é o seu potencial clínico. A avaliação genética destes genes pode permitir a identificação precoce de indivíduos com maior risco de estresse oxidativo. Combinada com a monitorização de biomarcadores biológicos, abre caminho para uma medicina verdadeiramente personalizada — onde as estratégias de prevenção e tratamento são adaptadas ao perfil genético único de cada pessoa, com o objetivo de preservar a saúde celular e promover a longevidade.
Podemos avaliar esta genética
Deseja fazer ou interpretar seu exame genético? Marque sua consulta de nutrição de precisão.
1. Genes Envolvidos na Neutralização de Espécies Reativas de Oxigênio (ROS)
Esses genes codificam enzimas antioxidantes que neutralizam radicais livres e protegem contra danos oxidativos:
SOD1, SOD2, SOD3 (Superóxido Dismutase 1, 2 e 3)
SOD1 (citoplasmática), SOD2 (mitocondrial) e SOD3 (extracelular) convertem o radical superóxido (O₂⁻) em peróxido de hidrogênio (H₂O₂).
Polimorfismos na SOD2 (Val16Ala, rs4880) estão associados a menor atividade mitocondrial da enzima e maior risco de dano oxidativo.
CAT (Catalase)
Decompõe H₂O₂ em água e oxigênio.
Variantes podem reduzir sua eficiência, aumentando os níveis de peróxido na célula.
GPX1, GPX3, GPX4 (Glutationa Peroxidase 1, 3 e 4)
Reduzem o peróxido de hidrogênio e lipídios oxidados.
Polimorfismos, como rs1050450 (GPX1 Pro198Leu), podem reduzir a atividade antioxidante.
GSR (Glutationa Redutase)
Regenera o glutationa reduzido (GSH), essencial para a defesa antioxidante.
Polimorfismos podem afetar a reciclagem da glutationa e aumentar o estresse oxidativo.
GSTP1, GSTM1 (Glutationa S-Transferases Pi e Mu 1)
Atuam na detoxificação de radicais livres e metabólitos oxidativos.
A deleção de GSTM1 (gene nulo) está associada a maior vulnerabilidade ao estresse oxidativo.
2. Genes Envolvidos no Metabolismo de Substâncias Oxidantes
Esses genes influenciam a degradação de compostos tóxicos e a sensibilidade ao estresse oxidativo:
ALDH2 (Aldeído Desidrogenase 2)
Degrada aldeídos tóxicos, incluindo os gerados pelo estresse oxidativo.
O polimorfismo rs671 (Glu504Lys) reduz sua atividade, aumentando a suscetibilidade ao dano oxidativo.
G6PD (Glicose-6-Fosfato Desidrogenase)
Mantém os níveis de NADPH para regeneração da glutationa.
Deficiências genéticas podem levar a maior vulnerabilidade ao dano oxidativo.
NQO1 (NAD(P)H Quinona Oxidorredutase 1)
Metaboliza quinonas para evitar a formação de radicais livres.
O polimorfismo rs1800566 (C609T) reduz a atividade enzimática, aumentando o estresse oxidativo.
EPHX1 (Epóxido Hidrolase 1)
Atua na detoxificação de epóxidos tóxicos, reduzindo o risco de danos oxidativos.
Polimorfismos podem aumentar ou reduzir sua atividade.
3. Genes Reguladores da Resposta ao Estresse Oxidativo
Esses genes influenciam a ativação de mecanismos antioxidantes e a resposta ao estresse celular:
NFE2L2 (Nrf2 – Nuclear Factor Erythroid 2-Related Factor 2)
Regula a expressão de enzimas antioxidantes.
Polimorfismos podem reduzir sua ativação, diminuindo a defesa antioxidante.
SIRT6 (Sirtuína 6)
Modula a resposta ao estresse oxidativo e a longevidade celular.
Polimorfismos podem influenciar a resistência ao dano oxidativo.
4. Genes Relacionados à Inflamação e Estresse Oxidativo
A inflamação crônica pode aumentar a produção de radicais livres, piorando o estresse oxidativo:
IL-6 (Interleucina-6)
Regula a inflamação e pode aumentar o estresse oxidativo.
O polimorfismo rs1800795 (-174G>C) está associado a níveis elevados de IL-6 e maior inflamação.
TNF (Fator de Necrose Tumoral Alfa)
Polimorfismos, como rs1800629 (-308G>A), aumentam a expressão de TNF-α, amplificando o estresse oxidativo.
TLR4 (Toll-Like Receptor 4)
Modula a resposta inflamatória a patógenos.
Variantes podem aumentar a ativação inflamatória e o dano oxidativo.
5. Outros Genes Relacionados ao Estresse Oxidativo
ADA (Adenosina Desaminase): Relacionada à modulação da resposta imune e inflamatória, podendo afetar indiretamente o estresse oxidativo.
CBS (Cistationina Beta-Sintase): Envolvida no metabolismo da homocisteína, um fator pró-oxidativo.
HFE (Gene da Hemocromatose): Relacionado à homeostase do ferro, impactando a produção de radicais livres via reação de Fenton.
SELENOF (Selenoproteína F): Atua na resposta antioxidante, auxiliando na proteção contra danos oxidativos.
SLC2A14 (Transportador de Glicose 14): Regula o metabolismo energético celular, influenciando indiretamente a produção de ROS.
ZNF648: Possível envolvimento na regulação da expressão gênica em resposta ao estresse oxidativo.
Determinadas variações nesses genes podem aumentar o risco de estresse oxidativo ao reduzir a capacidade antioxidante, comprometer a detoxificação de metabólitos tóxicos ou amplificar a inflamação. Indivíduos com variantes de SOD2, GPX1, GSTM1, NQO1, NFE2L2, IL-6 e TNF podem apresentar maior suscetibilidade ao dano oxidativo, sendo recomendável adotar estratégias antioxidantes (alimentação rica em antioxidantes, controle da inflamação e redução da exposição a estressores ambientais).

