Psicoestimulantes e alteração da microbiota em indivíduos com TDAH

O tratamento do TDAH pode envolver medicamentos psicoestimulantes, como o metilfenidato e as anfetaminas. Esses medicamentos atuam principalmente sobre os sistemas dopaminérgico e noradrenérgico do cérebro, contribuindo para a regulação da atenção, do controle dos impulsos e de outras funções executivas.

Mas o que o tratamento do TDAH tem a ver com o intestino?

A resposta passa pelo chamado eixo intestino-cérebro, uma complexa rede de comunicação entre o sistema gastrointestinal, a microbiota intestinal, o sistema imune, o metabolismo e o sistema nervoso.

O intestino também conversa com o cérebro

A microbiota intestinal é formada por trilhões de microrganismos que participam de processos importantes para o organismo. Essas bactérias produzem metabólitos, modulam respostas imunológicas e influenciam a integridade da barreira intestinal.

Entre os compostos produzidos pela microbiota estão os ácidos graxos de cadeia curta, como acetato, propionato e butirato. Essas moléculas participam da regulação da barreira intestinal, da resposta inflamatória e de mecanismos envolvidos na comunicação entre intestino e cérebro.

Isso não significa que a microbiota seja responsável pelo TDAH. A relação é muito mais complexa. Pesquisas recentes sugerem que pessoas com TDAH podem apresentar diferenças na composição e no funcionamento da microbiota intestinal, mas ainda não está estabelecido se essas alterações contribuem para o desenvolvimento do transtorno, se são consequência de outros fatores ou se existe uma relação bidirecional.

E onde entram os psicoestimulantes?

Um estudo publicado em 2023 investigou o microbioma intestinal de indivíduos com TDAH e observou diferenças entre crianças que utilizavam medicamentos psicoestimulantes e aquelas que não utilizavam. Foram identificadas alterações na composição bacteriana e em funções metabólicas do microbioma.

Um dos achados chamou atenção para genes relacionados ao metabolismo e à síntese bacteriana de vitamina B12. É importante interpretar esse resultado com cautela. O estudo demonstra uma associação, não uma relação de causa e efeito. Não é possível afirmar que o medicamento provoque disbiose ou que as alterações encontradas sejam necessariamente prejudiciais.

Além disso, diversos fatores podem influenciar a microbiota intestinal, incluindo alimentação, estado nutricional, hábito intestinal, composição corporal, atividade física, sono, uso de antibióticos e outros medicamentos. Aprenda a cuidar do intestino aqui.

O tratamento pode mudar a alimentação

Alguns pacientes em tratamento com psicoestimulantes apresentam redução do apetite, principalmente em determinados períodos do dia. Quando isso acontece de forma persistente, pode haver redução da ingestão energética e também da variedade de alimentos consumidos.

E a alimentação é um dos principais moduladores do microbioma intestinal. Uma dieta pouco variada e pobre em fibras reduz a disponibilidade de substratos para diversas espécies bacterianas. Por outro lado, uma alimentação diversificada fornece diferentes tipos de fibras e compostos bioativos que podem ser utilizados pela microbiota.

Por isso, em pacientes que utilizam psicoestimulantes, a avaliação nutricional deve considerar não apenas o peso corporal, mas também apetite, ingestão alimentar, variedade da dieta, consumo de fibras, hidratação e funcionamento intestinal.

Cuidar do intestino não significa substituir o tratamento

Esse ponto é fundamental. Cuidar da microbiota intestinal não significa interromper ou modificar um medicamento prescrito, nem significa tratar o TDAH exclusivamente pelo intestino.

A evidência científica disponível ainda não permite afirmar que a modulação da microbiota seja um tratamento para o TDAH. O que podemos fazer é cuidar dos fatores que sustentam um ambiente intestinal saudável e isso começa pela alimentação.

Uma dieta diversificada, com presença regular de frutas, hortaliças, leguminosas, cereais integrais, sementes, oleaginosas e outras fontes de fibras, fornece diferentes substratos para o metabolismo microbiano.

Também é importante garantir ingestão adequada de água e observar o funcionamento intestinal. Em algumas situações, sintomas como constipação, diarreia, distensão abdominal ou alterações persistentes do apetite merecem investigação individualizada.

E os probióticos?

A relação entre probióticos, microbiota e TDAH é uma área de pesquisa crescente. Existem estudos avaliando probióticos e simbióticos em pessoas com TDAH, mas os resultados ainda são heterogêneos. Não existe, atualmente, uma recomendação universal de que toda pessoa com TDAH deva utilizar probióticos.

Isso é importante porque “cuidar da microbiota” não é sinônimo de tomar um probiótico. A microbiota responde a um conjunto muito maior de fatores, especialmente à alimentação habitual, ao estilo de vida e ao contexto clínico individual.

A escolha de um probiótico, quando indicada, deve considerar a cepa, a dose, a duração do uso e o objetivo clínico. Não basta escolher um produto simplesmente porque ele contém “bactérias boas”.

O intestino faz parte do cuidado integral

A ciência ainda está começando a compreender a dimensão da relação entre microbiota, metabolismo e cérebro. No TDAH, as evidências atuais apontam para uma interação complexa entre fatores genéticos, neurológicos, ambientais, comportamentais, alimentares e possivelmente microbianos.

Por isso, a abordagem nutricional não deve partir da ideia de que existe uma única bactéria responsável pelo transtorno ou de que é possível “curar o TDAH pelo intestino”. O objetivo é mais amplo.

É garantir que o organismo tenha condições nutricionais adequadas para funcionar bem, especialmente quando o tratamento medicamentoso interfere no apetite, na ingestão alimentar ou no funcionamento gastrointestinal.

Cuidar do intestino, nesse contexto, é cuidar da alimentação, da variedade alimentar, das fibras, da hidratação e do hábito intestinal. Não como uma alternativa ao tratamento do TDAH, mas como parte de um cuidado integrado. Aprenda a cuidar do intestino aqui.

Referências

STIERNBORG, Miranda et al. Bacterial gut microbiome differences in adults with ADHD and in children with ADHD on psychostimulant medication. Brain, Behavior, and Immunity, v. 110, p. 310-321, 2023. DOI: 10.1016/j.bbi.2023.03.012.

CARABOTTI, Marilia et al. The gut-brain axis: interactions between enteric microbiota, central and enteric nervous systems. Annals of Gastroenterology, v. 28, n. 2, p. 203-209, 2015.

INTERNATIONAL PROBIOTICS ASSOCIATION. Navigating ADHD: insights from gut microbiome research. International Probiotics Association. Disponível em: International Probiotics Association. Acesso em: 2 out. 2026.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/