Obsessão por malhação mesmo em tempos de coronavírus?

Manter o corpo em movimento é importante. Contudo, no momento atual, a academia é um local de risco. Mesmo assim muitas pessoas não conseguem ficar longe dela. É o caso de João (nome fictício), que vai até lá diariamente. O corpo é lindo e seus amigos admiram sua dedicação. O que não sabem é que João toma ainda esteróides e passa horas ao dia preocupado se está pequeno demais, fraco demais, magro demais. Tem vergonha de seus braços enormes mas que em sua cabeça parecem magros demais.

A imagem corporal nem sempre tem a ver com nosso corpo real, é aquilo que percebemos acerca do próprio corpo. Afeta como pensamos, sentimos e agimos. João na verdade tem transtorno dismórfico corporal, uma condição psiquiátrica, que precisa ser tratada para que a pessoa não sinta-se constantemente feia, inadequada. Checar-se no espelho milhões de vezes ao dia acaba ocupando espaço de outras atividades que tornam a vida mais interessante e proveitosa. Deixando de fazer outras coisas importantes você estreita sua vida.

A associação de medicação com terapia cognitivo comportamental é a melhor forma de tratamento atualmente. Parar de seguir nas redes sociais pessoas que agravam as comparações também é importante. Vivemos em tempos de glorificação da beleza e da juventude e o foco na parte do corpo de outras pessoas que gostaria de ter cria mais distorções de imagem pois o corpo de uma pessoa não é igual ao de outra. Estudos mostram que quanto mais seguimos essas pessoas mais insatisfeitos nos sentimos com o próprio corpo.

João esconde a baixa autoestima. Quando se interessa por uma menina, nunca fala com ela. As mulheres o acham extremamente convencido, mas é justamente o contrário. Em geral, João não fala com ninguém pois tem pensamentos automáticos como:

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  • Ela nunca vai falar comigo com esses bracinhos fracotes;

  • Não pareço um homem de verdade;

  • Ela deve ter namorado;

  • Ela é muito bonita, nunca sairia comigo;

  • Ela não vai gostar de mim quando me conhecer;

  • É melhor eu malhar mais para que ela goste de mim.

Estes pensamentos automáticos são extremamente estressantes. São pensamentos que não ajudam. Além de tudo, a maioria deles nem deve ser verdadeira. Aprender a responder a cada uma dessas preocupações com um pensamento racional é muito importante. E é isso que a terapia ensina.

Os perigos das academias e ginásios em tempos de coronavírus

Nem todo mundo que gosta de malhar e sente falta da academia possui transtorno dismórfico corporal. Mesmo assim, precisamos pensar se vale a pena voltar. Por sua própria natureza, instalações esportivas, como academias, tendem a ser cheias de germes. Em um estudo publicado por LaBelle e colaboradores (2020), mostrou-se que o ambiente da academia está cheio de bactérias resistentes a medicamentos, vírus da gripe e outros patógenos. Cerca de 25% das superfícies testadas em quatro diferentes instalações de treinamento atlético estavam contaminadas.

Quando você tem uma densidade relativamente alta de pessoas se exercitando e suando em um espaço contido, as condições para a transmissão de doenças tornam-se perfeitas. Os equipamentos de ginástica podem ser difíceis de higienizar. Halteres, barras e outras superfícies são tocadas por várias pessoas em um curto espaço de tempo. Você terá paciência de desinfetar cada equipamento antes e depois de usar? Conseguirá manter distância de um metro entre todos os frequentadores do ambiente? Conseguirá lavar as mãos assim que chegar? Tem certeza que não tocará o rosto, nem para afastar o cabelo ou o suor? Sua academia oferece frascos de álcool em quantidade suficiente?

Praticantes de musculação respiram pesadamente e produzem muitas gotículas respiratórias que, em um ambiente fechado permanecem no ambiente. Sua academia é bem ventilada? Tem um sistema para filtrar o ar? Os funcionários da academia estão cuidando-se? E mais, você está dentro do grupo de risco (possui alguma doença crônica, é idoso, tem uma doença autoimune ou alguma deficiência que dificulte a limpeza ou higienização dos espaços)? Sua dieta é variada, colorida, cheia de nutrientes que mantém seu sistema imune forte e apto para se safar de uma possível infecção? Quando volta para casa encontra com idosos ou outras pessoas vulneráveis?

Não existe risco zero quando nos expomos a ambientes com muitas pessoas. Vale a pena para você?

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/
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