Autismo e erros inatos do metabolismo

Erros inatos do metabolismo (EIM) são distúrbios genéticos que afetam processos bioquímicos básicos. Estudos mostram que podem estar associados a comportamentos do autismo (TEA).

Embora o TEA tenha causas complexas (genéticas, ambientais, epigenéticas) e, em muitos casos, a etiologia permaneça desconhecida, os autores ressaltam que alguns casos podem ter origem metabólica tratável ou parcialmente tratável (Zigman et al., 2021).

Em muitos EIM, há sintomas do sistema nervoso central (mais de 50% dos pacientes) ou manifestações psiquiátricas. Em alguns casos, pacientes com EIM apresentam sintomas de TEA ou características autísticas.

No entanto, para TEA “não-sindrômico” (sem outros sinais clínicos óbvios além de autismo), a prevalência de EIM é baixa (<0,5%) segundo alguns estudos.

Tipos de EIM associadas ao TEA

  • Aminoácidos/metabolismo de transportadores: ex. Fenilcetonuria (PKU) — se não tratada, pode levar a deficiência intelectual e traços autísticos.

  • Distúrbios do ciclo da ureia — hiperamonemia que afeta o cérebro, podendo levar a sintomas neurológicos e comportamentais.

  • Distúrbios da biossíntese de colesterol — por exemplo Síndrome de Smith‑Lemli‑Opitz (SLOS) que tem frequentemente características de autismo.

  • Distúrbios mitocondriais e de energia — disfunção mitocondrial aparece com frequência em pacientes com TEA.

  • Distúrbios de neurotransmissores, purinas, creatina, etc.

Diagnóstico e abordagem terapêutica

  • Em casos de TEA com características “sindrômicas” (ou seja, com outros sinais clínicos neurológicos ou somáticos), deve haver avaliação de EIM — histórico clínico, exame neurológico, exames metabólicos básicos (aminoácidos plasmáticos, ácidos orgânicos urinários, acilcarnitinas, etc).

  • As terapias possíveis variam conforme o distúrbio: dieta de restrição (ex: na PKU), suplementação de co-fatores, terapia de reposição enzimática, transplante de órgão em casos selecionados.

  • Em particular, destacam-se seis princípios terapêuticos gerais: (1) redução do substrato tóxico, (2) remoção de metabólitos tóxicos, (3) suplementação do produto faltante, (4) estímulo da atividade enzimática deficiente, (5) terapia de reposição enzimática, (6) transplante de órgão.

Para famílias e profissionais que lidam com TEA, é importante lembrar que nem todos os casos são “apenas genéticos/ambientais”: há uma fatia que pode ter causas metabólicas tratáveis — o que abre esperança de intervenção precoce.

Valorize a avaliação detalhada: se existir atraso global, regressão, outros sinais neurológicos (convulsões, ataxia), ou sinais somáticos (problemas metabólicos, digestivos, etc), considerar encaminhamento para avaliação metabólica/genética.

Embora algumas crianças com TEA terem erros inatos do metabolismo identificáveis, isso representa apenas uma pequena fração dos casos (estima-se até ~5%). Porém, estudos metabolômicos mais amplos têm relacionado alterações em aminoácidos (glicina, taurina), metabolismo energético (succinato) ao TEA.

Estes estudos mostram evidências de possíveis disfunções mitocondriais, de fosforilação oxidativa e de estresse oxidativo em grupos com TEA. Mostram também alterações associadas ao microbioma intestinal.

Aprenda mais:

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Autismo com herança mendeliana x não-mendeliana

O Transtorno do Espectro do Autismo pode resultar tanto de mutações mendelianas (clássicas), em que um único gene segue um padrão previsível de herança, quanto de mecanismos não mendelianos, que envolvem múltiplos genes, variações estruturais e fatores epigenéticos/ambientais.

1. Autismo com herança Mendeliana (clássica)

Esses casos representam cerca de 5–10% dos TEA, geralmente associados a síndromes genéticas monogênicas bem definidas.
O padrão de herança pode ser autossômico dominante, autossômico recessivo, ou ligado ao X.

Quando o autismo é parte de uma síndrome genética conhecida, a herança geralmente é mendeliana. Esses casos são chamados de TEA sindrômico ou monogênico.

2. Autismo com herança não Mendeliana

A maioria dos casos de TEA (≈ 80–90%) segue um padrão complexo, não mendeliano, envolvendo múltiplos genes e fatores ambientais. O autismo é altamente heterogêneo, com grande variação entre indivíduos. Há muitos genes candidatos (mais de 100 genes implicados, variação de número de cópias, variantes de novo, etc).

Na imagem abaixo vemos a representação de alguns cones. Cada cone é uma pessoa. Dentro do cone estão bolas coloridas, que simbolizam faotres de risco genéticos ou ambientais que podem contribuir para o desenvolvimento de um transtorno complexo, como o autismo.

Cada fator de risco adiciona certo volume ao cone. A linha tracejada no topo do cone é o limiar (threshold) para manifestação do transtorno. Se os fatores de risco ultrapassam a linha tracejada, a pessoa manifesta os sintomas. É como se o copo entornasse.

Na imagem, o pai (father) carrega algumas variantes, a mãe (mother) outras. Seus filhos 1 e 4 herdaram mais variantes e o copo transborda, com o desenvolvimento do autismo. As crianças 2 e 3 herdaram variantes menores e não ultrapassaram o limite para o desenvolvimento do transtorno. Assim como no TEA, outros transtornos também resultam da combinação de muitos fatores genéticos, epigenéticos e ambientais.

Diferentes indivíduos na mesma família podem carregar variantes semelhantes, mas só desenvolvem transtornos se a soma dos riscos ultrapassar determinado limiar. Isso ajuda a explicar:

- Penetrância incompleta (nem todos com mutações ou polimorfismos são afetados)

- Variabilidade fenotípica (irmãos com o mesmo gene podem ter trajetórias distintas).

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Alergia alimentar mediada por IgE x Alergia alimentar não mediada por IgE

A saúde gastrointestinal depende da tolerância do sistema imunológico adaptativo a proteínas alimentares estranhas [1]. A diferença entre alergia alimentar mediada por IgE e não mediada por IgE está no mecanismo imunológico envolvido e, consequentemente, no tempo e tipo de sintomas que aparecem após a ingestão do alimento.

Alergia alimentar mediada por IgE

Envolve anticorpos IgE (imunoglobulina E) específicos contra determinadas proteínas alimentares. Quando o alimento é ingerido, a IgE reconhece o alérgeno e ativa mastócitos e basófilos, que liberam histamina e outras substâncias inflamatórias.

Tempo de início dos sintomas:

  • Rápido (minutos a até 2 horas) após a exposição ao alimento.

Manifestações clínicas típicas:

  • Cutâneas: urticária, angioedema, prurido, vermelhidão.

  • Respiratórias: tosse, espirros, chiado, falta de ar.

  • Gastrointestinais: náusea, vômito, dor abdominal.

  • Sistêmicas: anafilaxia (reação grave e potencialmente fatal).

Diagnóstico:

  • Testes cutâneos (prick test).

  • Dosagem de IgE específica no sangue.

  • Teste de provocação oral supervisionado.

Alergias mais comuns mediadas por IgE:

Alergia alimentar não mediada por IgE

Não envolve IgE e sim células do sistema imune (principalmente linfócitos T). As reações são mais tardias e inflamatórias do que imediatas.

Tempo de início dos sintomas:

  • Horas a dias após a ingestão do alimento.

Manifestações clínicas típicas:

  • Quase sempre gastrointestinais crônicas:

    • Diarreia persistente, sangue nas fezes, dor abdominal, vômitos.

    • Pode haver perda de peso, dificuldade de crescimento em crianças.

  • Exemplo: enterocolite induzida por proteína alimentar, proctocolite alérgica, enteropatia induzida por proteína alimentar.

Diagnóstico:

  • Testes de IgE e prick test geralmente negativos.

  • Diagnóstico baseado na história clínica e melhora após exclusão do alimento (e piora após reintrodução).

A alergia alimentar gastrointestinal não mediada por IgE envolve reações adversas a alimentos mediadas pelo sistema imunológico inato e pela imunidade celular, caracterizadas por sintomas gastrointestinais subagudos ou crônicos [2]. Essas condições, incluindo a Síndrome da Enterocolite Induzida por Proteína Alimentar (FPIES), envolvem a imunidade do tipo T auxiliar 2 (TH2), bem como TH1, TH17, imunidade inata e defeitos na barreira mucosa epitelial [3].

Na FPIES uma proteína do alimento age como antígeno, que é apresentado aos linfócitos T pelas células apresentadoras de antígeno (APCs). Isto leva a liberação de IL-4, causando a proliferação de eosinófilos, IL8, causando a proliferação de neutrófilos. A redução na expressão de TGF-beta nas células epiteliais e aumento de TNF-alfa e IFN-y levam a inflamação e aumento da permeabilidade intestinal (Pundit et al., 2024).

Alergia alimentar mista (IgE e não-IgE)

Há ainda um grupo misto, com envolvimento tanto de IgE quanto de células T:

  • Exemplos: dermatite atópica, esofagite eosinofílica.

  • Sintomas podem ser tanto imediatos quanto tardios.

Um estudo utilizando um método sensível ao enriquecimento celular demonstrou que células T CD4+ policlonais respondem a peptídeos alimentares proliferando fracamente em órgãos linfoides secundários do eixo intestino-fígado, principalmente devido a células T reguladoras [1]. Esse processo envolve a diferenciação de células T específicas para alimentos em subconjuntos de células T auxiliares hiporresponsivas não canônicas, que não possuem funções inflamatórias e podem produzir células T reguladoras [1].

A alergia alimentar pode se desenvolver a partir de uma falha na tolerância oral, que é influenciada pela microbiota intestinal [4]. Um estudo envolvendo 81 crianças de 18 a 36 meses de idade descobriu que crianças com hipersensibilidade alimentar mediada por IgE apresentavam diversidade e riqueza da microbiota intestinal significativamente menores em comparação com crianças saudáveis ​​[5]. Alterações específicas na microbiota intestinal, como o aumento da abundância de Firmicutes e famílias específicas como Clostridiaceae, Ruminococcaceae, Lachnospiraceae ou Erysipelotrichaceae, foram associadas a hipersensibilidades alimentares particulares, como leite, clara de ovo e amendoim [5].

Referências

1) SW Hong et al. Immune tolerance of food is mediated by layers of CD4+ T cell dysfunction. Nature (2022). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35794484/

2) IM Madrigal-Beas et al. [Non-IgE-mediated gastrointestinal food allergy. Updated literature review by the CMICA Food Allergy Committee]. Revista alergia Mexico (Tecamachalco, Puebla, Mexico : 1993) (2025). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40253634/

3) KW Su et al. Gastrointestinal immunopathology of food protein-induced enterocolitis syndrome and other non-immunoglobulin E-mediated food allergic diseases. Annals of allergy, asthma & immunology : official publication of the American College of Allergy, Asthma, & Immunology (2021). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33667639/

4) A Nowak-Wegrzyn et al. Food allergy and the gut. Nature reviews. Gastroenterology & hepatology (2016). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27999436/

5) CC Chen et al. Comparison of 16S rRNA gene sequencing microbiota among children with serological IgE-mediated food hypersensitivity. Pediatric research (2023). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37648747/

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/