Assinatura metabolômica no Alzheimer

As assinaturas metabólicas desempenham um papel significativo na compreensão da doença de Alzheimer (DA), fornecendo informações sobre os mecanismos da doença, potenciais biomarcadores e alvos terapêuticos. A assinatura metabolômica no Alzheimer refere-se ao conjunto de alterações nos metabólitos presentes em fluidos biológicos (como sangue, líquido e urina) que estão associados à progressão da doença de Alzheimer (DA). A metabolômica, que estuda esses metabólitos, pode ajudar na identificação de biomarcadores precoces, diferenciação de subtipos da doença e monitoramento da resposta a tratamentos.

Um estudo construiu redes metabólicas específicas para sexo e genótipo APOE usando amostras de soro de pacientes com DA. Esta pesquisa destacou assinaturas metabólicas únicas que poderiam servir como biomarcadores específicos do paciente preditivos da função cognitiva e do estado da doença, observando particularmente uma mudança em direção a um perfil focado na fosfatidilcolina em portadores de APOE ɛ4 [1].

Outro estudo identificou alterações metabólicas baseadas no sangue em pacientes com DA, revelando 26 metabólitos expressos diferencialmente. Esses metabólitos melhoraram o desempenho da classificação de variáveis ​​clínicas, sugerindo seu potencial como biomarcadores precoces para DA [2].

Pesquisas em cérebros humanos post-mortem identificaram assinaturas metabólicas associadas à progressão neurodegenerativa em regiões cerebrais específicas, indicando que alterações metabólicas podem estar correlacionadas com a gravidade e progressão da DA [3].

Um estudo discutiu o papel dos BCAAs na DA, observando que níveis mais baixos de valina plasmática estão correlacionados com declínio cognitivo acelerado. Isso sugere que o metabolismo dos BCAAs pode ser um fator significativo no desenvolvimento e progressão da DA [4].

Uma meta-análise destacou que as alterações metabólicas ligadas à neuroinflamação, ao estresse oxidativo e à disfunção mitocondrial são cruciais na fisiopatologia do comprometimento cognitivo leve e da DA, enfatizando a necessidade de uma exploração mais aprofundada dessas alterações metabólicas [5].

Além das alterações acima, pesquisas também demonstram alterações relevantes nos seguintes grupos de metabólitos urinários:

  • Metabolismo energético:

    • Redução de metabólitos associados ao ciclo do ácido tricarboxílico (TCA), como citrato e succinato, disfunção mitocondrial.

    • Diminuição de corpos cetônicos (β-hidroxibutirato), que podem ser uma fonte alternativa de energia quando o metabolismo da glicose está comprometido.

  • Metabolismo lipídico:

    • Redução de fosfatidilcololinas e esfingolipídeos, essencial para a integridade das membranas celulares e comunicação neuronal.

    • Alterações nos níveis de ácidos graxos de cadeia longa e oxidantes lipídicos, diminuindo o estresse oxidativo e a inflamação.

  • Neurotransmissão

    • Alterações nos níveis de glutamato e GABA, ajudando desbalanço na neurotransmissão excitatória e inibitória.

    • Redução de metabólitos do triptofano e da serotonina, associados a sintomas depressivos na DA.

  • Metabolismo dos aminoácidos

    • Aumento de homocisteína, associado ao estresse oxidativo e risco de neurodegeneração.

    • Alterações em fenilalanina e tirosina, ligadas à via dopaminérgica e ao comprometimento cognitivo.

  • Marcadores de inflamação e estresse oxidativo

    • Aumento de metabólitos associados à ativação da microglia, como quinurenina.

    • Desequilíbrio no metabolismo da glutação, indicando maior vulnerabilidade ao estresse oxidativo.

  • Metabólitos bacterianos intestinais

O conhecimento dos biomarcadores permite o desenvolvimento de intervenções terapêuticas baseadas no metabolismo, como dieta cetogênica ou suplementação de metabólitos protetores.

A metabolômica tem grande potencial para revolucionar o diagnóstico e tratamento do Alzheimer, oferecendo um perfil bioquímico detalhado da progressão da doença. 🚀

References:

1) R Chang et al. Predictive metabolic networks reveal sex- and APOE genotype-specific metabolic signatures and drivers for precision medicine in Alzheimer's disease. Alzheimer's & dementia : the journal of the Alzheimer's Association (2022). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35481667/

2) FA de Leeuw et al. Blood-based metabolic signatures in Alzheimer's disease. Alzheimer's & dementia (Amsterdam, Netherlands) (2017). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28951883/

3) M Ambeskovic et al. Metabolomic Signatures of Alzheimer's Disease Indicate Brain Region-Specific Neurodegenerative Progression. International journal of molecular sciences (2023). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37834217/

4) B Polis et al. Role of the metabolism of branched-chain amino acids in the development of Alzheimer's disease and other metabolic disorders. Neural regeneration research (2020). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31997805/

5) T Song et al. Mitochondrial dysfunction, oxidative stress, neuroinflammation, and metabolic alterations in the progression of Alzheimer's disease: A meta-analysis of in vivo magnetic resonance spectroscopy studies. Ageing research reviews (2021). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34751136/

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Testes para avaliação de insuficiência pancreática

A insuficiência pancreática exócrina (IPE) ocorre quando o pâncreas não produz ou secreta enzimas digestivas suficientes para a digestão adequada dos alimentos, levando a má absorção de nutrientes, especialmente gorduras e vitaminas lipossolúveis.

A insuficiência pancreática é comum na fibrose cística, pancreatite, diabetes, doença celíaca avançada, síndrome do intestino curto. A suspeita é a clínica: perda de gordura nas fezes, fezes com cheiro fétido, diarreia, perda de peso, dor abdominal, flatulência excessiva e inchaço. O exame mais comum é o teste de elastase fecal, mas existem outros.

  • Elastase fecal: A elastase fecal é um dos exames mais utilizados, pois é simples, não invasivo e confiável para detectar insuficiência pancreática moderada a grave.

  • Vande Kamer: Mede a quantidade de gordura eliminada nas fezes ao longo de 72 horas. O paciente segue uma dieta com 100 g de gordura por dia antes e durante a coleta. Se a excreção de gordura fecal ultrapassar 7 g por dia, sugere má absorção, sendo um sinal de insuficiência pancreática, doença celíaca, síndrome do intestino curto, entre outras condições. Embora seja um teste confiável, não é frequentemente utilizado pois é muito trabalhoso.

  • Teste do coeficiente de absorção de gordura – Mede a absorção de gordura nas fezes.

  • Teste de quimotripsina fecal – Avalia a presença da enzima digestiva quimotripsina nas fezes.

  • Teste do bicarbonato e secretina (teste da função pancreática direta) – Mede a resposta pancreática à secretina através de coleta de suco duodenal.

  • Teste do BT-PABA (bentiromida) – Mede a atividade da quimotripsina urinária após ingestão de um substrato.

  • Teste da pancreolaurina – Avalia a hidrólise de um éster específico pelo pâncreas, com dosagem na urina.

  • Teste de triglicerídeos marcados com ¹³C – Avalia a digestão de triglicerídeos pelo pâncreas através da expiração de CO₂ marcado.

Tratamento

O tratamento é baseado na reposição enzimática e na melhora da nutrição:

1. Terapia de Reposição Enzimática Pancreática (TREP)

✅ Uso de enzimas digestivas (como pancrelipase) em cápsulas durante as refeições.

✅ Melhora a digestão e absorção de nutrientes.

2. Dieta e Suplementação

✅ Alimentação rica em proteínas e calorias.
✅ Redução de alimentos muito gordurosos se não houver boa resposta à reposição enzimática.
✅ Suplementação de vitaminas lipossolúveis (A, D, E, K).
✅ Uso de triglicerídeos de cadeia média (TCM), que são absorvidos diretamente pelo fígado, sem necessidade de enzimas digestivas.

3. Tratamento da Causa Subjacente

✅ Controle da pancreatite crônica, fibrose cística ou outras condições associadas.

A insuficiência pancreática pode impactar significativamente a qualidade de vida, mas com o tratamento adequado, os sintomas podem ser controlados e as complicações evitadas. Precisa de ajuda? Marque aqui sua consulta de nutrição online.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/

Doença hepática e disbiose intestinal na fibrose cística

A doença hepática relacionada à fibrose cística (CFLD) é uma complicação significativa da fibrose cística (FC), caracterizada por obstrução dos ductos biliares, inflamação hepática e fibrose. Evidências crescentes sugerem que a disbiose intestinal, ou um desequilíbrio na microbiota intestinal, desempenha um papel importante na patogênese da CFLD. Estudos utilizando modelos de camundongos com FC forneceram insights cruciais sobre como as alterações na microbiota intestinal contribuem para a disfunção hepática.

Principais Mecanismos que Ligam a Disbiose Intestinal à CFLD em Camundongos

1) Alteração na Composição da Microbiota Intestinal

Camundongos com FC apresentam redução na diversidade microbiana, com aumento de bactérias pró-inflamatórias (como Enterobacteriaceae) e diminuição de bactérias benéficas (como Lactobacillus e Bifidobacterium). Esse desequilíbrio prejudica a homeostase intestinal, levando ao aumento da permeabilidade intestinal e à inflamação sistêmica.

2) Disfunção da Barreira Intestinal e Maior Translocação Bacteriana

A deficiência de CFTR compromete a integridade da mucosa intestinal, permitindo que bactérias passem do intestino para o fígado através da veia porta. Endotoxinas bacterianas, como lipopolissacarídeos (LPS), desencadeiam inflamação hepática ativando células de Kupffer e outras respostas imunes.

3) Desregulação dos Ácidos Biliares

Camundongos com FC apresentam secreção biliar prejudicada e alteração na sinalização intestino-fígado dos ácidos biliares, favorecendo o crescimento de microbiota patogênica. A disfunção no metabolismo dos ácidos biliares contribui para a colestase e lesão hepatocelular.

4) Inflamação Crônica no Fígado e Fibrose

O aumento de metabólitos bacterianos e endotoxinas induz a produção de citocinas pró-inflamatórias (IL-6, TNF-α, IL-1β), promovendo a fibrose hepática. A inflamação derivada do intestino exacerba a ativação das células estreladas hepáticas, levando à progressão da fibrose e cirrose.

Possíveis Abordagens Terapêuticas

  • Uso de Prebióticos: Fibras específicas que ajudam a restaurar a microbiota benéfica e reduzir a permeabilidade intestinal.

  • Moduladores de Ácidos Biliares: Compostos como ácido ursodesoxicólico (UDCA) podem ajudar a regular o fluxo biliar e reduzir a lesão hepática.

  • Agentes Anti-inflamatórios: Visam reduzir a inflamação hepática induzida por LPS para retardar a progressão da doença.

  • Uso de enzimas pancreáticas e reposição de vitaminas, ajuste de calorias, carboidratos, proteínas e gorduras para melhoria do estado nutricional.

    • Lipase

      • Bebês até 12 meses de vida: 2.000 a 4.000 U lipase /120 mL de fórmula ou 1.000-2.000 U de lipase/g de gordura nos alimentos

      • Crianças de 1 a 4 anos: 2.000 a 4.000 U lipase/g de gordura. A dose pode ser aumentada até 10.000 U/KgP conforme necessidade.

      • A partir dos 4 anos: 500 U lipase/kg/refeição até 2.500 lipase/Kg/refeição ou 10.000 U lipase/kg/dia ou 2.000 a 4.000U lipase /g de gordura das refeições, lanches, bebidas (Neri et al., 2022).

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