Nutrição e doença de Crohn

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A doença de Crohn é uma afecção inflamatória crônica, que pode acometer qualquer local do trato digestivo, da boca ao ânus. A parte final do intestino delgado costuma ser bastante afetada. A ciência ainda não compreende a causa da doença, mas parece haver envolvimento genético, podendo atingir vários membros da mesma família. Também há envolvimento do sistema imunológico e do ambiente.

As células imunológicas acumulam-se nos intestinos, atacando bactérias, alimentos, tecido corporal saudável e outras substâncias inofensivas ou mesmo benéficas, causando sintomas como dor abdominal, diarréia, sangramento retal, perda de peso, febre e fadiga. Essas células imunes que se acumulam produzem substâncias químicas que promovem a inflamação, danificam as paredes intestinais e causam os sintomas da doença de Crohn.

O tratamento medicamentoso visa deter e cicatrizar os processo inflamatório intestinal. Cirurgias ficam reservadas quando há a necessidade de correção de complicações , como obstrução, hemorragia e abscessos. Durante as crises ocorre uma diminuição da capacidade de absorção de nutrientes. Há também perda de fluidos e eletrólitos, principalmente se houver diarreia.

Outras preocupações durante crises são a febre e o emagrecimento. Para garantir que todas as necessidades sejam atendidas durante crises pode ser necessária o uso de uma sonda (terapia enteral ou mesmo parenteral) ou modificações na dieta. Suplementos também podem ser prescritos pelo nutricionista já que deficiências podem surgir (especialmente de cálcio, ferro, zinco, manganês, cobre, selênio, vitaminas D, B9 e B12).

Se o paciente apresentar perda de apetite, risco de desnutrição ou já estiver desnutrido, se apresentar intolerâncias ou esteatorréia (perda de gordura nas fezes) produtos hipercalóricos e hiperproteicos também poderão ser necessários. Mesmo comendo bem a necessidade de energia está aumentada quando o intestino está muito inflamado ou perdendo sangue.

Durante as crises certos alimentos podem piorar os sintomas, aumentando gases e agravando a diarréia. É importante manter um diário alimentar que facilite a compreensão dos tipos de alimentos que funcionam como gatilhos para as crises. Além disso, é importante:

  • Fazer pequenas refeições, várias vezes ao dia;

  • Beber pequenas quantidades de água ou água de coco frequentemente ao longo do dia;

  • Se estiver com diarreia, evitar alimentos ricos em fibras. Cereais, massa e pães integrais, leguminosas (feijão, lentilha, ervilha, grão de bico) podem piorar o inchaço e dor abdominal. Estes alimentos podem ser bem tolerados fora das crises;

  • Evitar nozes, sementes e pipoca pois podem ser difíceis de digerir, causando maior irritação intestinal;

  • Cozinhar frutas e vegetais para facilitar a digestão;

  • Evitar alimentos gordurosos e frituras pois podem piorar os sintomas;

  • Evitar pimentas e outros alimentos picantes;

  • Limitar o consumo de produtos lácteos, se tiver dificuldade em digerir a lactose, o açúcar encontrado no leite;

  • Limitar a ingestão de cafeína, pois agrava as crises;

  • Evitar as bebidas alcoólicas e as com gases, como refrigerantes;

  • Dar preferência a alimentos leves e macios;

  • Reduzir o consumo de FODMAPs;

  • Incluir proteína suficiente na dieta.

Embora a doença de Crohn seja desafiadora é possível viver uma vida plena, recompensadora, feliz e produtiva. Existem algumas evidências de que os ácidos graxos ômega-3 (ou seja, óleos de peixe) podem ser úteis na redução de recidivas na doença de Crohn, devido ao seu efeito antiinflamatório. As dietas de exclusão mostraram benefício limitado, quando o paciente encontra-se estável. Ou seja, fora das crises a dieta vai sendo aos poucos liberada, respeitando-se a tolerância de cada pessoa.

Estudos preliminares sobre preparações probióticas que contenham Bifidobacterium, Lactobacillus e Streptococcus são promissoras na prevenção da recorrência da doença de Crohn. Prebióticos (alimentos não digeríveis que estimulam a atividade bacteriana no cólon) também podem ser suplementados, quando bem tolerados, ajudando a melhorar a composição da microbiota e a reduzir a inflamação do trato digestivo.

A atividade física regular é muito importante, ajudando a prevenir a osteoporose, manter a massa muscular, além de estimular o apetite. Para a saúde mental psicoterapia, grupos de suporte, meditação e yoga podem ser de grande valia.

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, mestre em nutrição humana, doutora em psicologia clínica e cultura, pós-doutora em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em Coaching e Yoga. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/contato/