Dieta saudável não tem desvantagem

Dieta saudável não tem contra-indicação. O que dá problema é macarrão instantâneo, salgadinhos e refrigerantes. Alimentos ultraprocessados não contribuem para a saúde. Ponto. A indústria esperneia. Diz que não há ensaios aleatorizados, randomizados, controlados suficientes (mas há). E mesmo que não houvesse, você não precisa esperar por este tipo de estudo.

Veja o caso do cigarro. Foram necessários mais de 7.000 estudos e a morte de uma quantidade gigantesca de pessoas para que os governos e as sociedades médicas entrassem em um consenso sobre a conexão entre o tabagismo e o câncer de pulmão. A pressão da indústria do tabaco sempre foi grande. E no caso da indústria alimentícia acontece o mesmo. É muito lobby, muito financiamento (compra) de pesquisadores. Você não precisa de milhares de estudos dizendo que alimentos cheios de açúcar e gordura hidrogenada fazem mal para entender a mensagem.

São cinco os comportamentos capazes de estender sua vida em mais de uma década: dieta saudável, não fumar, praticar atividade física regular, reduzir o consumo de álcool e manter um peso adequado para sua altura (Li et al., 2018).

O câncer, por exemplo, é um fardo mundial. Em 2012 foram diagnosticados mais de 14 milhões de casos em todo o mundo. Mas muito está em nossas mãos. Cerca de um terço das neoplasias mais comuns podem ser evitados com mudanças de hábito. O problema é que mesmo com toda essa informação disponível, a dieta tem piorado em quase todos os países industrializados. O consumo de alimentos ultraprocessados é altíssimo, chegando a contribuir com 50% das calorias que muita gente consome diariamente. Várias características dos alimentos ultraprocessados podem estar envolvidos em doenças, como o câncer.

Alimentos ultraprocessados são ricos em gordura total, gordura saturada, açúcar e sal. Possuem baixa quantidade de fibras e vitaminas. Podem ter contaminantes cancerígenos (como acrilamida, aminas heterocíclicas e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos). A embalagem pode conter disruptores endócrinos - como ftalatos e bisfenol -, aditivos como como nitrito de sódio e dióxido de titânio. A ingestão de alimentos ultraprocessados (como salgadinhos, refrigerantes, balas, pirulitos, sorvetes, macarrão instantâneo, foi associada a uma maior incidência de dislipidemia (excesso de gordura no sangue), maior risco de sobrepeso, obesidade e hipertensão em crianças brasileiras e universitários espanhóis.

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Na França, o estudo NutriNet-Santé observou que o alto consumo de alimentos ultraprocessados (incluindo também pães embalados, snacks doces ou salgados, produtos de confeitaria, sobremesas refrigeradas, nuggets e hambúrgeres congelados, bebidas açucaradas, sopas instantâneas, refeições prontas, óleos hidrogenados ou qualquer outro produto rico em aromatizantes, corantes, emulsionantes, humectantes, adoçantes que imitem propriedades naturais dos alimentos). O consumo de 104.980 participantes sem câncer no início do estudo foi comparado com o registro médico e níveis de atividade física.

Os modelos foram ajustados por idade (escala de tempo), sexo, índice de massa corporal, estatura, atividade física (alta, moderada, baixa), tabagismo (nunca ou ex-fumantes, fumantes atuais), ingestão de álcool, consumo energético, história familiar de câncer (sim/não), e nível de escolaridade (menos de ensino médio, menos de dois anos após o ensino médio, dois ou mais anos após o ensino médio). Para análises de câncer de mama, foram feitos ajustes adicionais para o número de crianças biológicas, fase da vida (menopausa / perimenopausa / não menopáusica), tratamento hormonal e utilização de contracepção oral. O modelo também foi ajustado para ingestão de lipídios, sódio e carboidratos.

Durante o período de 8 anos de acompanhamento 2.228 pessoas desenvolveram câncer. As análises estatísticas mostraram que o aumento de 10% de consumo de alimentos ultraprocessados foi associado ao aumento em 12% do risco de câncer total. Gorduras e molhos ultraprocessados, bebidas e produtos açucarados foram associados a maior risco de câncer total. Particularmente, o risco de câncer de mama é bastante elevado com este padrão de consumo ocidentalizado.

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Alimentos ultraprocessados têm sido associados a uma maior resposta glicêmica e um menor efeito de saciedade. A ingestão excessiva de energia, gordura e açúcar contribui para o ganho de peso e o risco de obesidade, sendo a obesidade reconhecida como um importante fator de risco para câncer de mama, estômago, fígado, colo-retal, esôfago, pâncreas, rim, vesícula biliar, endométrio, ovário, fígado e câncer de próstata e malignidades hematológicas. A ampla gama de aditivos contidos em alimentos ultraprocessados podem ter efeito cumulativo, merecendo mais investigação. Carnes processadas podem conter nitrosaminas carcinogênicas envolvidas no aumento do câncer colorretal.

Produtos ultraprocessados ricos em carboidratos como batatas fritas, biscoitos e pão são submetidos a altas temperaturas, o que gera maior formação de acrilamida, envolvida no aumento de vários tipos de câncer, como o renal. Por fim, o bisfenol A é outro contaminante suspeito de migrar de embalagens plásticas para alimentos ultraprocessados. Evidências crescentes sugerem envolvimento da substância com problemas endócrinos e câncer de de várias glândulas.

Recomenda-se ações de políticas voltadas à reformulação de produtos, tributação e restrições de comercialização de produtos ultraprocessados e um esforço maior para a promoção de alimentos in natura ou minimamente processados, que contribuam para a saúde (Fiolet et al., 2018). Como será sua alimentação em 2019? Mais sobre câncer e alimentação:

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, mestre em nutrição humana, doutora em psicologia clínica e cultura, pós-doutora em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em Coaching e Yoga. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/contato/